Colunistas / Letícia Wierzchowski / Coleção 2018 / TAG Curadoria

Afiado como uma navalha

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A TAG Curadoria nos traz neste mês duas histórias do autor suíço Friedrich Dürrenmatt, dramaturgo e escritor de romances policiais. Bem, A promessa é o antirromance policial, e seu narrador, o doutor H., um policial suíço aposentado, conta esta história a um escritor acusando-o de, em prol da literatura, pasteurizar suas tramas e aparar as arestas dos personagens a fim de chegar à solução perfeita para os seus livros.

Mas a ficção são as cinzas da vida, já escreveu Marguerite Yourcenar. E, enquanto o fogo arde, é quase sempre impossível moldar os fatos num arranjo convincente. Assim, o doutor H. nos apresenta a história de Matthäi, um comissário de polícia que cai em profundo desespero ao não conseguir solucionar o bárbaro assassinato de uma garotinha de 8 anos num pequeno povoado suíço. O crime guarda profundas semelhanças com outros dois, e Matthäi, ao ver o desespero da família da menina morta, jura-lhes encontrar o assassino. Então, o inteligente Matthäi monta uma intrincada teoria sobre o serial killer e prepara-lhe aquilo que ele considera a armadilha perfeita.

Se a vida fosse um livro, um enredo sopesado e planejado nos mínimos detalhes, Matthäi teria sucesso garantido em sua empreitada justiceira; e o leitor – acostumado aos calculados desvios e aos súbitos (porém planejados) despenhadeiros das histórias, lê este pequeno romance com o coração nas mãos. Mas seu final, totalmente inesperado, é ao mesmo tempo chocante e desanimador, tão destituído de lógica ou de justiça como a própria vida, esta senhora cheia de caprichos e de crueldades – talvez a grande serial killer da história de Friedrich Dürrenmatt.

Um belo livro, magnético e angustiante, sobre o desespero, o acaso e a injustiça que nos seguem por todos os lados, sem documentos, sem autorizações prévias, sem ter de dar explicação a quem quer que seja, adulterando histórias e transformando destinos com a empáfia do imponderável.

De quebra, temos também um impressionante conto de Dürrenmatt, A pane. Pelas garras deste autor meticuloso e implacável, mais um personagem se vê diante do inesperado, quando seu carro quebra numa pequena cidadezinha e ele acaba como hóspede de um juiz aposentado, que o convida para uma curiosa tertúlia com alguns vizinhos da região. Um conto assombroso, como parece ser toda a obra de Friedrich Dürrenmatt, cuja máxima pessoal era: “Uma história não está terminada até que algo tenha dado profundamente errado”. Touché.

4 comments

Maria Aparecida Braga 20 de setembro de 2018 Responder

Estilo literário muito diferente com necessidade de tanta atenção para não se perder na história que perdi um pouco o prazer e a avidez pelo término. Não foi de todo uma leitura empolgante apesar da riqueza de elementos e finais não esperados..

João Carlos 21 de setembro de 2018 Responder

Estilo diferente e bastante interessante. Não conhecia o autor e adorei as duas obras. Uma boa surpresa.

Cláudia Sampaio Costa 8 de outubro de 2018 Responder

TAG – Experiências Literárias!!!TAG!! Corrija um erro, rápido!!! Na crítica ao livro de outubro (seção spoiler da revistinha) a autora da crítica atribui erroneamente ao autor do livro de outubro três romances que são de Italo Calvino!! Erro grave, isso não pode acontecer numa revista literária!!

    TAG - Experiências Literárias 15 de outubro de 2018 Responder

    Oi, Cláudia! Você tem toda a razão. Esse tipo de erro não pode acontecer e a errata sairá na revista de dezembro (pois a revista de novembro já foi impressa). Já mudamos processos de revisão por aqui para que isso não volte a acontecer.

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