{"id":9463,"date":"2018-09-28T19:03:21","date_gmt":"2018-09-28T22:03:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.taglivros.com\/bloghlg\/resenha-critica-de-antonio-candido\/"},"modified":"2018-09-28T19:03:21","modified_gmt":"2018-09-28T22:03:21","slug":"resenha-critica-de-antonio-candido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.taglivros.com\/blog\/resenha-critica-de-antonio-candido\/","title":{"rendered":"Resenha cr\u00edtica de Antonio Candido"},"content":{"rendered":"<p><em>Texto retirado de <\/em>O discurso e a cidade<em>,\u00a0de Antonio Candido, publicado\u00a0pela primeira vez em 1993 pela editora\u00a0Duas Cidades.<\/em><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Il deserto dei tartari <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(1940), de Dino Buzzati, conta a hist\u00f3ria de um jovem oficial, Giovanni Drogo, destacado ao sair da Escola Militar para a Fortaleza Bastiani, situada na fronteira com um reino setentrional. Para al\u00e9m dela se estende uma plan\u00edcie imensa, o Deserto dos Tartaros, de onde desde s\u00e9culos n\u00e3o vem sinal de vida. De tal modo que a guarni\u00e7\u00e3o parece in\u00fatil, pela aus\u00eancia de inimigos vis\u00edveis ou mesmo prov\u00e1veis. Mas h\u00e1 a ilus\u00e3o de um perigo virtual e constante, que poderia causar a guerra e dar aos oficiais e soldados a oportunidade de mostrarem o seu valor. Por isso vivem todos numa expectativa permanente, que ao mesmo tempo \u00e9 esperan\u00e7a \u2013, a esperan\u00e7a de poder um dia justificar a vida e ter ocasi\u00e3o de brilhar. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A narrativa se organiza ostensivamente em trinta cap\u00edtulos mas a sua <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">raz\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, manifestando a estrutura profunda, parece exprimir-se por um movimento em quatro tempos, gerando quatro segmentos que podem ser denominados segundo os seus temas b\u00e1sicos: incorpora\u00e7\u00e3o \u00e0 Fortaleza (caps. I-X); primeiro jogo da esperan\u00e7a e da morte (caps. XI-XV); tentativa de desincorpora\u00e7\u00e3o (caps. XVI-XXII); segundo jogo da esperan\u00e7a e da morte (caps. XXIII-XXX). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De tudo se desprende uma vis\u00e3o paradoxal e desencantada, expressa numa linguagem econ\u00f4mica, severa, recobrindo o pessimismo melanc\u00f3lico do entrecho. Buzzati, que noutros escritos manipula o humor com tanto engenho, n\u00e3o teve medo de assumir aqui o modo s\u00e9rio em estado de pureza, para revestir com ele a austeridade heroica do protagonista, destinado a s\u00f3 ganhar a vida, na hora da morte, depois de gast\u00e1-la no limiar fant\u00e1stico do Deserto dos Tartaros. L\u00e1, o tempo se esvaiu para ele na Fortaleza enorme, estirada de escarpa a escarpa, fechando o mundo numa paragem de pedra antecedida por montanhas e desfiladeiros, cercada de penhascos, sucedida pela estepe. Tudo vazio, tudo segregado, como palco solit\u00e1rio onde se agitam homens possu\u00eddos por um imposs\u00edvel sonho de gl\u00f3ria. <\/span><\/p>\n<ol>\n<li>\n<h4><i><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Incorpora\u00e7\u00e3o \u00e0 Fortaleza<\/strong> <\/span><\/i><\/h4>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Logo no come\u00e7o do livro, chama aten\u00e7\u00e3o a maneira pela qual a Fortaleza \u00e9 por assim dizer desligada do mundo. Drogo \u201cn\u00e3o sabia sequer onde ficava exatamente. Um dia a cavalo, segundo uns, menos, segundo outros, mas na verdade ningu\u00e9m tinha estado l\u00e1\u201d. O amigo que o