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Resenha do associado: “Autobiografia”, de José Luís Peixoto

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Convidamos os associados da TAG Curadoria a fazerem suas resenhas de Autobiografia, de José Luís Peixoto, livro escrito para a TAG e enviado nas nossas caixinhas de aniversário de 5 anos, em julho. Veja a resenha da Letícia Zauk Leivas, escolhida pra aparecer no blog este mês:

Em dezembro/2018, recebemos uma cartinha que dizia em um de seus trechos:

“Enquanto você lê esta carta, um romance está sendo escrito por um grande autor português – a obra será enviada a você em primeira mão, em um dos projetos que marcará os 5 anos da TAG.”

Ao longo de 6 meses, chegaram pequenas pistas sobre a surpresa; até julho, quando finalmente nos foi revelado um livro, revestido por uma luva com uma casa portuguesa, com certeza. Telhas coloniais, azulejos, uma janela e uma porta. Um convite à curiosidade. Atrás daquela porta, havia uma história fragmentada, um “texto ficcional de cariz biográfico”. 

Personagem principal: Saramago. 

– Que? Como? O Nobel? Quem é o autor? O próprio? – Não. É o José. – Pois então?! Jo-sé-sa-ra-ma-go. – Não… o José. – O Zezito? É um meninote! – Não, não, José, o também escritor português. – O José Luís Peixoto? Ou o José, escritor e beberrão, dado a jogos de apostas?

Todos os nomes. Todos eles nos conduziram, pela língua portuguesa que compartilhamos (Portugal/Cabo Verde/Brasil) e também pela língua do paladar, para dentro de uma história cheia de cheiros e sabores familiares. Foi uma delícia encontrar fragmentos de texto que pareciam acidentalmente referentes às obras de Saramago.

Capítulos embaralhados como as cartas do José, o jogador, uma prosa poética, como o texto do José, o Peixoto e uma descrição feita com perfeição sobre José, o Saramago, com sua movimentação altiva e elegante, fluindo entre as páginas – aquela sabedoria da hora certa de agir ou falar, sem interferir demais no livro de José – ora era Zezito, ora estava com Pilar, chegava a aparecer mais de uma vez em um mesmo capítulo, assim, como um homem duplicado. 

José, com seu jogo de espelhos, por pouco não nos cegou, mas manteve-nos sob controle, cercados em Lisboa, fez chover Saramago sobre nós. 

Se Saramago pudesse dizer apenas uma curta sentença a José sobre AUTOBIOGRAFIA, creio que diria: “Choveste-me.”

Choveu Bartolomeu, choveu Fritz, Raimundo, Domingos, Lídia…

Lídia! Que personagem maravilhosa, em sua terceira enca(de)rnação, poucas palavras, mas coração pulsante neste livro… distante um oceano, tão próxima da realidade das mulheres brasileiras.

Duvido que alguém acabe esta leitura sem um gostinho de quero mais, seja de Saramago ou de José.

Não haverá outro Saramago, mas há um José e (como sugere a capa do livro) a literatura de língua portuguesa continua muito bem em suas mãos.

Enquanto você lê minhas impressões sobre o livro de julho e a TAG prepara nossa próxima experiência literária, em algum lugar, há um Zezito que está destinado a um dia chover seus escritos sobre nós, adormecendo no colo de uma Lídia.

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