Colunistas / Letícia Wierzchowski / Coleção 2018 / O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati

Diante da planície inóspita

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Dino Buzzati foi um escritor de alegorias inesquecíveis. Do inesperado, Buzzati criava a metáfora da incompletude humana, do nosso nunca ser, nunca alcançar.

Em O deserto dos tártaros, talvez o livro mais famoso de Dino Buzzati, encontramos a sua prosa mais elegante, o autor no auge do seu domínio narrativo, numa alegoria kafkaniana da trágica vida do personagem Giovanni Drogo, um jovem oficial destacado para um posto de fronteira, que passará toda a sua juventude à espera de uma invasão dos bárbaros.

Há um clima de irrealidade no romance. Mais sugestivo do que calcado na ação, os fatos e as imaginações da vida de Drogo parecem se suceder em duas dimensões que jamais se tocam: a vida real do forte – árida, rígida e quase teatral – e o seu sonho de glória, a esperança vã de estar no fim do mundo por um motivo heroico, comandar a guerra contra os míticos tártaros das planícies despojadas que o forte aparta do reino.

Este é um livro como um jogo de espelhos. De mínimos, diminutos espelhos que abrem caminhos e sugestionam o leitor com imagens quase nunca reais. O próprio Drogo parece viver a sua existência tentando separar o real do irreal, aquilo que seu coração sente será mesmo resultado do que seus olhos veem?

O deserto dos tártaros é um livro enxuto, de quinas doloridas e de inóspitas sensações. Um livro sobre as vãs esperanças, sobre a acomodação, sobre o tempo desperdiçado. “É sempre uma outra página gasta, senhor tenente”, diz o narrador, “uma porção de vida que se foi.”

Buzzati, ao contar do tempo que passa no antigo forte diante da planície deserta, onde nada de importante aconteceu por dezenas de anos, traz à baila a urgência da vida. O desespero da morte iminente, da juventude fugaz, da pressa humana de fazer, justapostos à nossa cotidiana acomodação.

Drogo segue esperando a sua sorte, a aventura milagrosa que, pelo menos uma vez na existência, deveria caber a cada um dos seres humanos. Mas será mesmo? Será que a gente espera alguma coisa, será que os tártaros virão mesmo algum dia?

Giovanni Drogo gasta a sua existência enquanto o velho forte permanece impávido, acompanhando a sucessão infinita dos seus ocupantes. E o pêndulo diante da escrivaninha “continua a moer a vida” no belíssimo livro de Dino Buzzati, um romance que cala fundo no seu leitor.

4 comments

Patrícia 19 de novembro de 2018 Responder

Amei o livro! Triste e belíssimo! Apresenta-nos a dura realidade da vida quando muito esperamos e nada acontece e o vazio é o tudo diante do deserto, dentro do forte! Um livro que me marcou e me deixou triste por entender que a vida pede decisões, atitudes, escolhas e algumas vezes escolhemos errado como o personagem principal. Profundo romance sobre a fragilidade da existência.

Nelson Ricardo Guedes 4 de dezembro de 2018 Responder

O livro é realmente fabuloso…já o havia lido há mais de duas décadas e foi um prazer reler essa grande obra. Apenas um adendo, acho que a TAG deveria colocar uma errata no próximo caderno que acompanha o livro da coleção Curadores, corrigindo a informação de Letícia wierzchowski, que em seu texto, “Diante da plánice inóspita” credita a Dino Buzati a escrta da trilogia “Os nossos antepassados”, que na verdade pertence a outro grande escritor italiano… Ítalo Calvino. Apesar do texto ter sido corrigido aqui, no blog, não o foi no caderno que acompanha o livro , e nem todos os leitores acessam esse blog. Fica aqui a dica. Abraços.

    TAG - Experiências Literárias 3 dias ago Responder

    Oi, Nelson! Agradecemos sua sugestão. A errata já foi incluída na revista de dezembro da TAG Curadoria. 🙂 Abraços!

Marcos Ferraz 4 de dezembro de 2018 Responder

Melhor livro do ano!!!

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