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Entrevista: J. P. Villalobos e “O coração é um caçador solitário”

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Curador de dezembro da TAG Curadoria, o escritor mexicano J. P. Villalobos nos concedeu entrevista exclusiva sobre a carreira literária e sua indicação para o clube, o livro “O coração é um caçador solitário”, de Carson McCullers.

TAG – Que marcas a língua portuguesa e a literatura brasileira deixaram em sua escrita?

Juan Pablo Villalobos – Mais do que uma influencia linguística do português na minha literatura, o que deixou e continua a fazer uma influência importante na minha obra é a literatura brasileira. Também o contato cotidiano com a língua, já que eu falo, escrevo e leio em português, mas especialmente a literatura. Eu acabei virando um tradutor de literatura brasileira, tive a honra de traduzir os romances do Raduan Nassar, por exemplo, e ninguém volta o mesmo depois de traduzir o Raduan Nassar. Toda a complexidade da sua literatura, sua sintaxe, linguagem poética, obviamente significam uma influência na minha escrita. Também consegui encontrar autores que viraram uma referência pelo tipo de literatura que fazem, que eu gosto e considero interessante. Minha grande descoberta da época em que morei no Brasil foi o Campos de Carvalho, um autor meio esquecido no Brasil que escreveu romances muito absurdos e humorísticos que às vezes são qualificados como surrealistas, mas que são romances maravilhosos, geniais, que viraram uma referência na minha estética e na minha maneira de entender a literatura.

“Minha conclusão atual (que mudará com certeza no futuro, já que o pensamento não é uma pedra) é que o Brasil e o México são aparentemente parecidos, ou seja, eles têm uma semelhança só superficial”, você disse em uma entrevista ao Jornal Rascunho em 2014. E agora, como você enxerga essa semelhança “superficial” entre os dois países?

Villalobos – Certamente, o Brasil e o México tem problemáticas parecidas, como os atrasos educativos, sociais, de saúde, de acesso à cultura… São sociedades com diferenças sociais muito amplas, que apresentam uma grande concentração da riqueza e muita gente na pobreza extrema. Isso faz com que a situação dos países pareça similar, e eu acho que na verdade é um engano. Quando você analisa a história dos dois países, politicamente falando, eles passaram por processos muito diferentes, desde a independência, e depois no século 20. O Brasil passou por uma ditadura que o México não teve – mas que de um ponto de vista também foi autoritário, quase uma ditadura. Pra falar a verdade, o Brasil e o México são dois países que, apesar das semelhanças, eles desde sempre preferiam se colocar de costas um para o outro. Não fazem trabalho colaborativo, não têm uma história em comum, seus relacionamentos diplomáticos, políticos e culturais são muito fracos. A literatura brasileira é muito pouco conhecida no México, e a mexicana é pouco conhecida no Brasil. Lógico que tem algumas questões culturais que são mais relevantes por causa do mainstream, como a música brasileira e questões relacionadas ao futebol, que são muito conhecidas no México. No Brasil, o que chega é a cultura popular mexicana, como cantores populares, programas de televisão, comida… mas esses relacionamentos poderiam ser muito mais estreitos, seria muito proveitoso para os dois países.

Atualmente, você reside em Barcelona. Sob uma perspectiva latino-americana, quais são as diferenças de ser um imigrante no Brasil e na Espanha?

Villalobos – A condição de imigrante que eu tive no Brasil foi muito relativa porque eu sou casado com uma brasileira, tenho dois filhos com ela, e eu morei em Campinas, uma cidade não tão grande, tinha uma família brasileira, amigos brasileiros… não era um contexto “normal” para um imigrante. Normalmente o imigrante está sozinho, sua vida é chegar e não ter uma rede que o acolhe. Quanto a Barcelona, além da minha esposa, dos filhos e eu, nós criamos uma rede de amigos que quase são uma família, mas não é a mesma coisa. Aqui, a gente vive a condição de imigrante. Mas a minha experiência no Brasil foi ótima, eu nunca senti uma rejeição. Se for para sinalizar uma diferença, é positiva: a curiosidade do brasileiro de conhecer, conversar, conhecer a cultura do estrangeiro. Nunca senti discriminação, mas estou falando da minha realidade, que era muito particular porque estava com uma família brasileira.

Você falou, em 2015, de um “boom da literatura mexicana”, com muitos autores sendo traduzidos e reconhecidos internacionalmente. De lá para cá, o que mudou neste contexto? Como você enxerga o cenário da literatura latino-americana nos dias de hoje?