acompanha por alguns quil\u00f4metros, Francesco Vescovi, mostra-lhe o topo de um morro distante, que conhecia por ter ca\u00e7ado naquelas bandas, dizendo que \u00e9 onde ela fica. Portanto, a cavalgada n\u00e3o seria longa. Mas n\u00e3o apenas Drogo perde o morro de vista, como ao fim de certo tempo um carroceiro informa nunca ter ouvido falar de fortaleza por ali. Ao cair da noite chega a uma edifica\u00e7\u00e3o que lhe parece, mas n\u00e3o \u00e9, a do seu destino: era um forte abandonado, e dele se avistava no mais remoto horizonte de serras o perfil da Bastiani, \u201cquase inacess\u00edvel, separada do mundo\u201d. A seguir ela some de vista e Giovanni dorme ao relento, para s\u00f3 alcan\u00e7\u00e1-la no dia seguinte, \u00a0depois de muitas horas, na companhia do capit\u00e3o Ortiz, que encontrara no caminho e informa ser aquele imposto secund\u00e1rio em setor perdido da fronteira; nunca participou de guerras e parece n\u00e3o servir para nada. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O primeiro segmento dominado pela entrada e perman\u00eancia do tenente Giovanni Drogo na Fortaleza Bastiani, come\u00e7a por essa jornada estranha \u00e0 busca de um local fugidio e \u00e9 regido por ambiguidades, a primeira das quais \u00e9 que, chegando l\u00e1, fica sabendo que foi <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">mandado<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> para um posto aonde se ia <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a pedido <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(o tempo de servi\u00e7o era contado em dobro). Esta circunst\u00e2ncia o contraria, ele n\u00e3o gosta do lugar e decide voltar sem demora. Mas para facilitar os tr\u00e2mites, e por causa de um atrativo inexprim\u00edvel, concorda em esperar quatro meses, durante os quais vai ficando preso pelo fasc\u00ednio que amarra oficiais e pra\u00e7as ao servi\u00e7o mon\u00f3tono do forte. Por isso, no momento de assinar o pedido de retorno decide bruscamente ficar por dois anos. A incorpora\u00e7\u00e3o vai se processando como efeito, tanto das condi\u00e7\u00f5es locais (o Forte o atrai misteriosamente), quanto de impulsos arraigados, mas ele n\u00e3o sabe ainda que est\u00e1 preso ao lugar e nunca mais poder\u00e1 desprender-se. Isso produz em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida anterior um movimento de ruptura, cujos ind\u00edcios v\u00e3o aparecendo aos poucos, como se a narrativa fosse um terreno minado por eles. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ali\u00e1s, j\u00e1 durante a caminhada que o levou pela primeira vez \u00e0 Fortaleza ele come\u00e7ara a sentir-se desligado da exist\u00eancia que tivera at\u00e9 ent\u00e3o e agora vai parecendo algo estranho. Percebe-se isto inclusive pelo desacerto simb\u00f3lico entre o passo de seu cavalo e o do amigo Francesco Vescovi. \u00c9 preciso ter em mente esse processo subterr\u00e2neo para sentir por que, no momento em que poderia voltar, antes mesmo de entrar em servi\u00e7o, ele aceita a sugest\u00e3o do m\u00e9dico para esperar quatro meses. Olhando pela janela do consult\u00f3rio um peda\u00e7o de rocha, \u00e9 tomado pelo \u201cvago sentimento que n\u00e3o conseguia decifrar e insinuava-se em sua alma; talvez algo tolo e absurdo, uma sugest\u00e3o sem nexo\u201d. Pouco a diante imagina que talvez ela viesse de dentro dele pr\u00f3prio, como \u201cfor\u00e7a desconhecida\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vemos ent\u00e3o que o Forte (que pode ser alegoria da vida) \u00e9 um modo de ser e de viver, que prende os que t\u00eam a natureza idealista