Colunistas / Letícia Wierzchowski / Coleção 2018 / TAG Curadoria / Voragem, de Junichiro Tanizaki

A ressaca da paixão

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Sonoko Kakiuchi, já viúva, narra a sua história a um sensei. E, como se estivéssemos escutando atrás da porta – pois a narrativa de Voragem é verbal e Sonoko, no começo do romance, diz que até tentou escrever, “mas as ocorrências se embaralhavam em sua cabeça” – vamos acompanhando a trama dos acontecimentos que ela desfia tão minuciosamente.

E não é à toa que Sonoko se embaralha ao escrever a sua incrível história – Voragem, um belíssimo romance sobre os despenhadeiros da paixão sexual, sobre a chama ardente do amor mais incontrolável, é uma espécie de narrativa em círculos, uma história que, quanto mais se aprofunda em direção ao seu coração palpitante e trágico, mais reviravoltas apresenta ao leitor.

Confesso que comecei o livro distraidamente. Isso me acontece com os autores japoneses, talvez por uma tendência ao excesso de minúcias, talvez pelo tanto que a vida ocidental me separe deles. E, então, quase sempre a epifania acontece: quando vejo, estou totalmente enredada, arrebatada por esse universo de pequenos detalhes, por tudo que se esconde atrás de cada pouco, lá vou eu tragada num mergulho sem volta.

Com Voragem, foi avassalador. Fazia já um certo tempo que eu não deparava assim com um texto tão envolvente – um romance que executa a façanha de narrar a paixão sem sexo, de criar um erotismo tão sutil e vertiginoso, tão contundente. E olhem que a paixão é motor constante da literatura – mas Tanizaki ergue um pequeno universo, uma delicada constelação de espíritos que se enredam, que se alimentam, um jogo de corpos e de cartas (cartas que a narradora Sonoko alega serem marcadas) tão fascinante e audaz que terminei o livro e me deixei ficar por um longo tempo quieta, apenas pensando na história.

Desde o começo, Sonoko apresenta-se como viúva, e a morte do seu marido – figura que parece ser secundária ao drama amoroso da própria Sonoko, quase um empecilho para a sua paixão proibida – fica pairando como peça sem encaixe da narrativa. Uma jogada de mestre de Junichiro Tanizaki, um impecável detalhe que ganha força de fenômeno ao final do livro, nessa história que é como uma marola, que cresce e cresce e cresce, para chegar à praia com a força de um violento tsunami.

Destruição, felicidade, destino?- Quem somos nós para julgar o poder, a beleza e a honra de viver uma paixão tão sem precedentes? Nem a própria Sonoko, que nos conta esta história, guarda em si ressentimento ou raiva, mas apenas uma saudade tão grande, tão absoluta, que a faz terminar sua narrativa às lágrimas, enquanto ficamos ali, pasmos diante da força oceânica da paixão que destruiu aquele pequeno mundo, mas que também lhe deu sentido.

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