Villalobos – A literatura mexicana – e a latino-americana em geral – estão passando por um momento de auge que se relaciona com uma maior atenção das editoras internacionais e com a presença de seus autores no cenário internacional, participando de festivais e de feiras do livro no mundo inteiro. Também tem a ver com programas de fomento à tradução, como por exemplo aconteceu com a literatura brasileira no programa da Biblioteca Nacional que fornece orçamento pra pagar traduções da literatura brasileira para outras línguas. Esses tipo de programas existem no México, Colômbia e em outros países, e isso faz com que seja mais fácil que a literatura viaje. Além disso, também existe um interesse em particular pela literatura que tenha a ver os livros em si, ou seja, seu valor literário. Desse meu ponto de vista, a literatura anglo-saxônica em particular é muito homogênea. Escritores americanos e ingleses são muito realistas, tem um tipo de literatura – desse meu ponto de vista, insisto – pouco imaginativo e pouco arriscado em termos formais. E isso, para os escritores latino-americanos, continua sendo importante, ou seja, o risco formal, a procura de novas formas, novos caminhos, a tentativa de escrever alguma coisa nova e “superar” o que já foi escrito. Agora a gente está no momento não só posterior ao boom latino-americano, mas também dos que vieram depois deles como o grande Roberto Bolaño. Nós, escritores que nascemos na década de 70, já estamos fazendo a literatura pós-Bolaño. Então, esse interesse das editoras internacionais e instituições culturais pela literatura latino-americana tem a ver com o fenômeno de achar que ela ainda tem coisas novas para mostrar e não só a repetição de um modelo realista, costumbrista, no modelo da literatura anglo-saxônica.

O narrador de Te vendo um cachorro (2013), se chama Teodoro, homenagem a Theodor Adorno, autor de uma frase muito especial para você: “A arte avançada escreve a comédia do trágico”. Um das principais características de sua obra é o tom irônico, tragicômico. Quais são os objetivos e efeitos que procura ao utilizar este estilo narrativo? Pode-se dizer que é um estilo da literatura mexicana?

Villalobos – A literatura mexicana, como quase todas as literaturas, é séria, solene. Eu diria que a literatura tem uma tendência pra solenidade porque a crítica e a academia consideram-na como uma coisa transcendente, sagrada, algo a se levar muito a sério. Portanto, parece que só a literatura solene, “profunda”, pode ser qualificada como grande literatura. A minha vai por outro caminho. Eu tento fazer uma literatura irreverente, não só humorística. Eu reivindico outro tipo de literatura, que tem uma grande tradição na literatura universal, a mesma linha do Dom Quixote, uma tragicomédia, que é outra maneira de entender a literatura. É essa ideia de que a ironia, o sarcasmo, até mesmo a piada também podem ser uma maneira de refletir sobre os problemas e sobre as condições mais importantes do ser humano. Tudo isso pode ser refletido através do humor, não só através da reflexão filosófica, sociológica, poética, entendida de um ponto de vista sério.

No seu romance mais recente, Ninguém precisa acreditar em mim (2018), há um personagem com o seu nome que também é mexicano. O quanto do escritor Juan Pablo Villalobos você colocou no personagem Juan Pablo?

Villalobos – Pra falar a verdade, o Juan Pablo é uma paródia de mim mesmo. O que eu queria era fazer uma paródia de um gênero muito presente nos últimos anos na literatura hispânica, brasileiro e mesmo internacional que é a chamada autoficção. Nesses livros temos um personagem que tem o mesmo nome do autor, e o que pareceria ser uma autobiografia na verdade é uma ficção. O que eu faço não é uma autoficção, mas uma paródia desse gênero. A única semelhança entre eu e o personagem é o ponto de partida: eu sou um mexicano que estudou literatura hispânica e que morava no México e através de uma bolsa foi fazer um doutorado em Barcelona. A partir daí, tudo é ficção. A pergunta que eu me fiz para escrever esse romance é “o que teria acontecido se?”. Ou seja, o que teria acontecido se uma rede de narcotraficantes mexicanos tivesse me obrigado a fazer um trabalho para eles quando eu vim para Barcelona? A partir daí surge o romance. Lógico que em todos os livros, não só os autoficcionais ou autobiográficos, no final das contas o autor acaba sempre falando de si mesmo, inclusive na ficção mais exagerada, hiperbólica e inverossímil.

