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Entrevista: Martha Batalha e “Um homem bom é difícil de encontrar”

Martha Batalha | Foto: Jorge Luna Share this post

“O humor é uma resposta aos absurdos da existência”

Doce, contemplativa. Quem lê os dois romances de Martha Batalha pode imaginar a autora assim. No entanto, em entrevista à TAG, ela se revela profunda conhecedora do poder social da doçura. E não só: a escritora, há anos radicada nos Estados Unidos, fala nesta conversa das milhares de mulheres que inspiraram seu primeiro romance, o badalado A vida invisível de Eurídice Gusmão, e de como a obra que indicou para a TAG Curadoria estabelece paralelos com a sociedade brasileira.

TAG Eu queria que você começasse contando um pouco sobre o seu percurso no mundo da literatura. Você trabalhou com jornalismo, fundou uma editora em 2003, mas publicou A vida invisível de Eurídice Gusmão muitos anos depois disso. Foi um período de latência?

Martha Batalha — Acho que sim, foi um período de latência e procrastinação. Eu sempre quis ser escritora, mas precisava pagar as contas. Por isso escolhi profissões que me mantiveram próxima do mundo da escrita enquanto não tomava A Decisão. Durante os anos de repórter, aprendi a escrever com foco, rápido e sob pressão; rodei o Rio de Janeiro e o Brasil, conheci pessoas, dramas, lugares. Depois, com a editora, aprendi sobre todas as etapas do processo de edição. Quando eu me mudei para Nova York, fiz um mestrado e tinha um bom emprego numa editora em Manhattan, mas faltava algo, ou, sendo sincera, faltava tudo. Se eu sempre quis ser escritora, então, o que é que estava fazendo ali, aos trinta e tantos anos, ajudando a editar os livros das outras pessoas? Então comecei a escrever, sem me preocupar muito com o resultado. Era mais um acerto de contas comigo mesma, uma decisão que me deixaria em paz com as escolhas de vida.

Há também a história da publicação de A vida invisível, que não foi um romance aceito de primeira pelas editoras brasileiras. Você teve que ter a resiliência da própria Eurídice até tê-lo publicado – conta essa história pra gente?

Essa não é apenas a minha história, mas a da maioria dos escritores. Naquela época eu já conhecia o mercado editorial o suficiente para saber que a rejeição era quase certa, e que era preciso continuar tentando. É muito difícil publicar, e ainda mais difícil conquistar leitores. Imaginei que a carreira de escritora – se desse certo – seria lenta e progressiva. Um livro aqui, outro depois, um leitor indicando meu livro para outro, e assim por diante. A diferença na minha história é que tive sorte. A Luciana Villas Boas, que era exatamente a pessoa que eu queria que fosse minha agente, leu o manuscrito e decidiu me representar. Uma editora alemã que sabia ler português (deve ser a única no mundo) soube do manuscrito e o pediu à Luciana. Leu em um dia e fez uma oferta, escreveu uma carta de amor ao livro que foi lida por outros editores da Europa, o livro começou a receber ofertas de outros países, o produtor Rodrigo Teixeira comprou os direitos. Tudo isso antes da publicação no Brasil. Foi tudo muito rápido e inesperado. Dessa história toda, o que me deixa mais feliz é a possibilidade de continuar escrevendo que o sucesso do primeiro livro proporcionou, e o retorno positivo dos leitores.

E a Eurídice brotou de onde? Vejo não só leitoras mais velhas se identificando muito com a sua protagonista, como também mulheres mais novas, mesmo que de um modo não tão direto. Como você vê isso?

Eurídice, Guida e as outras personagens femininas são amálgamas das mulheres com quem convivi desde a infância, e que, por variadas razões, não conseguiram se realizar. Elas estavam na minha família, na vizinhança, no conservatório brasileiro de música, onde eu me formei em piano e teoria musical. Muitas estavam no rígido colégio de freiras em que eu estudava pelas manhãs e bordava e tecia durante as tardes. Algumas faziam as pazes com o destino e se resignavam com alguma doçura, outras se apagavam, e havia as que ficavam amargas, mal-humoradas. Na medida em que eu entendia mais sobre o mundo, percebi essa amargura/insegurança/ silêncio/frustração como a justa resposta a um destino que lhes foi roubado. Percebi também que havia em muitas delas um potencial perdido. É claro que nada disso era explícito, acho que nem elas eram capazes de elaborar. Era, enfim, uma visão pessoal, a minha forma de entender essas mulheres, e, com o sucesso do livro, percebi que, como você disse, muitas mulheres poderiam se reconhecer na trama e nas personagens.

