Trilha Vozes Negras

Em “No seu pescoço”, Chimamanda nos presenteia com sua habilidade em escrever sobre relações humanas

Chimamanda Ngozi Adichie, No seu pescoço Share this post
       Ana Souza

Em “No seu pescoço”, Chimamanda nos presenteia com toda sua habilidade em descrever as relações humanas que regem a sociedade. Nos doze contos que compõem o livro, a autora cria seu próprio mosaico de temas — indo da Nigéria aos EUA, do colonizado ao colonizador, do branco ao negro, do velho ao jovem.

Parece não existir um assunto sobre o qual Chimamanda não possa mergulhar. Quebrando estereótipos e mostrando, mais uma vez, o poder da sua escrita, nesta obra a autora faz aquilo que todo escritor sonha em fazer: retratar a sociedade e o humano de forma profunda, a partir de uma prosa que hipnotiza o leitor. 

“[…] explicando que as ondas de violência não acontecem do nada, que a religião e as etnias muitas vezes são politizadas porque o governante fica a salvo quando os governados famintos matam uns aos outros.”

Chimamanda Ngozi Adichie
    Ilustração: Gabriela Pires

É também neste livro de contos que a autora discorre sobre seu processo de se descobrir negra, quando deixa a Nigéria e passa a morar nos EUA. A partir de um movimento geográfico, a escritora redescobre sua própria identidade — foi ocupando este novo lugar, onde ter a cor da sua pele não era o universal, mas uma fuga do padrão carregada de estigmas, que Chimamanda se depara com o peso social de ser uma pessoa negra em diáspora; mas também com a potencialidade da sua voz. 

Além de escritora, a nigeriana é uma das personalidades negras contemporâneas mais influentes no mundo todo — sua voz tem o potencial de conversar com muitos, de maneira didática e direta. A autora, feminista autodeclarada, tornou-se mundialmente conhecida por suas declarações, principalmente a respeito do feminismo. Sua conferência O perigo da história única conta hoje com mais de 9 milhões de visualizações no Youtube. Uma outra conferência sua, Sejamos todos feministas, — relembrando que a necessidade de discutir gênero não pertence só às mulheres, mas à toda sociedade — também viralizou, ganhando até mesmo uma versão escrita.

Em um contexto em que, até então, grande parte das vozes feministas em destaque eram brancas — apesar de que outras mulheres negras, como bell hooks e Angela Davis, sempre estudaram e discutiram sobre o feminismo de maneira completa e revolucionária — Chimamanda é uma jovem voz que reinventa a noção universal de mulher: branca e ocidental. 

Como toda boa literatura se propõe a ser, “No seu pescoço” é um excelente exercício de alteridade e empatia — para quem busca entender como é ocupar outros lugares no mundo, além do seu.

Chimamanda escreve contos que abrem um leque de opressões sociais que se interconectam hoje em dia. Nas doze histórias, encontramos e aprendemos sobre questões raciais, culturais, de gênero, de classe e de educação. Para abraçar toda sua pluralidade, o mundo atual precisa de leituras como essa. 

Para conhecer a edição de “No seu pescoço” (em capa dura!) que faz parte da Trilha Vozes Negras — junto a outros seis grandes livros da literatura nacional e internacional, acesse aqui. Vamos enegrecer as nossas bibliotecas?

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