Entrevistas / TAG Curadoria

Entrevista: Svetlana Aleksiévitch

Share this post

Em julho de 2018, em comemoração aos 4 anos do clube, os assinantes da TAG Curadoria receberam o livro As últimas testemunhas, da Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch. A obra, até então inédita no Brasil, foi enviada em primeira mão aos associados.

A escritora bielorrussa concedeu uma entrevista exclusiva à TAG.

TAG – Diferentemente de muitos autores de língua russa, você aborda aspectos que contradizem convicções, mitos e utopias da Grande Rússia. Como você definiria o Homem Soviético retratado em seus livros e de que forma ele se relaciona com o passado de sua nação?

Svetlana Aleksiévitch – A revolução dos anos 1990 foi feita por Gorbachev mais um punhado de Intelligent[1]. Isso significa que 90% das pessoas acordaram em um país completamente desconhecido para elas e não sabiam como viver nele. E até agora, elas continuam sem saber, e não aceitam o capitalismo. Tenho ouvido com frequência que as pessoas têm saudades do socialismo. Naquela época as pessoas não tinham que trabalhar em três lugares. Todos viviam do mesmo jeito. A vida consistia nisso mesmo: em viver, reunir-se ao redor de uma fogueira, tocar violão, conversar, ler livros. Hoje em dia é muito difícil fazer isso. Em poucas palavras, o capitalismo, mesmo em sua versão não tão impiedosa, como o da Rússia atual, é um sistema muito cruel. Sim, você pode possuir alguma coisa, mas precisa trabalhar muito duro. Para nós, isso significa uma reconstrução absoluta da vida e da psicologia. Muito poucas pessoas estão preparadas para isso.

Em certa viagem que fiz aos arredores de Vladimir, vi em uma loja, logo de manhã, uma fila dessas pessoas. Que liberdade, nem jornais, nem manifestações em Moscou… Assim que a loja abrir, eles terão liberdade: cinco tipos de vodca, bananas, tudo o que você quiser. Então perguntei: mas será mesmo que isso é a liberdade para a pessoa? E eles falaram que com isso para eles estava ótimo. O único granjeiro, cuja propriedade foi por eles queimada várias vezes, é para eles um fascista. Mas por que um fascista? Porque não deixa roubar, e com ele tem que trabalhar da manhã até a noite. E todos esses homens, que eram quatro, tinham trabalhado na granja dele, e tinham se demitido.

A liberdade não é uma coisa que possa ser adquirida como o chocolate suíço ou como o queijo holandês. Para isso é preciso tempo, é preciso viver e passar por um monte de experiências.

Com certeza já cresceu outra geração que tem outra visão do mundo mas, mesmo assim, não poucos jovens leem Marx e Lênin. Nas cidades russas museus são abertos e são construídos monumentos dedicados a Stalin. Eu não acho que tenha nisso alguma contradição geracional. Nós não somos tão diferentes assim. Sim, os jovens sabem línguas estrangeiras, sabem usar os computadores, não têm complicações ideológicas… Mas mesmo assim, ainda continuamos no mesmo mundo. Ainda não sabemos quem somos e para onde vamos. Não temos uma visão de mundo, nem uma concepção do passado, do presente ou do futuro.

A Bielorrússia é um verdadeiro museu do passado. E na Rússia, o que acontece? Os que estão no poder têm uma concepção de Rússia, os que chamam a si próprios de patriotas têm outra, há uma terceira Rússia para os comunistas e uma quarta para os liberais. A Rússia é sempre uma intuição, sempre um projeto que nunca se realiza por completo.

Quando começava a conversar com as pessoas, a refletir com elas sobre o passado, o tempo todo voltavam lá, para os anos 1930, para o nosso começo. No livro O fim do homem soviético há um conto em que uma jovem se lembra de como ela não queria ler Arquipélago Gulag de Soljenítsin, apesar de o professor da escola os obrigar a ler. Para ela esse era um livro grande e chato, e tudo o que estava ali escrito parecia-lhe muito alheio. De repente, em uma praça da Bielorrússia dissolvem uma manifestação de forma violenta, prendem centenas de pessoas e começam a acontecer prisões pelo país inteiro… A moça, abalada, chega a uma aldeia e vê o a rapidez com que a máquina stalinista ressuscita e começa a trabalhar. As pessoas têm medo de falar e começam a fazer denúncias. Ninguém as obriga a fazer isso, elas próprias relembraram o que devem fazer. É uma relembrança genética. Então a moça vai embora para a Rússia para continuar os estudos e lá começa a participar de protestos… E começa a deparar com uma situação semelhante: de novo as mesmas conversas, as mesmas traições e o mesmo trabalho dos Serviços de Inteligência. O Arquipélago Gulag torna-se um livro de hoje…

Como Putin conseguiu reparar tão rapidamente a máquina stalinista? De novo o FSB (o antigo KGB)[2] pode arrombar qualquer casa, confiscar os computadores, incriminar sem justa causa um blogueiro por ter escrito um post a favor da Ucrânia, pelo país inteiro procuram e submetem a julgamento supostos espiões: cientistas, professores, militares. As pessoas estão assustadas e o que acontece realmente na sociedade, o que ela pensa, ninguém sabe.

