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Entrevista: Ann Napolitano, autora de “Querido Edward”

Ann Napolitano | Foto: Jake Chessum Ann Napolitano | Foto: Jake Chessum Share this post

“Dado que a morte é certa, mas o momento da morte é incerto, o que é mais importante?” A frase da monja budista Pema Chödrön, escolhida por Ann Napolitano como epígrafe de Querido Edward, traz um questionamento complexo que o enredo do livro ajuda a responder – nem que seja a partir da elaboração de novas perguntas. A morte é uma certeza que adormecemos para dar continuidade e sentido aos nossos planos, mas, quando ela chega perto, somos tomados por uma consciência radical sobre a finitude da existência. Como ressignificar a partida de quem amamos e criar uma nova realidade, com novos vínculos e sentidos, sem a presença física de pessoas que constituem quem somos? Há uma explicação lógica e que possa trazer algum conforto para as tragédias que nos acontecem? Neste romance, o terceiro da norte-americana Ann Napolitano, somos confrontados com as duras temáticas da perda, do luto e do trauma.

Leia na íntegra a entrevista com a autora do livro de agosto da TAG Inéditos:

“Eu realmente gostei de Edward e o amei como pessoa.”

TAG – Uma tragédia similar levou você a escrever a história de Edward. Você pode me contar como surgiu a ideia do livro?

Ann Napolitano – A gênese de Querido Edward foi minha obsessão com um acidente aéreo que aconteceu em 2010. Um voo comercial que ia da África do Sul a Londres – cuja maioria dos passageiros é de holandeses voltando de férias – se acidentou na Líbia, e todos no voo morreram, à exceção de um garoto de nove anos. O garoto holandês foi encontrado ainda com o cinto de segurança afivelado, a cerca de 800 metros de distância dos destroços. Os investigadores especularam que ele estaria sentado perto da fuselagem e que teria sido basicamente ejetado do avião. Ele quebrou a perna e perfurou um pulmão, mas, apesar disso, estava bem. Todos os outros passageiros, os pais e o irmão do garoto, inclusive, morreram. Eu não conseguia parar de ler sobre a história, e rapidamente soube que tinha que escrever para conseguir entender como um menininho poderia encontrar um modo de lidar com o trauma do acidente, da perda de toda a família, e encontrar uma maneira de viver verdadeiramente.

Foi um consenso entre nós, aqui na TAG, que Querido Edward é um livro que faz chorar bastante. No entanto, não há uma linha piegas na obra inteira. Fico curiosa sobre seu processo de escrita: como você dosou os sentimentos dos personagens de forma tão precisa? Em que você estava pensando?

Obrigada! Eu queria que a história de Edward soasse emocionalmente verdadeira, então escrevi e reescrevi até que ela parecesse correta. Pareceu um pouco com segurar um diapasão sobre as páginas e ter certeza de que estava atingindo as notas corretas, linha após linha. Eu sabia que seria um romance terrível se a jornada de Edward não fosse precisa e honesta, então isso foi muito importante para mim.

Como foi a experiência de escrever um personagem criança? Às vezes é difícil para nós, leitores, acreditar em narradores crianças, então eu imagino que deva ser ainda mais difícil para um autor construir um protagonista forte como Edward.

Pelo livro ter começado por imaginar como se sentiria o garoto holandês depois de perder sua família em um acidente que aconteceu, foi natural escrever meu livro do ponto de vista de um menino jovem. Eu realmente gostei de Edward e o amei como pessoa, então não me senti limitada nem pela idade nem pelo gênero dele. Apenas tentei habitá-lo totalmente, passo a passo.

Você tinha o sentimento de que estava escrevendo um best-seller ou ficou surpresa quando o livro se tornou uma sensação?

Eu não senti que estava escrevendo um best-seller, de jeito algum! Fiquei preocupada que o livro não seria publicado – eu demorei oito anos para escrever Querido Edward e, nesse tempo, questionei se alguém de fato leria esse livro. Fiquei chocada quando ele foi vendido tão facilmente para uma editora, e fiquei chocada mais uma vez quando ele virou um best-seller.

Você é uma professora veterana de escrita criativa. Pretende continuar ensinando ou vai se dedicar exclusivamente à escrita a partir de agora?

Ontem mesmo dei uma aula a respeito de enredo – então vou continuar a ensinar, só não o tempo todo. Eu realmente amo ensinar e falar com outros escritores sobre o ofício de escrever ficção.

A gente sempre pede aos autores que deixem uma mensagem aos 25 mil leitores que receberão seus livros no Brasil. No entanto, eu queria que você desse um conselho aos muitos escritores aspirantes que estão entre os associados do clube sobre como começar a escrever histórias.

Muito obrigada a cada um de vocês por ler Querido Edward! Eu agradeço profundamente. Se você é um escritor jovem ou pensa em se tornar um escritor, há algumas coisas que eu sugeriria:

1. Escreva todos os dias, mesmo que por apenas 10 minutos. Quanto mais escrever, quanto mais frases você guardar, quanto mais histórias você tentar contar, melhor será sua escrita.

2. Leia todos os dias. Leia tudo. Leia escritas belas. Essas escritas se instalarão por osmose e se mostrarão quando você tentar formar frases. A leitura vai ajudar e, claro, é uma atividade maravilhosa por si só.

3. Encontre um ou dois leitores em que você possa confiar para dar retorno sobre seu trabalho. Não importa o quão talentoso você seja, é necessário ter uma perspectiva externa para ajudá-lo a ver onde brilha a sua ficção e onde ela precisa de mais trabalho. Se você não conhece alguém que possa preencher esse papel para você, faça aulas on-line ou presenciais de escrita. Sua escrita vai melhorar muito mais rapidamente se você tiver o retorno de outros escritores. Pode ser assustador entregar suas páginas para alguém, mas é muito importante.

A estante de Ann Napolitano

O primeiro livro que você leu: o primeiro livro que lembro de ler quando era criança talvez seja Trixie Belden, uma série sobre uma detetive adolescente.

O livro que você está lendo agora: The Mirror & The Light, de Hilary Mantel.

O livro que mudou a sua vida: Comer animais, de Jonathan Safran Foer.

O livro que você gostaria de ter escrito: A assinatura de todas as coisas, de Elizabeth Gilbert.

O último livro que fez você chorar: The Magician’s Elephant, de Kate DiCamillo.

O último livro que fez você rir: Nothing To See Here, de Kevin Wilson.

O livro que você dá de presente: The Dutch House, de Ann Patchett

O livro que você não conseguiu terminar: não gostaria de dizer porque parece maldade com o autor, quando na verdade era eu que não estava no clima durante a leitura.

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