Curadores / Entrevistas / TAG Curadoria

Entrevista: Marília Garcia e “Estação Atocha”

Marília Garcia | Foto: Renato Parada Share this post

“Sempre achei difícil definir o poema”

A curadora de fevereiro da TAG Curadoria é uma entusiasta da palavra como poucas. Editora, tradutora e escritora, Marília Garcia circula com graça pela palavra e pelo pensar da palavra. Primeira mulher brasileira a vencer o Prêmio Oceanos de Literatura com Câmera lenta (2018), ela falou um pouco de si, de seu trabalho e da indicação de Estação Atocha para a TAG.

Leia trechos da entrevista:

TAG — Queria começar pedindo que você contasse como foi a sua descoberta da leitura.

Marília Garcia — Lembro especialmente de dois momentos. Primeiro foi na escola, quando uma profes – sora me emprestou um livro do Ítalo Calvino, O barão nas árvores. Foi bastante impactante essa leitura, pois tive a consciência de estar entrando num mundo totalmente desconhecido. Sensação parecida (na mesma época) ao descobrir a coleção de clássicos da Abril que meus pais tinham em casa. O outro momento foi na faculdade de Letras, quando a leitura passou a vir acompanhada pelas leituras críticas e comentários sobre os textos lidos.

Você é tradutora e também explora tanto prosa quanto poesia como autora. Como você faz para transitar por tantos idiomas e tantas sensibilidades diferentes? Que paralelo você faz de sua experiência com a trajetória do protagonista de Estação Atocha e a de seu autor, escritor que também transita entre poesia e romance?

Acho que essa circulação entre gêneros e idiomas vem de uma curiosidade: sempre adorei ler – narrativa, poesia, não ficção – mas também adoro artes visuais, cinema e música, e acho que muitas vezes um poema fala sobre alguma coisa que pode ser complementada por um romance e por um filme e as sensibilidades se tocam, se afastam, as questões podem ser parecidas e dialogar. Também me interesso bastante por escritores e artistas que buscam pensar os suportes e se deixam contaminar por outros gêneros ou outros ofícios, como no caso do Ben Lerner (e o protagonista Adam citado por você), com a escrita de romance e de poemas, mas também no Brasil tantos escritores que escreveram, por exemplo, poesia e ensaio/narrativa (Haroldo de Campos), poesia e crônica (Drummond), ou a Ana Cristina Cesar, que abriu seus poemas para gêneros como a carta, o diário, a narrativa, o desenho – ou artistas que trabalham com a palavra de várias formas. No caso da tradução, ela nos ajuda a ver caminhos e possibilidades de escrita quando tentamos trazer outras vozes para o português e dizer coisas que não foram pensadas inicialmente na nossa língua.

Por sinal, o que o livro significa para a Marília leitora? Quais foram seus pensamentos na hora de indicar Estação Atocha para a TAG Curadoria?

Fiquei com vontade de indicar o Estação Atocha para a TAG pois achei que seria interessante, já que escrevo poesia, indicar um romance escrito por um poeta e que trabalha com algumas questões ligadas à poesia. Gosto muito dos momentos em que ele descreve sua relação com a língua: ele é um americano morando na Espanha, mas que não fala direito a língua e está tentando viver e se relacionar em espanhol. Então, em vários momentos (que são hilários), ele conta o que foi que entendeu do que a outra pessoa disse, mas ele não entende muito bem, então começa a enumerar as possibilidades do que o outro pode ter dito – e até mesmo com as frases mais simples, como “eu trabalho numa galeria”, Adam não sabe dizer se o seu conhecido disse que é dono da galeria ou funcionário da galeria ou se apenas passa as tardes na galeria. Acho que, ao descrever essas cenas (que são várias no livro), ele também está falando sobre poesia e sobre as possibilidades de sentido da linguagem.

Apresentando Árvore de Diana, de Alejandra Pizarnik, você destaca o medo da poeta de “não saber nomear o que não existe” e aponta sua “necessidade de achar palavras para fazê-lo”. Achei essa frase interessante e aplicável não só ao processo criativo, como também a conversar a respeito de poesia. Isso se aplica a você como pessoa que precisa falar de escrita? Como?

