Formada em Letras e mestra em Francês Antigo, Clara Dupont-Monod, autora do mês da TAG Curadoria, nasceu em Paris. Suas origens familiares, porém, estão nas montanhas de Cévennes, a duas horas de Montpellier. E foi esse o cenário que ela escolheu para ambientar a história de Se adaptar, um livro que ao mesmo tempo aperta e alenta o coração do leitor.
Clara Dupont-Monod escreveu a partir da memória emocional de sua própria experiência crescendo ao lado de um irmão que teve paralisia cerebral e viveu até os dez anos de idade. A percepção crua e sem máscaras da infância foi uma via para expor sentimentos difíceis de assumir, que fazem parte do processo afetivo de familiares de pessoas com deficiência. A autora personificou nos personagens os paradoxos afetivos que experimentou enquanto crescia: vergonha, raiva, proteção, cuidado. Leia abaixo a entrevista exclusiva da autora para a TAG!
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CINCO PERGUNTAS PARA CLARA DUPONT-MONOD
1- Se adaptar explora a experiência emocional e o dia a dia de uma família diante do nascimento de um bebê que tem uma deficiência. Você já comentou em entrevistas que conviveu com uma criança com deficiência na sua família. De que forma sua experiência pessoal influenciou sua escrita, e como você se aproximou desse tema para garantir uma abordagem sensível e realista?
Eu realmente tive um irmão deficiente, que morreu aos dez anos. Nunca consegui transformar isso numa experiência triste — esse encontro, ainda que breve, ainda que imperfeito, me tornou infinitamente menos tola e mais tolerante. Por isso, sempre disse a mim mesma que um dia escreveria sobre essa luz que esse pequeno ser imperfeito foi capaz de revelar. E agora está feito. Bastou-me inclinar o ouvido para as lembranças felizes para que esse passado se transformasse num romance, no barulho da água, no sol.
2- A paisagem onde se desenrola o enredo desse livro é quase como uma personagem em si. As montanhas, por exemplo, são presenças muito fortes que ajudam o irmão mais velho a lidar com a própria angústia ao perceber que a sociedade rejeita o seu irmãozinho. O fluxo e os sons do rio também trazem aprendizados importantes para a irmã do meio. E você escolheu contar essa história pela perspectiva das pedras do jardim. O que motivou essa escolha narrativa?
A armadilha era o emocional. A presença da natureza me ajudou. Porque eu disse a mim mesma que era preciso converter uma emoção no seu equivalente natural. Passar do emocional para o sensorial. Por exemplo, em vez de escrever “ele está alegre”, encontrar o equivalente da alegria na natureza (um riacho, uma brisa, um amanhecer…).
Quanto às montanhas, elas impuseram sua lei: nesse tipo de paisagem, o humano deve se adaptar à natureza, e não o contrário. As crianças do livro conhecem essa mecânica — cresceram com ela. Mas, com a chegada do irmão mais novo, elas terão que aplicar essa lógica, normalmente reservada às montanhas, à sua vida familiar privada: adaptar-se a essa criança. Com a pergunta que percorre todo o livro: se é preciso adaptar-se ao inadaptado, então… quem é o mais inadaptado?
3- Cada membro da família lida de uma forma muito particular com o menino que nasce com uma deficiência, e você desenvolve essas perspectivas com uma honestidade afetiva impressionante, abrindo espaço para os conflitos emocionais que atravessam uma situação como essa. Como você desenvolveu essas perspectivas, e como foi sua relação com os personagens durante o processo de escrita?
Os três personagens me serviram para compartimentalizar sentimentos diferentes. O mais velho encarna o amor louco, a fusão, o cuidado quase monástico; a do meio encarna a raiva, a revolta, o nojo, mas também a coragem, a resistência; o mais novo encarna a reparação, a consolação, mas também a vida com um fantasma. Na vida real, esses sentimentos se misturam. Por isso, é quase um autorretrato em três partes, porque senti um pouco das três emoções. Fui apaixonadamente apegada a esse irmãozinho, tive ressentimentos com ele e continuo vivendo com seu pequeno fantasma — como todos nós fazemos quando perdemos alguém querido.
4- Seu livro tem uma escrita concisa, mas muito emocional. Como você equilibrou a economia das palavras com a densidade dessa história e a intensidade dos sentimentos?
Graças ao equivalente sensorial que mencionei na pergunta 2. Mas também graças às pedras: foram elas que me deram a distância certa para alcançar uma escrita precisa, mas vivida. Levei dois anos para encontrar esse estratagema narrativo. As pedras são como velhas senhoras que já viram e ouviram tudo, mas que, no entanto, não estão desencantadas. Elas olham para os personagens com ternura.
5- Se adaptar toca em temas fundamentais que são especialmente sensíveis para famílias atípicas, mas que são dizem respeito a toda a sociedade. Como tem sido a recepção do público nesse sentido?
Maravilhosa, é um presente a cada instante. O livro ganhou o Prêmio Femina e o Prêmio Goncourt dos Lycéens, vendeu 400 mil exemplares e foi traduzido para 22 idiomas. O que me faz pensar que a deficiência não é o tema principal do livro: muitas pessoas me disseram que se reconheceram na ideia geral da diferença, ou da família, ou que amavam as montanhas…
A ESTANTE DA AUTORA
Primeiro livro que li: A taberna, de Émile Zola
Livro que estou lendo: L’accident, de Jean-Paul Kauffmann
Livro que mudou minha vida: Tristão e Isolda
Último livro que me fez chorar: Daria, de Ada D’Adamo
Último livro que me fez rir: O Romance de Renart
Livro que eu gostaria de ter escrito: Aqueles que eu escrevi!
Livro que não consegui terminar: Ulysses, de James Joyce
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Está história me tirou da rotina, do ordinário dia-dia, puxou o tapete que eu pisava, mexeu muito comigo profundamente.