e ansiosa de Drogo; os que traduzem a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o como longa espera do momento glorioso e \u00fanico onde tudo se justifica e o tempo \u00e9 redimido. Desde o coronel comandante, chamado Filimore, at\u00e9 o alfaiate-chefe, sargento Prosdoscimo, todos manifestam uma ambiguidade que os leva a afirmar que querem ir embora, e ao mesmo tempo desejam ficar para estarem a postos quando vier a hora esperada. Os anos passam, talvez os s\u00e9culos, e nada acontece, sendo at\u00e9 poss\u00edvel que nunca tenham existidos os t\u00e1rtaros ao norte. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Coisas como estas v\u00e3o configurando a mencionada ruptura com o mundo anterior. Ela \u00e9 refor\u00e7ada por meio da lei suprema da Fortaleza, a rotina de servi\u00e7o tra\u00e7ada pelo regulamento, que funciona como sugest\u00e3o de vida, isto \u00e9, modelo proposto como norma de comportamento. A rotina organiza o tempo de cada um e de todos de modo uniforme, padronizando n\u00e3o apenas os atos, mas os sentimentos, aos quais parece querer substituir-se. Ela \u00e9 a \u201cobra-prima insana\u201d criada pelo \u201cformalismo militar\u201d, gerando uma atitude coletiva que parece condicionada pela guerra iminente. Mas como esta nunca vem, ela gira em falso no v\u00e1cuo an\u00f3dino que tem sido por s\u00e9culos a vida na Fortaleza, onde o rigor das sentinelas, dos turnos de guarda, das senhas e contra-senhas se organiza em rela\u00e7\u00e3o a nada. A rotina de servi\u00e7o equivale a uma paraliza\u00e7\u00e3o do ser e a um congelamento da conduta, contrastando com o ideal de todos, que \u00e9 o movimento, a variedade, a surpresa da guerra = aventura. Aparecendo como condi\u00e7\u00e3o desta, a rotina forma com ela um par contradit\u00f3rio e amb\u00edguo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao organizar o tempo a rotina o reduz a um eterno presente, sempre igual, enquanto a aventura \u00e9 um modo de abri-lo para o futuro desejado. Por isso a vida na Fortaleza \u00e9 em parte um drama do tempo, que nela parece <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">vazar, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">no sentido em que a \u00e1gua vaza de um cano, perdendo-se inutilmente. Drogo sente a sua \u201cfuga irrepar\u00e1vel\u201d, pois de fato na Fortaleza o presente \u00e9 uma esp\u00e9cie de prolongamento do passado, j\u00e1 que ambos s\u00e3o igualados pela rotina que petrifica. Da\u00ed a \u00e2nsia de futuro (que tornaria poss\u00edvel movimento e transforma\u00e7\u00e3o), atrav\u00e9s da aventura da guerra, que no entanto nunca vem. Individualmente o problema de Drogo pode ser definido como substitui\u00e7\u00e3o de passados. Ele n\u00e3o pode voltar ao seu pr\u00f3prio, isto \u00e9, n\u00e3o pode continuar o tipo de vida que levava na cidade e agora ficou para tr\u00e1s de uma vez. Por isso sente desde o come\u00e7o da vida de guarni\u00e7\u00e3o que lhe fecharam nas costas um \u201cport\u00e3o pesado\u201d. S\u00f3 lhe resta, pois, assumir o passado do Forte, renunciando ao seu e esperando pelo futuro, que por sua vez \u00e9 devorado pela rotina do servi\u00e7o sempre igual, como se o tempo n\u00e3o existisse. Um dos n\u00facleos do livro se define no cap\u00edtulo VI, que de certo modo prefigura o destino de Drogo: inconsci\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao presente, que o empurra para o passado da Fortaleza (a fim de que o presente seja igual ao que foi o passado desta); e ilus\u00e3o em face do futuro. Como a \u00fanica realidade acaba sendo reduzir tudo a passado, pois o futuro nunca