Ouso dizer que perdemos a chance que tivemos nos anos 1990. Sobre a pergunta de como deveria ser um país, forte ou digno, onde as pessoas vivam bem, a resposta escolhida foi a primeira: forte. Agora é de novo o tempo da força. Os russos estão em guerra com a Ucrânia, com seus irmãos. Aviões russos bombardeiam a Síria…

Não existe o “império Vermelho”, mas o “homem vermelho” ficou. Continua.

O tempo das esperanças se trocou em tempo do medo. O tempo regrediu… É o tempo Second Hand

Agora eu não estou muito segura de ter escrito a história do homem “vermelho”…

TAG – Sua obra explora consequências e efeitos decorrentes de grandes acontecimentos históricos, como a Segunda Guerra Mundial, a Guerra do Afeganistão e a dissolução da União Soviética. Em uma entrevista concedida ao jornalista francês Michel Eltchaninoff, você comenta que sua escrita busca “esculpir uma época”, mas através de qual ponto de vista?

Svetlana – Escrevi cinco livros (A guerra não tem rosto de mulher, Os meninos de zinco, As últimas testemunhas, Vozes de Tchernóbil, O fim do homem soviético), mas na verdade, a vida inteira tenho escrito um único livro: uma enciclopédia do “homem vermelho”, da “utopia vermelha”, dessa vida que chamávamos de socialismo. A cultura russa possui a experiência única, inocente e terrível da tentativa humana de construir o paraíso na terra, que terminou com uma gigantesca vala comum. Eu pensei que era importante fazer esse trabalho porque a “utopia vermelha” ainda vai tentar seduzir a humanidade por muito tempo.

Nunca vou esquecer que no tempo do desmantelamento da usina por causa da catástrofe de Tchernóbil, eu passava as noites no alojamento em que moravam os trabalhadores encarregados disso. Na mesa, uma garrafa de três litros de aguardente caseira e as conversas sobre Tsiolkovski[3] e Gorbachev, e sobre Hitler, o comunismo e o capitalismo. Nesse momento, uma mulher já não tão jovem traz uns petiscos, e vejo que ela tem umas manchas vermelhas nas mãos. Perguntei “o que a senhora tem?”. Ela respondeu: “Nós lavamos os macacões de nossa gente todo dia. Estão contaminados. Prometeram dar-nos máquinas de lavar, mas não trouxeram. Lavamos na mão.” “Mas como é que pode?”, e me viro para o chefe que está sentado ao lado. “Prometem”, disse abanando a mão, e continuou filosofando. Pois então, eu tenho certeza que pessoas ocidentais falariam sobre as máquinas de lavar e não sobre as ideias malucas de Tsiolkovski. E lá trabalhariam as máquinas de lavar, e não umas mulheres-kamikaze.

Pergunto-me o tempo todo, qual é o sentido dos sofrimentos que temos suportado. Por que, no nosso caso, os sofrimentos não se transformam em liberdade? Entre nós é costume, começando por Dostoiévski, enaltecer, entre outras coisas, essa magia do sofrimento. Eu penso que os sofrimentos, pelo contrário, petrificam a alma humana, e ela já não pode se desenvolver. De qualquer forma, para o desenvolvimento da pessoa, ela precisa de condições de vida felizes e normais. Nisso consiste a polêmica entre Soljenítsin e Shalamov. Eu, de todo modo, estou do lado de Shalamov. O campo de concentração perverte as pessoas. Tanto o algoz, como a vítima.

Dos relatos de centenas de pessoas, tentei reunir uma imagem de um tempo: que tempo foi esse, como vivemos, quais eram as crenças e as esperanças. Eu queria gravar esse tempo que, à sua maneira, foi único. Pode-se dizer que foi um tempo terrível, mas um experimento como esse, com o laboratório marxista, não vai acontecer nunca mais. Ficou um mar de sangue.