Já tentei fazer uma literatura mais “séria”, e o resultado foi uma pasta no meu computador onde eu arquivei os textos que nunca mais vou ler, chamada “Pastiche de Alice Munro”.

Tanto em A vida invisível quanto em Nunca houve um castelo, o enredo orbita muito ao redor da vida familiar – lembro um pouco daquela frase de Tolstói que diz que “todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. De onde vem seu interesse pela herança familiar?

Outro dia, na seção de livros do New York Times, o romance de um escritor colombiano (ela se refere ao último livro de Hector Abad, La Oculta, traduzido para o inglês em 2018) foi levemente criticado porque nele havia “um impulso de filtrar a história nacional através da história familiar”. Eu li aquilo e percebi que o resenhista não entendia nada de América Latina, porque aqui muitas vezes a história nacional pode ser explicada através das histórias familiares. Somos uma sociedade conservadora e patriarcal, em que a manutenção do poder se faz por uma elite que casa entre si, e a ascensão social se faz também por meio de casamentos ou relações. O “homem cordial” do Sérgio Buarque de Holanda não é aquele que aceita tudo com passividade, mas o que sobe na carreira por causa dos contatos, por causa das relações cordiais. Porque fulano é primo de sicrano e tem uma boa posição não sei onde, e pode ajudar. Então, quando você olha para as particularidades dessas relações de poder e as dinâmicas familiares, consegue entender muito do país.

O favoritismo pelo filho homem (comum até pouco tempo, ou comum até hoje, em algumas famílias), a permissividade de certos comportamentos masculinos, a subserviência das mulheres. Ou mesmo um certo preconceito contra o trabalho manual (herança da corte portuguesa e do catolicismo), contra o trabalho doméstico, que geralmente é feito mais pela mulher, ou pela empregada. Tudo isso está nas famílias e no país, e quando se fala de um, se fala do outro.

O que nos leva à pergunta: por que a escolha de Um homem bom é difícil de encontrar para a TAG?

A Flannery trata de temas muitos próximos da realidade brasileira, como a influência da religião, a diferença de classes, o racismo e o preconceito. O conto que dá título ao livro é um clássico da literatura americana, e creio que o leitor entenderá o motivo quando se surpreender com os últimos parágrafos da narrativa. Outro conto surpreendente é “O negro artificial”, também na coletânea. Nele, Flannery mostra que o racismo é cultural de um modo que, para mim, é mais convincente do que qualquer livro de não ficção sobre o assunto. Como ela mesma disse, escrever literatura não é fugir do mundo, mas mergulhar na realidade com uma intensidade que – para ela – era nociva à própria saúde. Por causa das complicações do lúpus, ela não tinha energia para mais do que duas horas de escrita por dia, e morreu muito jovem, aos 39 anos. Em cada conto e personagem eu consigo ver a humanidade, e é isso o que faz essa autora, que viveu reclusa numa fazenda no sul dos Estados Unidos, universal.

A sua pesquisa sobre o Rio de Janeiro e seus tipos é muito interessante – o leitor consegue imergir muito na cidade viva, linda, caótica daqueles tempos. Tem muita gente que arrisca a dizer que suas obras são um “retrato do Brasil”. O que você pensa dessa afirmação? Que obras literárias você enxerga como retratos do Brasil?

