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Um amor de verdade

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Sabe quanto é tanto que nada alcança?

Este é o meu problema com Só garotos, e por isso rondei horas antes de escrever esse texto. Li o livro há alguns anos. Chorei cachoeiras e passei semanas escutando Patti Smith e pensando em sua relação com Robert Mapplethorpe – o amor, a arte, a pobreza absoluta, a liberdade que ambos viveram e na qual se encontraram como artistas.

Quando tinha vinte anos, depois de uma gravidez indesejada, cuja criança ela deu em adoção, a corajosa jovem Patti vai embora do interior dos EUA para Nova Iorque – nem a grana do ônibus ela tinha, pois a passagem aumentara desde que fizera seus planos; mas, numa cabine telefônica perto da rodoviária, Patti encontra uma carteira em cujo interior está a justa soma que lhe falta para dar no pé de uma vida que é pequena demais para o seu espírito livre e avançado.

Se eu colocasse a cena acima num romance – jovem pobre acha a exata quantia que lhe falta numa carteira na rodoviária – nenhum leitor acreditaria. Mas a vida é maior e mais corajosa do que a ficção, e é exatamente assim que a história de Patti e Robert começa.

Uma história de amor com direito a muita fantasia e a muita realidade também, uma história de amor eterno, que é quando a união de dois seres humanos transcende o sexo, o ciúme e as convenções sociais. Como a própria Patti escreve: “gravitávamos de volta um para o outro, por maior que fosse esse abismo.” E é assim que os dois passam a viver juntos, a criar juntos, transformando de forma delicada e profunda não apenas as suas vidas, mas um pouco da vida de cada um de nós.

Dois ícones do seu tempo, que dividiam um único sanduíche de queijo ao jantar, um homem e uma mulher cuja história de cumplicidade, talento e coragem merecia mesmo ser eternizada. Patti Smith, que se revela uma escritora tão incrível como a compositora que conhecemos, traz, nestas páginas, a aventura de duas corajosas vidas unidas num mesmo objetivo: a arte.

Transgressores numa época em que os paradigmas existiam para serem quebrados, sonhadores, talentosos e frágeis, Patti e Robert crescem juntos, encontrando seus próprios caminhos (ele, a fotografia, a homossexualidade – ela, a música, a poesia, uma loucura mais natural, que passa longe das drogas consumidas por Robert).

Vivendo como um casal, e depois separados, cada um com seu parceiro, mas ainda unidos numa comunhão emocionante, tanto Robert como Patti encontraram-se na arte. “Quando eu entrava em um palco do mundo sem ele, fechava os olhos e o imaginava tirando sua jaqueta de couro, entrando comigo na terra infinita das mil danças”, escreve Patti.

Patti e Robert marcaram seu tempo. Ela ainda segue, talentosa e incrível, fazendo canções, subindo nos palcos deste mundo e editando livros. Robert morreu em março de 1989, de AIDS. Mas, de certo modo, acho que eles andam juntos por aí, em alguma dimensão invisível, pois como a própria Patti escreveu em uma música que fez para Sam, companheiro de Robert, “caminhos que se cruzam voltarão a se cruzar”.

Aqueles dois sempre foram uma única coisa.

E este livro é, para mim, a história de um amor de verdade, daquelas que fazem a gente chorar por horas, dias e semanas, como eu aqui estou chorando, mais uma vez, ao folhear Só garotos para escrever essas linhas.

6 comments

Monick Jéssika 7 de abril de 2018 Responder

Já tinha ouvido falar desse livro pela Tati Feltrin, fiquei curiosa, mas nada que me levou a comprá-lo.
Fiquei mega feliz quando recebi ele em casa. Nunca pensei que fosse chorar com um livro desses, autobiografia de uma artista que é muito famosa ainda hoje. Mas também não imaginava que uma história de vida real, seria escrita tão poeticamente, e que o ser humano Patti Smith seria um exemplo de determinação, para todos.
É muito legal saber que existe ainda amores puros como o dela e Robert, aonde não têm malícia, ou maldade e que apesar de todas as dificuldades e posteriormente falta de tempo, permaneceu com eles até o fim.
Amei demais a leitura, e a edição da tag, que a gente se sente acarinhado só de ver! ❤

    TAG - Experiências Literárias 9 de abril de 2018 Responder

    Ficamos emocionados com o seu comentário, Monick!

Elisa Cristina 10 de abril de 2018 Responder

Nem li o livro ainda e já estou chorando só com esse post kkkk

Elizangela Gantzel 11 de abril de 2018 Responder

Esrou doida para começar a ler.. estou ayrasada em minhas leituras.. resolvi le r o Tag Inéditos primeiro ( ja passei da metade). Pretendo pegar esse em seguida. Tambem vi o video da Tatiana Feltrin e fiquei com mais vontade de ler ainda.

Cibelly Elias Correia 11 de abril de 2018 Responder

Finalmente achei o livro da minha vida! É de muita inspiração p aqueles que estão em busca de seus sonhos… Sem contar também, um verdadeiro relato sobre o que é amor. Ou seja, concordo contigo e com a Patty, o amor transcende sexo, ciúmes e convenções sociais. Livro da porra esse, heim!

Willian Alves do Nascimento 11 de abril de 2018 Responder

Também li devido a recomendação da Tati Feltrin. Sou apaixonado por histórias irreverentes e esta é a definição certeira sobre a vida de Patti Smith:irreverência. O livro é como um guia do começo ao fim; me instigando a não ouvir meus medos, a viver meus amores e a acima de tudo, lutar pelas coisas que acredito. Patti tinha “DEVOÇÃO” (se me permitirem o trocadilho) pela vida, por suas experiências e acima de tudo, por Robert. Já falando sobre a arte e diagramação do livro, não achei adjetivos suficientes. Zelo, respeito e amor é o que a TAG devida e DEU para a história desta artista. Escrevi tanta coisa para resumir em uma coisa só: Estou apaixonado! Pela Patti, por este livro e pela TAG.

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