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Entrevista: Mary Lynn Bracht, autora de “Herdeiras do mar”

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“A história das mulheres ressoa em mim. Mulheres poderosas. Eu sinto que a minha mãe e as amigas dela são sobreviventes de suas próprias histórias”, disse Mary Lynn Bracht em entrevista ao The Bookseller, em 2018, quando perguntada sobre as inspirações por trás de Herdeiras do mar, livro enviado nas caixinhas da TAG Inéditos. De fato, a autora do mês traz à luz acontecimentos da Coreia do Sul que, por muito tempo, foram esquecidos ou não receberam a devida relevância ao longo dos anos. Mary Lynn nasceu na Alemanha, mas cresceu em uma comunidade de imigrantes sul-coreanos nos Estados Unidos. Hoje, mora em Londres. Estudou Antropologia, Psicologia e Escrita Criativa, além de ter recebido o prêmio de melhor romance de estreia da Guilda de Escritores da Grã-Bretanha pelo livro que você tem em mãos. Inspirada por nomes como Toni Morrison, Kyung-Sook Shin, Annie Proulx e Chimamanda Ngozi Adichie, é dona de um estilo de escrita pungente que vai surpreender até o leitor mais inveterado de dramas.

Mary Lynn Bracht | Foto: Tim Hall

Nesta entrevista exclusiva para a TAG, leia a relação da escritora com as temáticas que marcam Herdeiras do mar.

TAG — Para começar: li que você foi desencorajada a escrever no início. Você pode contar sobre como se descobriu escritora e sobre seus primeiros passos na carreira?

Mary Lynn Bracht — No ensino médio, disse à minha mãe que queria ser escritora, mas ela ficou horrorizada! Ela me convenceu a não seguir esse caminho. Em vez disso, então, fui à universidade com uma bolsa da Aeronáutica para estudar ciências da computação e me tornar piloto da força aérea. Mudei de ideia depois do primeiro ano e me transferi para outra escola para estudar antropologia e psicologia, as quais achava muito mais interessantes.

Durante a universidade, eu escrevia contos nas margens das minhas anotações e perguntava se teria a chance de terminar um romance. A chance veio uma década depois, com o nascimento do meu filho, quando comecei um curso de escrita criativa. Eram aulas sobre a escrita de romances e, depois da primeira, eu fiquei viciada. Terminei um primeiro romance, horrível, que está em algum lugar do meu apartamento e jamais verá a luz do dia. Depois, me juntei a um grupo de escrita na biblioteca local e recebi feedbacks semanais sobre vários experimentos de escrita.

Ter me dado tempo para escrever e para ler foi um primeiro passo essencial para me tornar escritora. Alguns anos depois, enquanto estudava para um mestrado em escrita criativa, escrevi os primeiros capítulos de Herdeiras do mar. Demorou muito para realizar meu sonho de adolescente, mas valeu esperar. Não acho que teria as mesmas histórias comigo se não houvesse seguido o caminho que segui.

Ficamos muito curiosos para saber como você pesquisou as mulheres haenyeo para o livro. Como foi o processo criativo?

Não tenho relação com as mergulhadoras haenyeo. Durante minha pesquisa sobre a história da Coreia, encontrei uma reportagem sobre a diminuição da população das haenyeo. O artigo destacava a necessidade de manter a cultura e as tradições haenyeo para futuras gerações. A ameaça do desaparecimento delas devido à idade avançada se comparava à perda das mulheres de consolo restantes. A força e a determinação dessas mergulhadoras são incríveis, e decidi inserir essas características nas irmãs Hana e Emi.

Minha pesquisa começou online, com reportagens e publicações sobre as haenyeo. Também encontrei livros, fotografias e documentários sobre as haenyeo de Jeju. Com as histórias das haenyeo e das mulheres de consolo, consegui criar uma família de mergulhadoras com habilidades únicas que as ajudariam a sobreviver às atrocidades da guerra. No verão de 2017, levei minha mãe à ilha Jeju para visitar o museu haenyeo e para assisti-las em ação, vestindo suas roupas de mergulho e desaparecendo no mar.

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O que mais a surpreendeu na pesquisa sobre as haenyeo e sobre a ocupação japonesa da Coreia?

A abolição da cultura coreana durante a ocupação japonesa me surpreendeu. Banir a língua, a escrita e até mesmo os nomes nativos significava uma espécie de morte cultural para toda a nação. Meu avô cresceu durante a ocupação japonesa e foi forçado a falar japonês na escola, onde apenas a história japonesa era ensinada. Há histórias lindas sobre coreanos colonizados que se mobilizaram para ensinar coreano e a história da Coreia pois jamais perderam a esperança de que seriam libertados da ocupação nipônica.

Você diz que não pensa em Herdeiras do mar como um livro feminista, mas mais como um livro humano que, mesmo escrito por uma mulher, com personagens mulheres, é um livro que deveria ser lido por todos. Na sua opinião, qual é o papel da ficção na promoção de igualdade de gênero?

A maior parte dos romances são trabalhos multi-gênero, que não cabem em uma categoria apenas. Há estudos que mostram que rotular livros como “ficção feminina” ou “feminista” barra a leitura de homens e meninos, quando eles deveriam ler mais livros assim para entender a experiência de mais da metade da população do mundo! Mulheres leem desde cedo livros escritos por homens e sobre homens, e isso amplia nosso entendimento sobre a experiência e o ponto de vista masculino através da história. Livros escritos por homens com histórias masculinas geralmente são tidos como “universais” e simplesmente rotulados como “ficção”, ou “ficção literária”. É quase como se esse gênero garantisse uma leitura segura para os homens, enquanto o rótulo de “ficção feminina” os afasta da leitura de livros escritos por e sobre mulheres. Se queremos promover a igualdade de gênero, todos os livros devem ser vistos como universais, independentemente do gênero do autor ou dos protagonistas.

Por último: você está trabalhando em algum novo projeto?

Sim, trabalho no meu segundo romance. Ele conta a história de três gerações de mulheres cujas vidas são impactadas pelas guerras americanas no Oriente Médio.

A estante de Mary Lynn Bracht

O primeiro livro que li: Provavelmente um “Escolha sua aventura” quando era criança. Eu adorava ficção científica!

O livro que estou lendo: The overstory, de Richard Powers.

O livro que mudou minha vida: O som e a fúria, de William Faulkner.

O livro que eu gostaria de ter escrito: Drácula, de Bram Stoker.

O ultimo livro que me fez chorar: Please Look After Mother, de Kyung-sook Shin.

O último livro que me fez rir: As desventuras de Arthur Less, de Andrew Sean Greer.

O livro que eu dou de presente: O poder, de Naomi Alderman.

O livro que eu não consegui terminar: As vinhas da ira, de John Steinbeck.

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