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Bicando a porta da gaiola

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Em 2003, o Museu da Tolerância de Los Angeles inaugurou uma exposição permanente que trata da vida de quatro figuras notáveis: o músico Carlos Santana, o ator Billy Crystal, o jogador de beisebol Joe Torre e a escritora Maya Angelou. Se você visitar esse prédio marrom escalonado perto de Beverly Hills, vai encontrar em uma das salas a réplica do Mercado de Stamps, Arkansas, onde Maya passou boa parte de sua infância. Estão lá os picles e a farinha que a pequena Marguerite pesava com exatidão. “Nesse mundo de fast food”, disse Angelou durante o evento de abertura, “todo mundo se sente como um pedaço de grama. Na verdade, nós somos árvores. Temos raízes. Não podemos ser eliminados com um cortador de grama. Com um passado, podemos ficar mais eretos”.

Maya Angelou faleceu onze anos depois, em 2014, mas suas memórias permaneceram tão sólidas quanto árvores e quanto a recriação daquele mercadinho sulista em plena Califórnia: Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, o primeiro de sua série de livros autobiográficos, é um campeão de vendas há décadas e uma inspiração potente que ultrapassa gerações. Trata-se de um desses casos em que uma trajetória pessoal dá voz a todo um povo oprimido.

O livro abrange um período que vai de 1931 a 1945 – do momento em que Marguerite e o irmão Bailey são enviados para morar com a avó, no sul dos Estados Unidos, até o desenrolar de um fato marcante que inaugura a vida adulta da autora. Conforme a primeira cena do romance autobiográfico sugere, a infância de Marguerite será marcada por um forte sentimento de inadequação. Ainda assim, há muitos episódios singelos, mais felizes do que tristes: o sabor de certas comidas, a comunhão com Bailey, a descoberta da leitura. Por mais dura que seja a infância, sempre tendemos a olhar para ela com um carinho saudosista.

A maturidade, depois, vai alargando o mundo. Nos primeiros anos em Stamps, o território de Marguerite parece restrito à casa, ao Mercado e ao quintal, o que de certa maneira a protege das questões políticas, do preconceito e da precariedade da vida do negro sulista no período do Entre Guerras. É como se ela visse as mazelas do outro somente pelo buraco da fechadura, e sem entender muito bem os “comos” e os “por quês”. Às vezes, no entanto, essa crueza do mundo externo invade seu espaço, como na cena em que as meninas brancas pobres humilham sua avó, ou naquela em que o tio Willie se esconde em um tonel para evitar um possível linchamento. A prosa de Angelou, que tem rompantes poéticos, mas que também sabe ser contida e antissentimental, acaba dando força a cenas de violência atroz. Um bom exemplo é o encontro com o dentista branco que se recusa a tratá-la.

É triste pensar que a violência que atravessa a infância de Marguerite também vem de onde menos se espera: do núcleo familiar, ou melhor, do núcleo familiar reconstituído, com a presença do Sr. Freeman e, posteriormente, de Dolores.

A formatura do ensino médio vem inaugurar uma nova fase na vida de Marguerite, mas a aura de possibilidades excitantes se destrói no momento em que um branco entra em cena para fazer um discurso preconceituoso. Negros devem se contentar com menos e, se tudo der certo, podem virar atletas, é o que diz o homem nas entrelinhas, estimulando parágrafos de revolta e decepção por parte da narradora: “Os alunos brancos teriam a chance de se tornar Galileus e Madames Curie e Edisons e Gauguins, e nossos garotos (as meninas nem estavam na conta) tentariam ser Jesses Owens e Joes Louis.”

Em São Francisco, com dezesseis anos, Marguerite se torna a primeira negra a trabalhar nos bondes da cidade. É o primeiro passo de uma bonita e sofrida caminhada em busca de dignidade e expressão. Ao longo das décadas seguintes, Maya Angelou vai se tornar uma referência fundamental, lida e cultuada no mundo inteiro. Mas, naquela tarde, sentada no escritório da Railway pela enésima vez, pronta para fazer uma bateria de exames e preencher intermináveis formulários, Maya sabia que a luta estava apenas começando.

2 comments

Amanda 17 de outubro de 2018 Responder

Livro maravilhoso!!

Elizabeth M.Louro 26 de outubro de 2018 Responder

Amei o livro. Nele pude vislumbrar várias lições de resiliência, força de caráter e, sobretudo, dignidade. A começar pelo abandino do primeiro emprego, em gesto de incontida revolta, porque sua patroa passou a lhe chamar por nome diferente do seu. Que altivez, que orgulho e dignidade de e por ser quem é! Maravilhoso!

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