Colunistas / Carol Bensimon / Livros / Coleção 2018 / Retorno a Brideshead, de Evelyn Waugh

Inglês até o último fio de cabelo

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Retorno a Brideshead é um mergulho profundo na vida da aristocracia inglesa do entreguerras. As notas de rodapé estão lá para confirmar o que estou dizendo: através delas, aprenderemos que um biscoito Bath Oliver é duro e seco e costuma ser usado para “limpar o paladar”; que Alcíone, na mitologia grega, é um martim-pescador de plumagem azul, e que dá indícios de bons presságios; seremos informados a respeito de associações juvenis, salões de bilhar e restaurantes prestigiosos da época. O retrato é minucioso e sólido. Como a mobília de Brideshead.

Trata-se, na primeira metade, de uma espécie de romance coming of age. Charles Ryder, nosso narrador, vive seus dias juvenis e de perda da inocência na Universidade de Oxford, onde conhece o interessantíssimo Sebastian Flyte, membro da aristocracia inglesa, sempre acompanhado de seu ursinho de pelúcia. O urso, aliás, é um toque desconcertante em meio a tantas regras e tanto enfado inglês. Outro “elemento” que cumpre essa função – a de bagunçar a ordem e as estruturas sociais – é Anthony Blanche, sujeito afeminado de língua ferina, frequentemente hostilizado pelos seus colegas de Oxford. Um ótimo personagem. Voltarei a ele em seguida.

A amizade que se desenvolve entre Charles e Sebastian tem toques de amor romântico, mas a concretização desse afeto, é claro, não é sequer uma possibilidade na Grã-Bretanha do entreguerras. Sebastian eventualmente vai desaparecer no norte da África, ficar barbudo, religioso, ausente do futuro que a família reservara para ele. A narrativa, assim, se distancia de Sebastian e, através de uma grande elipse, nos joga na vida de homem casado de Charles Ryder. Charles virou pintor, tem uma mulher ambiciosa que gosta de se relacionar com a alta sociedade, e algumas cenas interessantes se desenvolvem em um navio, no momento em que Charles regressa de dois anos nas terras selvagens das Américas (sobre os quais quase nada sabemos). É no navio que Charles reencontra Julia, irmã de Sebastian, com quem vai ter um caso.

Não li outros livros de Evelyn Waugh, que, dizem, trazem uma escrita cômica e irônica. Em Retorno a Brideshead, salvo alguns momentos pontuais, me parece que o autor faz um texto carregado de fleuma inglesa, em um estilo duro e que se leva bastante a sério. Alguns leitores vão se envolver com a história, empolgados por descobrirem esse universo tão peculiar. Outros, provavelmente, vão se sentir distantes de dramas que parecem tão restritos a uma época, um lugar e uma determinada classe social em franca decadência. O segundo caso foi o meu caso.

Creio que o que diz Anthony Blanche, quando reaparece no vernissage de Charles, ilustra exatamente minha sensação de leitura (aqui posso até detectar certa ironia do romance; estaria Evelyn Waugh falando também sobre sua própria obra?). Diz Anthony, em relação às pinturas que Charles está expondo: “E o que encontrei [nas pinturas]? Uma brincadeira muito travessa e muito bem-sucedida. Fez-me lembrar do querido Sebastian, na época em que ele tinha mania de usar suíças postiças. Meu caro, era, mais uma vez, o charme. O singelo e cremoso charme dos ingleses, fingindo ferocidade”.

Para mim, aqui está a chave de leitura – da minha leitura, diga-se de passagem. Outros poderão discordar (espero que sim!). Mais do que o discurso piegas de Julia ao final do livro, o que para mim continua ressoando são as palavras de Anthony naquele vernissage: “O charme é a grande praga inglesa. Só existe nestas ilhas úmidas. Mancha e mata tudo em que toca. Mata o amor; mata a arte; temo, no fundo do coração, meu caro Charles, que ele também tenha matado você.”

1 comment

Gabriela Marinho Gomes 21 de fevereiro de 2018 Responder

Gostei muito deste texto, identifico-me com os sentimentos da Carol Bensimon quanto ao livro. Mesmo tendo gostado do modo com que “Retorno a Brideshead” é escrito, cheio de elegância e detalhes, eu me senti distante da narrativa. Além disso, em determinados momentos, senti-me incomodada pela arrogância própria das personagens (talvez a mesma do autor). De fato, Anthony é uma das melhores personagens do livro, pois ele não tenta esconder quem é, não vive preocupado com as aparências as quais todas as outras são mergulhados durante toda a narrativa.
Apesar disso, foi um livro que li rapidamente, fico muito feliz com a oportunidade de ter o conhecido.

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