Colunistas / Sérgio Rodrigues / Coleção 2018 / TAG Curadoria / The underground railroad, de Colson Whitehead

A metáfora viva de Whitehead

The underground railroad: Os caminhos para a liberdade, de Colson Whitehead Share this post

Tomar uma metáfora ao pé da letra e explorar as consequências dessa ousadia é uma operação clássica no repertório da arte ficcional. Kafka é provavelmente o escritor que levou o recurso ao maior grau de depuração: quando Gregor Samsa acorda de sonhos intranquilos no início de A metamorfose, ele não apenas se sente como um inseto repulsivo, desadaptado à rotina dos homens e desprezado por todos – o que poderia ocorrer numa narrativa realista sem maiores sustos. Nada disso: a linguagem figurada vira literal e, junto com o monstruoso Samsa, nasce um monstro da literatura.

Sem recorrer a doses tão fortes da droga quanto Kafka, literalizar metáforas é um recurso relativamente comum em narrativas que optam por uma ruptura menos drástica com o realismo. Em meu romance O drible, a proverbial “magia do futebol brasileiro” dos locutores de rádio se materializa na figura de Peralvo, um craque dotado de certos poderes mediúnicos que emprega no campo de jogo. Isso não impede o livro de cumprir uma série de requisitos de verossimilhança e adesão a fatos históricos.

É semelhante o papel que a metáfora viva desempenha no ótimo The underground railroad: os caminhos para a liberdade, de Colson Whitehead, vencedor do prêmio Pulitzer do ano passado. No caso, a linguagem figurada tomada ao pé da letra é a que aparece no título original. Underground railroad (ferrovia subterrânea) é uma expressão histórica do inglês americano. Designa uma malha de rotas clandestinas sustentada por pessoas e organizações que, correndo imenso risco, patrocinaram a fuga de milhares de escravos para o Norte livre, o Canadá e o México. Nunca houve nem poderia ter havido uma ferrovia subterrânea propriamente dita riscando o país. No romance de Whitehead, porém, ela se materializa diante do leitor de forma arrepiante quando Cora e Caesar, recém-fugidos da sadicamente administrada fazenda Randall, na Georgia, iniciam sua odisseia cheia de peripécias e contratempos em busca de uma liberdade que, como eles, também se revelará sempre fugidia:

Dois trilhos de aço percorriam toda a extensão visível do túnel, presos ao chão por dormentes de madeira. O aço corria provavelmente para o sul e para o norte, brotando de uma fonte inconcebível e levando para um milagroso ponto final. Alguém fora cuidadoso a ponto de colocar um pequeno banco na plataforma. Cora se sentiu tonta e sentou.

Na moldura de uma obra basicamente realista, informada pela história real das perversas relações sociais – entre brancos e negros, negros e negros, brancos e brancos – que aleijam as sociedades escravagistas, deixando-lhes sequelas difíceis de corrigir, a metáfora viva acrescenta à narrativa de Whitehead uma dimensão onírica ou mitológica.

É ela que leva um conjunto de dados históricos bastante conhecidos, já explorados ficcionalmente em muitos livros, a reverberar de modo original. Funciona também como uma espécie de licença poética primitiva: fique o leitor avisado de que, depois disso, o autor poderá tomar outras liberdades com seu material em busca de sínteses e iluminações que conduzam a uma compreensão histórica superior àquela que os fatos crus nos permitem obter. A boa ficção mente para melhor dizer a verdade.

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