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Entrevista: Léonor de Récondo, autora de “Ponto cardeal”

Léonor de Récondo | Foto: Divulgação Share this post

“A literatura pode e deve tratar de todos os assuntos.”

Uma romancista-violinista. Quem acompanha a trajetória da francesa Léonor de Récondo provavelmente pensaria nela como o contrário, dada a sua proeminência no instrumento desde a juventude. Nesta entrevista à TAG, a autora de Ponto cardeal fala da transição da música para a escrita e conta sobre o processo de pesquisa para compor sua protagonista. Aclamada pela originalidade de sua obra no meio literário francês, a autora também destaca o ponto de contato que o livro que você recebe proporcionou não só com a comunidade trans como com a geração mais jovem de leitores.

Edição da TAG de “Ponto cardeal”, de Léonor de Récondo

TAG — Queria que você começasse falando um pouco de como passou a dividir seu tempo entre a literatura e a música.

Léonor de Récondo — O tempo entre essas duas atividades é variável, nunca é fixo. Quando comecei a ser publicada, eu era violinista o tempo inteiro. Com a chegada dos livros, as viagens e a divulgação que eles implicaram mudaram o equilíbrio das coisas. Hoje, diria que me tornei uma romancista-violinista e não mais o contrário. Mas, apesar de fazer menos concertos, toco violino todos os dias. Preciso dele para meu equilíbrio interior.

A música tem papel na criação das suas histórias?

Não sei. Não tem um papel no enredo, mesmo que às vezes os personagens toquem um instrumento ou sejam apaixonados pela música. Diria que busco mais que a música encontre seu lugar na linguagem. Procuro que as minhas frases sejam harmoniosas e fluidas, que o ritmo do livro seja predominante do início ao fim. Noções comuns à música e à literatura. É um trabalho árduo.

Ponto cardeal teve grande repercussão entre os jovens na França, vencendo o prêmio France Culture-Télérama (premiação concedida por um júri de estudantes secundaristas). Como foi para você ver a recepção do romance?

Foi ótimo conhecer essa nova geração de leitores, estudantes na casa dos 20 anos. Em geral, os leitores que encontro nas livrarias são 40 anos mais velhos! E essa geração é muito engajada pelas questões de gênero, reivindicando o direito fundamental de se afirmar em um ou outro gênero, ou em nenhum dos dois. Fiquei muito interessada por isso ao falar com eles. Nasci em 1976. A minha geração estava bastante envolvida com o direito de viver e escolher sua orientação sexual, ainda no contexto do medo da AIDS nos anos 1980 e 1990.

Como lhe surgiu a personagem de Laurent/Lauren? Como você pesquisou para compô-la?

A personagem da Lauren veio até mim quando vi a capa da revista americana Vanity Fair. Havia uma foto de página inteira da Caitlyn Jenner (atleta trans – gênero norte-americana, conhecida do público pelo reality show Keeping up with the Kardashians). Eu não a conhecia, e foi descobrindo sua história, sua transição de homem para mulher, que quis escrever sobre o que poderia representar, para uma pessoa, estar no corpo errado, no sexo errado, na pele errada. Li livros, depoimentos e vi documentários. Não contei a história de ninguém em particular, convidei os personagens. Depois da publicação do livro, no entanto, conheci mulheres trans que me disseram que essa história era a delas. E isso me comoveu muito.

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O que você acha que a trajetória de Lauren tem a ensinar ao leitor?

Tolerância, eu espero. A liberdade de ser você mesmo, ainda que o percurso possa ser muito difícil. Nós temos apenas uma vida, apenas um corpo. É preciso encontrar equilíbrio para alcançar a harmonia interior.

Como você vê a questão da transexualidade na literatura? Algum outro livro de ficção que você possa nos indicar a esse respeito?

A literatura pode e deve tratar de todos os assuntos! Pessoas trans me disseram, depois de lerem Ponto cardeal, que há muito poucos personagens trans de ficção. Não tinha imaginado isso. Quando eu entro numa livraria, há muitas personagens que se parecem comigo, tenho uma escolha. Pessoas trans ainda não podem escolher. A construção de uma identidade também passa pela leitura e pela representação de si nos personagens. Recomendo Orlando, de Virginia Woolf e o magnífico filme Laurence anyways, de Xavier Dolan.

Qual seu recado aos mais de 20 mil brasileiros que vão receber Ponto cardeal?

Que espero que eles gostem de ler o livro, que acompanhem de perto cada um dos personagens, e que se deixem levar. Esse é o meu desejo!

“A construção de uma identidade também passa pela leitura e pela representação de si nos personagens.”

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