Você comentou, em um post no Blog da Companhia em 2017, que escrever um romance exige um sacrifício do escritor, enquanto leitor, que pode ser insuportável. Como funciona seu processo criativo literário?

Villalobos – O processo criativo passa por várias fases. Pra mim, a primeira parte é a que pode ser a mais sofrida. Eu não gosto de trabalhar com um roteiro, com um enredo, não gosto de trabalhar com a definição dos personagens ou com a maneira como vou estruturar o romance, de ter as coisas definidas. Se eu tivesse tudo muito claro, daria em um romance previsível, o que seria entediante para mim e principalmente para o leitor. Eu gosto de trabalhar com uma dose de imprevisibilidade, mas isso faz com que o começo seja complicado, faz com que eu possa passar vários meses sem conseguir avançar. Por causa disso, eu reescrevo muito. Depois de escrever 40 ou 50 páginas, se eu percebo que não é o que eu quero, largo e começo de novo. É um processo de reescrita que pode levar vários meses até chegar no ponto em que eu sinto que é exatamente o que eu estava procurando. A partir daí o processo de escrita é muito prazeroso até chegar ao final.

Em O coração é um caçador solitário, a autora norte-americana incluiu no romance personagens marginais e excluídos da sociedade da época. Fazendo um paralelo com sua obra, você acredita que realiza o mesmo processo ao narrar personagens incomuns?

Villalobos – Eu não tinha pensando nesse paralelismo entre os personagens de O coração é um caçador solitário e os da minha obra, mas é verdade que são personagens marginais. Inclusive o meu romance Te vendo um cachorro é praticamente uma reivindicação dos marginais, daqueles que são esquecidos, que não tem voz, e é a mesma coisa que acontece com o romance de Carson Mcculers. Mas a literatura está cheia de personagens marginais. Eu diria que praticamente toda a literatura do século 20 é de anti-heróis e não de heróis. A crise da representação da literatura depois das vanguardas e do holocausto – a ideia de que não era possível fazer literatura depois do holocausto –, todas essas crises acabaram gerando um tipo de literatura que tem uma tendência para os anti-heróis, personagens aparentemente perdedores, perdidos, confusos. Mas o trabalho do autor é justamente tentar encontrar luz dentro desses personagens, encontrar o sentido da vida através do retrato desses personagens.

Carson McCullers escreveu seu primeiro livro aos dezesseis ano. Você diria que ainda é possível um(a) jovem escritor(a) fazer sucesso no mercado editorial pela qualidade literária de sua escrita?

Villalobos – Eu diria que sim, mas cada vez é mais difícil que isso aconteça, porque cada vez mais temos uma historia literária maior. Hoje em dia é muito difícil fazer uma literatura ingênua, ou seja, sem conhecer profundamente a tradição literária, as técnicas narrativas. Inclusive a literatura mais interessante dos  últimos 20, 30 anos é profundamente consciente de si mesma. Por isso, seria mais complicado que uma pessoa chegasse hoje com um romance que significasse uma novidade para o cenário das letras. Acho que o cenário mudou, mas lógico que gênios existem, sempre aparecerão e com certeza continuaremos a ver fenômenos parecidos com a Carson McCullers.

O que fisgou sua atenção em O coração é um caçador solitário a ponto de indicar aos 28 mil associados do clube? Por que acredita que os leitores brasileiros deveriam conhecer a obra?

Villalobos – Esse é um romance injustamente pouco conhecido. Eu o descobri no México há uns 25 anos, quando eu estava estudando letras espanholas, e eu lembro que fiquei totalmente impactado. O livro apresentou um olhar e perspectiva inéditos pra mim, uma galeria de personagens cativantes, muito queridos e nessa condição de serem os mais esquecidos e também os mais sem voz – literalmente, já que o protagonista e o seu melhor amigo são mudos. A questão da oralidade, da maneira como o romance está escrito, sua intensidade poética belíssima, me impactaram muito. Eu já li umas 3 ou 4 vezes, é um desses livros que você volta, e a cada vez você encontra uma outra coisa, a cada vez você lê com prazer e percebe que é um livro fundamental. Um livro que, quando você volta a ele, por mais que você tenha mudado, continua tendo um encanto especial, e como você mudou, o livro fala coisas novas pra você. Esse é um dos livros que eu mais dei de presente e que eu mais recomendei. E nunca teve uma resposta negativa ou indiferente, as pessoas sempre voltaram agradecendo, muito comovidas pelo livro. Isso é sinal de que é um livro que realmente pode mudar sua vida.

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