Tem autores que acompanham nossa travessia pela vida de um jeito tão especial que conquistam com suas histórias um lugar próximo ao de um amigo ou familiar. Alguns deles alcançam esse lugar com gerações de pessoas, em diferentes países e continentes, presentes no silêncio da intimidade humana e no alarido das transformações da sociedade. Ninguém haverá de discordar que Gabriel García Márquez é um desses autores. E é dele o livro do mês da TAG Curadoria, Do amor e outros demônios, indicação da curadora Socorro Acioli, escritora cearense que segue a potente tradição do realismo mágico latino-americano.
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A VIDA DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
Nascido em Aracataca, em 1927, Gabo transitou entre duas linguagens bem diferentes para simbolizar a realidade: o jornalismo e a literatura. Mas para este inquieto, crítico e imaginativo escritor colombiano, as esferas do real e do fantástico não estavam tão distantes assim. Conhecido como uma das maiores referências do realismo mágico latino-americano, ele iniciou sua carreira no jornalismo ainda jovem, antes mesmo de se consagrar como escritor. Trabalhou como repórter, cronista e editor em veículos como o jornal colombiano El Espectador, onde publicou seu primeiro conto em 1947, e a agência de notícias cubana Prensa Latina, fundada por Fidel Castro, em que atuou como correspondente internacional em Nova York.
O estilo narrativo que marcaria suas obras literárias já estava presente em seus textos jornalísticos. Uma das histórias que circula sobre o García Márquez repórter é de que certa vez ele teria viajado até uma cidade colombiana para cobrir uma manifestação e, ao encontrar as ruas calmas e vazias, convocou ele mesmo um protesto para não voltar à redação de mãos vazias. Gabo via o jornalismo como uma escola fundamental para o escritor e dizia que era “a melhor profissão do mundo”.
García Márquez morou em vários países. Trabalhou como correspondente na Europa, viveu em Paris nos anos 1950, passou temporadas no México e em Cuba, e depois se estabeleceu entre Barcelona, Cartagena e Cidade do México. Essa mobilidade influenciou seu olhar crítico e cosmopolita sobre a realidade latino-americana, além de fortalecer seus vínculos com movimentos políticos e intelectuais que se espalhavam entre a Europa e a América Latina.
A OBRA DO AUTOR
Em 1955, publicou seu primeiro romance, A revoada (O enterro do diabo). Seis anos depois, em 1961, veio Ninguém escreve ao coronel, e no ano seguinte, O veneno da madrugada (A má hora). Em 1967, lançou o romance pelo qual seria lembrado além de sua vida, Cem anos de solidão, um clássico inesquecível que levou a atmosfera de sua infância em Aracataca para a Macondo ficcional, dialogando com leitores do mundo inteiro. Na época, a América Latina passava por intensas transformações sócio-políticas, enfrentando regimes autoritários e as imposições culturais herdadas da Europa e do passado colonialista. Quinze anos mais tarde, Gabriel García Márquez foi consagrado com o Nobel de Literatura, marcando para sempre seu lugar entre os gigantes da literatura mundial.
Mas as falas do autor sempre recusaram apreensões simplistas sobre esse tal de realismo mágico. “É só realismo. A realidade que é mágica. Não invento nada. Não há uma linha nos meus livros que não seja realidade. Não tenho imaginação”, chegou a afirmar. Embora possamos discordar que falte imaginação a Gabo, a declaração é precisa ao sublinhar o fundamental caráter político de sua obra. O que o autor faz é materializar o absurdo e a brutalidade do real em uma linguagem inventiva e impactante, incorporando a diversidade das cosmologias que convivem na vastidão da América Latina.
A rigidez da separação entre jornalismo e literatura é a mesma que afasta fato e ficção, realidade e fantasia, é a mesma que suprime o encantamento do olhar sobre a vida e nos endurece e fragiliza diante da brutalidade do real. Na dimensão que chamamos de real, não há mesmo lugar para o insólito, o absurdo, para aquilo que escapa à lógica? Em algum momento da história a realidade objetiva de fato bastou para explicar a profundidade da experiência de existir?
A prosa de Gabo é inconfundível e viciante pois nos conecta com passagens da história da América Latina e com o universal da experiência humana sem desviar de temas duros, usando uma linguagem de tamanha força simbólica que recai como um sopro de ar fresco que nos impulsiona a atravessar o trágico com graça e lirismo. Reflete de algum modo o milagre existencial latino-americano e tudo o que resiste neste território, contrariando todas as tentativas de apagamento. Segundo Eric Nepomuceno, tradutor responsável pelas edições brasileiras de mais de uma dezena de romances de García Márquez, a grande magia da América Latina não está na literatura. “Nós somos de uma sobrevivência mágica. Porque se a gente for ver a história do nosso continente, é absolutamente impossível nós termos sobrevivido, e sobrevivemos. Nós somos povos solitários, massacrados, e sobrevivemos.”
DO AMOR E OUTROS DEMÔNIOS

No livro, Sierva María de Todos Los Ángeles é a filha única de um marquês na cidade portuária de Cartagena das Índias, por onde fluía o comércio de negros escravizados e onde se concentrava parte da elite colonial do país. Negligenciada pelos pais e criada no pátio da casa dos escravizados, a menina cresce identificada com as tradições culturais e religiosas de matriz africana, aprende iorubá antes mesmo de aprender espanhol e leva no pescoço as guias do candomblé. No começo da história, ela é mordida por um “cachorro cinzento com uma estrela na testa” e a suspeita de que tenha contraído raiva leva seu pai, induzido por um bispo, a interná-la em um convento para ser submetida ao exorcismo — já que a raiva era então considerada uma possessão demoníaca. As tensões simbólicas e raciais entre o catolicismo europeu e o que é chamado pela elite branca de “feitiçarias dos negros” constituem o grande impasse que se estende pelo arco narrativo da obra.
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