Gosto da pergunta e acho que podemos expandir essa ideia para a própria vida (não só para a nossa conversa sobre escrita): a gente sempre precisa nomear as coisas, muitas vezes coisas que ainda não existem como experiência para nós mesmos. Assim, é a linguagem que ajuda a torná-las reais. É claro que existem muitos nomes e palavras na língua para descrever as experiências, nossa herança cultural trata disso, mas muitas vezes vivemos alguma coisa e temos uma sensação de que aquilo não se encaixa exatamente nas palavras disponíveis. Apenas ao nomear a experiência ela vai poder existir. Acho que isso pode ser visto em exemplos simples, como uma cena que vemos na rua, um desejo súbito que não sabemos o que é, ou numa conversa íntima – até a experiência de ter um filho. Acho que muitas vezes é a linguagem que inventa nossa vida, a linguagem de que precisamos no dia-a-dia e também a literatura e a arte que nos ajudam a entender ou dar algum sentido à vida. Lembrei de um livro que saiu por aqui há pouco tempo, chamado Lost in translation, que reúne palavras intraduzíveis de várias línguas: por exemplo, uma palavra em japonês para descrever a luz do sol filtrada pelas folhas das árvores. Experiência que passa a existir quando a gente nomeia, mas que até então deveria ser uma experiência vivida apenas em japonês.

Falando em buscar nomes, você pode falar um pouco da palavra “desastre” para nós? Da sua relação com ela e da relação dela com o Câmera lenta, seu último livro?

Desastre vem de “des-astro”, ou seja, seria o “mau” “astro”, como se o desastre estivesse escrito nos astros, alguma coisa fora de controle que provoca uma catástrofe. Uma das questões que coloco no Câmera lenta é como lidar com o imponderável da vida, com as coisas que não controlamos, com os acasos – e, por outro lado, como prestar atenção nas coisas simples, do dia-a-dia (e não apenas nos desastres)? O livro está cheio de sinais e significantes que apontam para a possibilidade de algo que não controlamos, mas sugerem que, se prestarmos atenção, talvez seja possível nomear a experiência.

Você se debruça muito sobre o fazer da poesia como tema. Lembro também que Adam, lendo um poema de John Ashbery, diz que ele “descreve como é ler um poema de John Ashbery”. A Ana Martins Marques, em uma entrevista ao Suplemento Pernambuco, também já disse que a sua “é uma poesia que pensa e que se pensa, e que atravessa várias paisagens”. Como é isso de escrever um poema para dissecar um poema?

Muitas vezes gosto de poemas que fazem isso: que pensam o próprio poema, que pensam o que é escrever, o que é criar. E também que colocam em jogo as definições, se refazendo. E sempre achei muito difícil definir o que é o poema ou como se faz o poema. Acho que foi um pouco por isso tudo que comecei a escrever tentando incorporar essas reflexões, se não para dissecar o poema, ao menos para pensar um pouco no lugar dele, o que ele faz, por que eu escrevo etc. No livro do Ben Lerner ele também coloca em jogo a ideia do que é um poema: tem uma passagem de que gosto muito, quando Adam diz que gostava da poesia quando lia uns versos citados no meio de textos em prosa, com aquelas barras indicando as quebras de versos, que ele gostava da ideia do que “poderia ser um poema” (muitas vezes o próprio poema se mostrava muito fechado para ele). Gosto dessa ideia de ler algo mais sugerido do que afirmado. Borges dizia que quando algo está sugerido, existe uma espécie de hospitalidade no nosso pensa – mento para acolher aquilo.

A estante de Marília Garcia

O primeiro livro que li: O equilibrista, de Fernanda Lopes de Almeida (livro infantil)

(este questionário me lembrou de uma crônica linda da Clarice Lispector chamada “O primeiro livro de cada uma de minhas vidas”, dizendo que para cada momento há um primeiro livro… De todo modo, neste momento, esses aqui seriam os livros do meu questionário).

O livro que estou lendo: É a vida, de Mohamed El Khatib

O livro que eu gostaria de ter escrito: Cascas, de Georges Didi-Huberman

O último livro que me fez chorar: A ridícula ideia de nunca mais te ver, de Rosa Montero

O último livro que me fez rir: JLG, de Franklin Alves Dassie

O livro que eu não consegui terminar: Muitos! Bons ou maus, às vezes não é o momento certo para ler, às vezes seguimos um mau livro até o fim por curiosidade ou inércia.

O livro que eu dou de presente: As pequenas virtudes, de Natalia Ginzburg

O livro que mudou a minha vida: Noite do oráculo, de Paul Auster

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

Posts relacionados