TAG – Apesar de ser a única escritora mulher a ter recebido o renomado Prêmio Nobel de Literatura na Bielorrússia, seu país de origem, as autoridades a ignoram. Como você acredita que a literatura pode posicionar-se frente à perseguição da classe artística e quais limites ela enfrenta face a regimes totalitários? 

Svetlana – Quando foi anunciado que eu tinha sido laureada com o Prêmio Nobel, os bielorrussos saíram às ruas de Minsk e se abraçaram e se beijaram. Já o ditador Lukashenko não conseguiu achar palavras boas para mim. Ele disse que eu “cubro o país de sujeira”. A mesma coisa falou Stalin em sua época sobre Bunin e Pasternak, e Brejnev sobre Brodsky, todos eles russos laureados com o Prêmio Nobel. Mesmo depois de 50 anos, os ditadores não mudam em nada, nem no léxico.

Mas eu considero que devo fazer meu trabalho tranquilamente, tentar entender meu tempo, responder às perguntas que surgem em nosso mundo, que muda tão rapidamente. Os ditadores vão embora e o povo fica.

TAG – Segundo a Academia Sueca, você foi premiada com o Nobel pela sua “obra polifônica, memorial do sofrimento e da coragem em nossa época”. No entanto, esta obra não é definida nem como ficção histórica, nem jornalismo. Quais palavras você usaria para definir seu trabalho?

Svetlana – Flaubert dizia de si, “sou um homem-pena”. Eu sou “uma pessoa-ouvido”. Por muito tempo procurei um gênero que respondesse à maneira como eu enxergo o mundo, à maneira como funciona meu olho, meu ouvido… E escolhi o gênero das vozes das pessoas… Eu espreito e ausculto meus livros nas ruas, atrás das janelas. Nelas, as pessoas reais contam os principais acontecimentos de seu tempo: a guerra, a queda do império socialista, Tchernóbil, e todos eles conservam na palavra a história do país, a história comum. Tanto a antiga, como a mais recente. E cada um guarda a história de seu pequeno destino humano.

Por um lado, eu sempre quis que as vozes ressoassem em meus livros como um coro e, por outro lado, sempre quero que se ouça uma voz humana solitária. Parece-me que hoje as pessoas querem ouvir a voz de outra pessoa, e não a da época ou do tempo em que está tudo concentrado numa espécie de monólito. Sempre me interessou o espaço de uma alma humana, pois é justamente lá que tudo acontece. Eu vejo a grande história por meio de pequenas histórias. Então não fica o ruído surdo do tempo, mas aquilo que podemos entender, aquilo que nos interessa depois de passarem os anos. Interessa-nos a vida humana. Eu então a reduzo a dimensões humanas.

Meu ouvido está sempre junto à janela, escutando a rua. Espreito, ausculto um ritmo novo, um som novo. Uma música nova. A vida na rua é pra lá de interessante, e de terrível, e de engraçada, e de humana, mais do que em nossos círculos em que a literatura se alimenta de literatura, e a política de política.

Eu escrevo sobre o ser humano no tempo e no cosmos, como Anna Akhmátova: “O homem nu, na terra nua”. Aqui começa a literatura. Por exemplo, no livro sobre as mulheres-soldado na guerra, A guerra não tem rosto de mulher, interessavam-me aquelas perguntas eternas: Como uma pessoa pode ficar a sós com a ideia de que ele pode matar outra pessoa? As pessoas morrem de uma forma tão simples, e matam também de forma simples demais. Como eles podem viver com isso depois? E sobre isso fala uma mulher. Com certeza, ela tem uma visão própria, nenhuma ideologia a subjuga por completo: “Tinha pena de uns e de outros. Você vai pelo campo depois do combate, os mortos estão deitados, espalhados como a batata. E olham para o céu”. Talvez só no amor e junto da morte a pessoa é capaz de sair desse círculo. Eu fico vigiando esses momentos.

Eu chamo meu gênero de “romance de vozes”. Podemos dizer que é um romance conciliar. Como quer que seja, é uma tentativa de encontrar uma forma romanesca nova.

TAG – Quando você se depara com os relatos dos sobreviventes da guerra, no que diz respeito ao seu método de escrita, de que maneira os sintetiza e transforma em um conjunto de textos coerentes para o livro?

