Colunistas / Letícia Wierzchowski / Livros / Coleção 2018 / Retorno a Brideshead, de Evelyn Waugh

Retorno a Brideshead

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Evelyn Waugh é um dos autores ingleses de que mais gosto. Sua trilogia sobre a Segunda Guerra Mundial é dos poucos textos sobre o assunto que, brilhantemente, conseguem contar o horror da guerra sem perder nem o humor, nem o sarcasmo. Aliás, Waugh era mesmo o rei do sarcasmo. Mas Retorno a Brideshead tem uma voz bem diferente dos seus outros livros, um tom memoralístico, nostálgico, quase delicado, uma belíssima narrativa que não perde nunca a sua primorosa elegância.  É basicamente a história de um jovem, Charles, que se apaixona platonicamente por Sebastian, um rico amigo de faculdade, o que o leva a se aproximar de toda a sua família e, finalmente, de Julia Marchmain, a irmã de Sebastian, com quem ele está fadado a viver um tórrido romance.

Talvez Julia tenha sido o amor da vida de Charles, talvez o que ele amasse era mesmo Brideshead e os segredos daquela família tão nobre e tão infeliz.  Mas este é um livro sobre aquilo que poderia ter sido e não foi. É um livro quase triste, mas também delicioso – é a vida mesma, que Waugh consegue agarrar em pleno voo, nos últimos anos de uma Inglaterra à beira da Segunda Guerra. Todos personagens inteligentes da história têm destinos tortuosos –  apenas os tolos parecem se dar bem, ainda que não tanto, nestas páginas de uma refinada crueldade. Há amor no livro, mas também – e principalmente – há muita desilusão. E mesmo os grandes amores, como o de Julia e de Charles, o nosso narrador memorialista, parecem ser mais felizes na dificuldade – como nas lindas páginas nas quais eles atravessam o oceano num transatlântico, dos Estados Unidos até a Europa, e são envolvidos por uma violenta tempestade que vai acamando um a um os passageiros – menos os dois amantes, que se mantém firmes na tormenta, quase vigorosos e profundamente felizes, mas parecem ter dificuldade de manejar o seu relacionamento em mares mais serenos.

Há um pouco do veneno natural de Waugh quando ele conta da sociedade inglesa e dos seus meandros, veneno que o escritor parece concentrar no delicioso Anthony, personagem gay, riquíssimo e irreverente, que convive com Charles, e que diz, a um determinado momento do livro, a respeito de uma exposição dos quadros de Charles: “…a galeria estava cheia de mulheres ridículas, com uns chapéus que deveriam ser obrigadas a comer.”

Li este romance há vários anos e dele nunca me esqueci – quase o sugeri quando fui curadora em 2016. Assim, com muita alegria o reli agora, indicado pelo Luis Fernando Verissimo, com edição tão bonita. E voltei novamente – como o personagem narrador – aos fabulosos auspícios de Brideshead e às façanhas, amores, desencontros e melancolias dos seus curiosos habitantes. Este é um livro excepcional, saudosista e ao mesmo tempo cruel, romântico e sarcástico também, e acho que uma frase da personagem Julia Marchmain resume o tom do livro e o seu subtexto. É quando, à beira da guerra e quase divorciando-se do marido que destesta para ficar com Charles, ela diz num passeio ao luar: “Às vezes, sinto que o passado e o futuro nos pressionam com tanta força que não sobra lugar para o presente.”

Em Retorno a Brideshead, Evelyn Waugh faz isso: transitando entre o passado glamouroso de uma Inglaterra cujas melhores qualidades parecem prestes a desaparecer, e já lamentando a guerra e o nebuloso futuro, todo o presente se transmuta, fenece ou vira semente de pouco confiáveis amanhãs.

1 comment

Leandro leite 6 de fevereiro de 2018 Responder

Achei o livro maravilhoso!!! Muito delicioso e cativante… Me pareceu que Júlia foi a maneira de Charles amar Sebastian… Ela só surge como um personagem independente no navio… Até éntao sua figura aparece ligada ao irmão…

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