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Entrevista: Bali Kaur Jaswall, autora de “Escola de contos eróticos para viúvas”

Bali Kaur Jaswall | Foto: Sharon Meador Share this post

Nascida em Singapura e de raízes punjabi, Balli Kaur Jaswal cresceu nos mais diferentes locais devido à profissão do seu pai, que trabalhava para o Ministério de Relações Exteriores singapurano: Japão, Rússia, Austrália e Filipinas estão entre os países onde ela passou a maior parte da juventude. Mudar constantemente de lugar ao longo da vida foi justamente o que despertou em Balli a perspectiva de uma forasteira — o choque cultural provocou questionamentos sobre si mesma, sobre sua noção de pertencimento e sobre o significado de lar. Essa realidade, porém, apesar de adversa se analisada por alguns pontos de vista, inspirou a autora a representar em sua escrita a experiência de imigrantes e estrangeiros, aspecto importante em Escola de contos eróticos para viúvas.

A literatura da escritora é marcada pela discussão de temáticas como identidade, dinâmica familiar, sexualidade, feminilidade, comunidade, e, principalmente, a diáspora punjabi — que se refere ao movimento de emigração de descendentes do Punjab para outras partes do globo. Em 2013 e 2015, respectivamente, Balli publicou Inheritance e Sugarbread, livros que contêm elementos autobiográficos e que contam a história de famílias punjabi em Singapura. O primeiro recebeu o prêmio Sydney Morning Herald de 2014 por melhor escritora australiana, e o segundo ficou entre os finalistas do prêmio de ficção Epigram Books de 2015. Mas foi apenas com Escola de contos eróticos para viúvas que ela alcançou a crítica internacional — ao lado de Kevin Kwan, seu conterrâneo, Balli Kaur Jaswal é uma das vozes jovens mais proeminentes do país asiático e do cenário internacional.

Leia a entrevista exclusiva com a autora do livro de fevereiro da TAG Inéditos:

TAG – Embora você tenha nascido em Singapura, Escola de contos eróticos para viúvas se passa em Londres e seus protagonistas são, na maioria, imigrantes indianos. Como você vê a reação do público à fusão ocidente/oriente no livro – e em seu trabalho em geral?

Balli Kaur Jaswal – O mundo das personagens em Escola de contos eróticos para viúvas não é muito diferente do meu. Cresci em uma comunidade punjabi em Singapura como uma migrante de segunda geração. Entretanto, muito da minha escrita vem de se sentir tanto local quanto estrangeira tanto em minha cultura quanto em meu país, porque também me mudei muito com minha família. Penso que muitos leitores podem se relacionar ao sentimento de estar entre dois ou mais mundos, especialmente na nossa sociedade globalizada.

Dividida entre sua herança Punjabi e sua vida occidental, Nikki percorre um longo caminho para descobrir-se uma mistura dos dois mundos. Como o seu mundo se relaciona com o de Nikki?

Acho que a jornada de Nikki espelha a minha de muitas maneiras. No pico da idade adulta, ela pensa que entendeu todo mundo, mas, ao mesmo tempo, sente-se um pouco perdida e instigada a encontrar um propósito para a sua vida. Conhecer as viúvas começa como uma distração e um experimento de justiça social, mas acaba se tornando uma janela para sua identidade e seu privilégio. Uma das coisas mais valiosas que aprendi nos meus 20 anos foi que o feminismo tem caras diferentes para pessoas diferentes, e uma vez que entendi que todos começamos de lugares diferentes, o mundo ficou tanto mais fácil de entender quanto deliciosamente mais complexo. Essa é uma lição crucial para Nikki. Pode-se dizer que o fim do romance é o começo de Nikki.

Quando as viúvas começam a escrever histórias eróticas, o tabu disso entre a comunidade fica claro. O quão importante é falar sobre sexo na literatura? Ela tem a responsabilidade de tornar o assunto menos controverso, mais natural?

Em comunidades conservadoras, é especialmente tabu que mulheres falem sobre sexo. O silenciamento tem um o efeito de tirar a independência em muitas outras áreas da vida da mulher. Há muito medo dos desejos femininos, e acho que remover o tabu é um passo a mais em direção à propriedade dos corpos delas. Escrever sobre isso me deu a chance de criar um maior protagonismo para mulheres que tiveram a igualdade negada em relação a seus maridos. Acho que a maior responsabilidade da literatura é contar histórias – Escola de contos eróticos para viúvas calha de ser uma história que confronta tabus e abre a discussão sobre a sexualidade feminina.

Escola de contos eróticos para viúvas é seu primeiro livro publicado no Brasil. Como você se sente sabendo que ele chegará a 25 mil pessoas de uma só vez?

Me sinto honrada! Espero que os leitores gostem da história e que ela suscite discussões sobre a relevância desse assunto nas vidas de todos.

A estante de Bali Kaur Jaswall

O primeiro livro que li: As bruxas, de Roald Dahl

O livro que estou lendo: Milk teeth, de Amrita Mahale

O livro que mudou a sua vida: O Deus das pequenas coisas, de Arundathi Roy

O livro que eu gostaria de ter escrito: Estação onze, de Emily St. John Mandel

O último livro que me fez chorar: Ask again, yes, de Mary Beth Keane

O último livro que me fez rir: Minha irmã, a serial killer, de Oyinkan Braithwaite

O livro que eu dou de presente: Persépolis, de Marjane Satrapi

O livro que eu não consegui terminar: Prefiro não dizer. O que faz um leitor abandonar um livro é muito subjetivo, e os autores precisam usar suas plataformas para apoiarem uns aos outros em vez de discutir o que não gostaram.

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