Svetlana – Eu venho de uma família de professores rurais. Todos foram professores, até a quarta geração. Os professores de aldeia são pessoas singulares. Eles materializam o vínculo com a grande cultura nas pequenas aldeias. Eu nasci depois da segunda guerra, quando nas aldeias russas quase não havia homens. E eu ouvia as histórias das mulheres sobre a guerra. Isso era tão mais forte do que aquilo que havia em casa nos livros… a casa inteira cheia de livros… tanto que cheguei a sentir rejeição pelos livros. Porque tanto as velhinhas como as mulheres jovens, que ficaram sem homens, falavam com tanta força, e isso era tão autêntico, não era nada trabalhado pela fantasia alheia de ninguém. E quando entrei na faculdade de jornalismo e viajei pelo país, eu me lembrava disso o tempo todo, me lembrava do tom dessas conversas. E eu pensei que a literatura deveria ir atrás do tempo. Em nossa literatura existe a tradição dos relatos orais, e eu tentei fazer o mesmo. Comecei pelos relatos femininos sobre a guerra em A guerra não tem rosto de mulher.

Hoje para mim a testemunha é a personagem principal da literatura. Dizem-me que as lembranças não são nem história nem literatura. São simplesmente a vida suja e não purificada pela mão do artista. A matéria prima da fala. Mas para mim é tudo o contrário… É justamente lá, na voz humana viva, na representação viva da realidade, que está oculto o mistério de nossa presença aqui, lá fica descoberta a tragicidade insuperável da vida. Seu caos e paixão. Sua unicidade e incompreensibilidade.

Eu faço meus livros a partir de centenas de detalhes, nuances, matizes. Podia acontecer que depois de um dia inteiro de conversa, sobrasse apenas uma frase. Mas que frase! “Eu fui para o front sendo tão pequena, que até cresci por causa da guerra.”

Sabe, eu frequento uma pessoa… uma pessoa como um amigo. Não é de jeito nenhum uma entrevista, é uma conversa sobre a vida, sobre tudo: sobre a blusa nova, sobre o amor, sobre os sofrimentos… é sobre a vida. O que a pessoa entende, sabe, viu. A vida não está constituída por alguma coisa grande. Até aquilo que é grande em nossa vida é resultado de algo pequeno. Outra coisa é que seja necessária certa magia, certo olhar. Eis o que é o mais importante para mim. Não reunir material, mas reunir uma filosofia. Isto é, olhar para as coisas que parecem corriqueiras, de uma forma completamente nova.

Eu demoro para escrever meus livros. Cinco ou dez anos. Registro 500, 600 pessoas. Procuro uma pessoa abalada pelos acontecimentos, não um narrador banal. Para que uma pessoa responda de uma maneira nova, é preciso interrogá-la de uma forma nova. Temos que falar não de Tchernóbil ou do Afeganistão, mas da vida. Interessa-me não a informação, mas o mistério. O mistério da vida.

Qualquer história transparece a história da alma, as paixões humanas ficam fora da história. Minha tarefa é extraí-las da escuridão, do desaparecimento. Eu lido com uma mentira dupla: com a mentira do totalitarismo e com a mentira da história como ciência que limpa a vida até chegar aos parágrafos sem paixão das apostilas de história. Minha vontade é humanizar a história.

Como eu disse, chamo o gênero que escrevo de “romance de vozes”. Nunca vou me achar no direito de julgar e condenar. Eu tento entender.

TAG – O livro “As últimas testemunhas” contém passagens emocionantes, com relatos sensíveis vivenciados por crianças em uma época trágica. Imagine que mais de 25 mil leitores brasileiros lerão tais memórias pela primeira vez, o que você diria a eles?

Svetlana – Nos diários de Tolstói estão as seguintes palavras: “Eis que você entra em um hospital onde há muitos feridos. Estão deitados por toda parte, até nos corredores, no chão. Os médicos não conseguem ajudar todos, há um cheiro horrível. Tudo isso é insuportável para o olho humano, mas observe as pessoas por separado, e você terá vontade de ajudar alguém”. Eu acho que Tolstói está certo. Vivemos em um mundo em que há sofrimentos demais, e devemos ajudar. A compaixão ensina a alma humana. Eu penso também que o sofrimento é um tipo de informação. Isto é, nos é transmitido um certo conhecimento acerca do homem. É o conhecimento acerca de como é difícil ser pessoa.

[1] Pessoa pertencente à chamada intelligentsia, compreendida como um grupo de pessoas que podem pertencer a diversas camadas sociais, mas que têm em comum o interesse pela reflexão sobre os mais diversos e complexos problemas do ser humano e da sociedade.

[2] Federalnyi Slujba Bezopasnosti – Serviço Federal de Segurança da Federação da Rússia, que substituiu o KGB – Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti – Comitê Estatal de Segurança.

[3] Konstantin Tsiolkóvski, cientista russo reconhecido por seu trabalho pioneiro no estudo dos foguetes e da cosmonáutica.

2 comments

Eliana 13 de outubro de 2018 Responder

Ótima entrevista!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

Posts relacionados