Creio que os dois romances são um retrato do “meu” Brasil, e que escrever sobre o país foi uma forma de não perder minha identidade, ou de não sumir na cultura americana. Cada escritor tem algumas obsessões ou interesses, e o Brasil é um dos meus. O meu Brasil é composto por Casa Grande & Senzala e Sobrados & Mucambos; Gilberto Freyre me seduz a cada releitura. Por Graciliano também, não só o Vidas secas e São Bernardo, mas o Infância, que é muito triste, e os Relatórios. Chico Buarque acabou de publicar um livro fenomenal, o Essa gente, sobre o Brasil dividido politicamente destes tempos. Para mim já se tornou um clássico. Alguns contos também definiram o meu Brasil, como o “Feliz ano novo”, do Rubem Fonseca, e o “A maior ponte do mundo”, do Domingos Pellegrini.

E tem o Geografia da fome, do Josué de Castro, o Cidade partida, do Zuenir Ventura, todo o Vinicius, os cronistas. Muitos escritores brasileiros não têm condições de parar por alguns anos para escrever romances, eles ganham a vida escrevendo para jornais, e o resultado são essas crônicas magníficas que retratam o Brasil – de Rubem Braga a Antonio Prata, Tati Bernardi e Eduardo Affonso. É claro que só citei alguns; acabei de me lembrar, por exemplo, do Lima Barreto com seu Policarpo Quaresma, das biografias do Ruy Castro, do José Cândido de Carvalho, Pedro Nava, Verissimo, sempre, A casa do meu avô, de Carlos Lacerda (tão linda a prosa dele). É uma lista que, ainda bem, eu não consigo terminar.

Há um elemento de humor muito interessante em ambos os seus livros – em A vida invisível, há Zélia, a vizinha abelhuda, e há o rosário de manias de Antenor, marido de Eurídice. Em Nunca houve um castelo, há as vozes na cabeça de Brigitta. Quem trabalha com ficção sabe como é delicada a questão do humor na literatura, então queria saber como você dosa isso ao escrever e se há um viés político (seja voluntário, seja involuntário) nessa zombaria pontual das suas narrativas.

Já tentei fazer uma literatura mais “séria”, e o resultado foi uma pasta no meu computador onde eu arquivei os textos que nunca mais vou ler, chamada “Pastiche de Alice Munro”. O humor é uma resposta aos absurdos da existência, é uma forma de lidar e digerir a realidade. E no Brasil o que não falta é absurdo. Também descobri que é a minha forma de prender a atenção do leitor. Como disse o Kurt Vonnegut, é esse o trabalho do escritor, o de instruir, e entreter, o leitor. Os bons contadores de história usam o tempo de prazer do leitor de modo que ele não sinta que o tempo está sendo desperdiçado. Eu tenho a impressão de que consigo fazer isso através desse humor, dessa ironia que permeia o texto.

Em último lugar, você pode falar um pouco da experiência de ver suas personagens no cinema?

Foi muito emocionante e estranho, o oposto do processo de escrita, que é muito solitário, e no qual tudo acontece apenas na cabeça do escritor. Vi num cinema aqui de Los Angeles, uma exibição só para mim e meu marido. O filme é diferente do livro, o que não me incomoda. Eu escrevi uma tragicomédia, o Karim fez um melodrama. Acho que ele não seria capaz de seguir meu estilo ou eu o dele, e o filme funciona justamente porque ele teve essa liberdade criativa.

A estante de Martha Batalha

O primeiro livro que li: Angélica, de Lygia Bojunga Nunes, foi o primeiro livro com muitos parágrafos e poucas figuras que li, aos 7 anos. Fiquei orgulhosa.

O livro que estou lendo: O Fogo na floresta, de Marcelo Ferroni

O livro que eu gostaria de ter escrito: Cem anos de solidão. Nem me importo se a resposta for clichê, para mim é a História da América Latina no século passado. É claro que agora está tudo mais complicado, e esse livro não consegue mais nos explicar.

O último livro que me fez chorar: Lincoln no limbo, de George Saunders

O último livro que me fez rir: Essa gente, de Chico Buarque

O livro que eu não consegui terminar: O pequeno príncipe

O livro que eu dou de presente: Autores brasileiros, geralmente. Os últimos foram da Giovana Madalosso, Vanessa Barbara, Ruth Manus, Martha Medeiros, Francisco Azevedo, Edney Silvestre e Fernanda Torres.

O livro que mudou a minha vida: Minha vida é constantemente modificada pelos livros, para melhor. Um deles: O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago.

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