se configura, surge o desencanto. A Fortaleza \u00e9 o port\u00e3o fechado atr\u00e1s de cada um, que mata o presente ao reduzi-lo a um passado que n\u00e3o \u00e9 o individual, mas o que foi imposto, e ao propor como sa\u00edda um falso futuro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os oficiais se apegam ent\u00e3o a esta sa\u00edda \u00fanica e duvidosa, sob o acicate da esperan\u00e7a, que se torna uma esp\u00e9cie de doen\u00e7a. Todos esperam o grande acontecimento, v\u00edtimas de uma ilus\u00e3o comum alimentada pela perspectiva da vinda dos t\u00e1rtaros imponder\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Drogo percebe isso tudo e pensa aliviado que tais ilus\u00f5es n\u00e3o tomar\u00e3o conta dele, pois a sua estadia ser\u00e1 de quatro meses. O que n\u00e3o sabe \u00e9 que tamb\u00e9m ele j\u00e1 est\u00e1 contaminado, preso misteriosamente na teia. O velho ajudante do alfaiate l\u00ea isso nos seus olhos e o aconselha a ir embora o quanto antes. Mas ele \u00e9 um terreno minado, embora se sinta ingenuamente livre da ilus\u00e3o comum, que domina a Fortaleza e se exprime entre outros num trecho do cap\u00edtulo VII:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Do deserto setentrional devia chegar a sua sorte, a aventura, a hora milagrosa que toca pelo menos uma vez a cada um. Por causa dessa vaga eventualidade, que parecia ficar cada vez mais incerta com o passar do tempo, os homens feitos consumiam naquela altura a melhor parte da vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o se haviam adaptado \u00e0 exist\u00eancia comum, \u00e0s alegrias da gente banal, ao destino mediano; lado a lado, viviam na esperan\u00e7a de todos sem nunca aludirem a ela, porque n\u00e3o se davam conta ou simplesmente porque eram soldados, com o cioso pudor da pr\u00f3pria alma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dessa combina\u00e7\u00e3o de aventura e rotina, conformismo e aspira\u00e7\u00e3o, imobilidade e movimento, vai nascendo em Drogo o novo ser. Quando acabam os quatro meses e o m\u00e9dico est\u00e1 preparando o atestado que o desligar\u00e1, ele se sente preso ao Forte, cuja beleza lhe aparece de repente em contraste com o cinza da cidade. Ent\u00e3o decide ficar. T\u00e3o poderoso quanto o apelo da aventura poss\u00edvel, agiu nele o visgo quotidiano da rotina, agiram os h\u00e1bitos adquiridos. Aventura e rotina se confundem no ritmo pr\u00f3prio da vida militar, formando para Drogo uma segunda natureza, de acordo com a qual a Fortaleza \u00e9 menos um lugar de o que um estado de esp\u00edrito.<\/span><\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>\n<h4><strong><i>O primeiro jogo da esperan\u00e7a e da morte<\/i><\/strong><\/h4>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No primeiro segmento do romance a a\u00e7\u00e3o dura quatro meses. No segundo ela come\u00e7a dois anos depois e dura dois anos mais. Drogo est\u00e1 realmente incorporado \u00e0 Fortaleza, n\u00e3o apenas no sentido militar, mas no sentido de haver interiorizado tudo o que caracteriza a vida nela: rotina, lazer, a redefini\u00e7\u00e3o do tempo \u2013, voltados para a esperan\u00e7a, a expectativa do grande momento. A partir de agora vai entrar em contacto com a outra realidade que complementa a primeira, mas permanecia oculta: a morte. O segundo movimento do livro \u00e9 o jogo da esperan\u00e7a e da morte, que v\u00e3o assumir realidade concreta. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Certa noite em que est\u00e1 no comando do Reduto Novo, posto avan\u00e7ado que descortina o deserto, surge deste um cavalo perdido. Uma das sentinelas, o soldado Lazzari acha que \u00e9 o seu, escapado n\u00e3o se sabe como, e consegue burlar a vigil\u00e2ncia no momento de rendi\u00e7\u00e3o da guarda para ir captur\u00e1-lo. O resultado \u00e9 que ao voltar, tendo mudado a senha, n\u00e3o sabe dar a resposta adequada e, apesar de reconhecido por todos, apesar de seus apelos angustiados, \u00e9 morto por um amigo de sentinela, em obedi\u00eancia \u00e0 norma inflex\u00edvel do regulamento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, o cavalo devia ter fugido de uma tropa do pa\u00eds vizinho, porque dias depois contingentes e min\u00fasculos come\u00e7am a marchar no rumo da Fortaleza. Isto cria uma excita\u00e7\u00e3o belicosa, todos se preparam para a guerra afinal poss\u00edvel, o comandante est\u00e1 a ponto de falar sobre ela \u00e0 oficialidade reunida em alta tens\u00e3o emocional, quando chega um mensageiro do Estado Maior, anunciando que \u00e9 s\u00f3 uma tropa encarregada de terminar o trabalho havia muito abandonado de demarca\u00e7\u00e3o da fronteira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Deste modo o sonho se desfaz, restando apenas a tentativa de ser mais r\u00e1pido e eficiente na coloca\u00e7\u00e3o dos marcos divis\u00f3rios. Para isso \u00e9 mandado \u00e0 crista dos morros um destacamento comandado pelo capit\u00e3o Monti, homem enorme e vulgar, tendo como imediato o aristocr\u00e1tico e um pouco remoto tenente. Angustina, que al\u00e9m de fr\u00e1gil e adoentado vai com botas normais de montaria, em vez de botinas ferradas que os outros cal\u00e7am, pr\u00f3prias para escalar. Por isso, a ascens\u00e3o \u00e9 para ele um sacrif\u00edcio incr\u00edvel, agravado pela crueldade do capit\u00e3o, que for\u00e7a a marcha e procura veredas dif\u00edceis a fim de aumentar o seu tormento. Mas Angustina resiste e n\u00e3o fica atr\u00e1s, mantendo o ritmo e a efic\u00e1cia com incr\u00edvel for\u00e7a de vontade. Chegando quase ao alto, o destacamento verifica que foi antecipado pelos estrangeiros e que estes plantaram os marcos com vantagem para o seu pa\u00eds. A escurid\u00e3o baixa, a neve cai, faz um frio dos diabos e os do Forte, abrigados numa reentr\u00e2ncia da rocha, se disp\u00f5em a passar mal a noite, ainda mais sob a ca\u00e7oada dos estrangeiros, instalados pouco acima, na crista do morro, de onde oferecem ajuda com sarcasmo jovial. Expostos ao tempo, os dois oficiais jogam baralho para dar impress\u00e3o de moral alta; mas o capit\u00e3o Monti acaba por desistir e se abrigar com os soldados, enquanto Angustina, ao relento, debaixo da nevada, continua sozinho a manejar as cartas e anunciar os pontos, para dar aos de cima um espet\u00e1culo de desafogo e firmeza. Assim faz at\u00e9 morrer enregelado, sob as vistas at\u00f4nitas de Monti, que compreende afinal a grandeza est\u00f3ica do seu sacrif\u00edcio. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os casos do soldado Lazzari e do tenente Angustina mostram o contraste entre a morte sonhada e a morte real. No sonho, sobretudo no devaneio, os oficiais imaginam (como Drogo) o fragor da batalha, a situa\u00e7\u00e3o desesperada resolvida pelo hero\u00edsmo, as feridas gloriosas. Quando anunciam, por exemplo, que o contingente estrangeiro se aproxima atrav\u00e9s do deserto, o coronel comandante, lutando embora contra a lembran\u00e7a das frustra\u00e7\u00f5es passadas, acaba acreditando na guerra iminente e v\u00ea \u201cchegar a sorte com a armadura de prata e a espata tinta de sangue\u201d. Numa sala do Forte h\u00e1 um quadro antigo representando o fim heroico do pr\u00edncipe Sebasti\u00e3o encostado numa \u00e1rvore com a brilhante armadura e ao lado a espada rota. Esta \u00e9 a morte ideal, que justifica a esperan\u00e7a. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As mortes reais s\u00e3o diferentes. Acidentais, obscuras, elas contrastam com o fulgor dos sonhos, mas t\u00eam papel importante na economia do livro. A de Lazzari, porque encarna o limite de trag\u00e9dia a que podia chegar a rotina, isto \u00e9, a lei da Fortaleza. A de Angustina (que nos interessa mais), porque ter\u00e1 fun\u00e7\u00e3o decisiva na forma\u00e7\u00e3o do significado final. Por isso ela \u00e9 cuidadosamente preparada, sendo precedida por um sonho premonit\u00f3rio, onde Giovanni Drogo v\u00ea o colega, ainda menino, arrebatado por um cortejo de duendes e fadas, pequeno morto flutuando no espa\u00e7o. A import\u00e2ncia da morte de Angustina est\u00e1 no contraste que forma com o devaneio da morte espetacular, pois mostra que pode haver grandeza num fim igual ao dele, durante uma mesquinha expedi\u00e7\u00e3o pac\u00edfica, sem moldura heroica nem situa\u00e7\u00e3o excepcional. Portanto (verifica\u00e7\u00e3o decisiva para compreender o livro), o hero\u00edsmo depende da pessoa, n\u00e3o da circunst\u00e2ncia, e os grandes feitos podem ocorrer sem as marcas convencionais de identifica\u00e7\u00e3o. Como diz o major Ortiz, comentando o fim de Angustina: \u201cAfinal de contas, o que nos cabe \u00e9 o que merecemos\u201d. Em consequ\u00eancia, por que esperar a hora que n\u00e3o chega? Ortiz aconselha Drogo a deixar a Fortaleza antes que fosse tarde, como j\u00e1 era para ele que n\u00e3o tencionava mais ir embora antes de reformado. Drogo decide ent\u00e3o descer \u00e0 cidade para solicitar transfer\u00eancia. <\/span><\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li>\n<h4><strong><i>Tentativa de desincorpora\u00e7\u00e3o<\/i><\/strong><\/h4>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"> O terceiro segmento narrativo \u00e9 ocupado pela tentativa de desincorpora\u00e7\u00e3o. O segmento anterior descrevera fracassos que atingiram toda a guarni\u00e7\u00e3o, frustrada na sua esperan\u00e7a de guerra e ferida na sua integridade pela morte de dois membros, o oficial e o soldado. Este segmento descrever\u00e1 diretamente os fracassos individuais de Drogo, que, munido de uma recomenda\u00e7\u00e3o obtida pela m\u00e3e, tenta transferir-se. Assim como o segundo segmento tinha duas sequencias centrais \u2013, a morte de Lazzari e a de Angustina \u2013, este tem igualmente duas sequ\u00eancias b\u00e1sicas: a entrevista com a antiga namorada, Maria Vescovi, e a entrevista com o general. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O encontro com Maria \u00e9 um jogo de hesita\u00e7\u00f5es, impulsos reprimidos, inten\u00e7\u00f5es abafadas, tudo numa esp\u00e9cie de ambiguidade sem sa\u00edda. No ambiente composto da sala de visitas, numa conversa regida pela etiqueta, os dois jovens gostariam no fundo de declarar o seu afeto, mas n\u00e3o declaram. Cada um quereria fazer sentir ao outro que est\u00e1 na depend\u00eancia de uma decis\u00e3o sua, mas ambos se cont\u00eam. Parecem o tempo todo, enquanto a tarde escoa, esperar do parceiro algum movimento que n\u00e3o vem. Assim, a oportunidade se desfaz por culpa de ambos, sem que nenhum queira isso e sem que tamb\u00e9m queira outra coisa. Drogo parece atacado por um jogo imposs\u00edvel de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">diz-e-n\u00e3o-diz<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">quer-e-n\u00e3o-quer<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. No fim se despedem com uma \u201ccordialidade exagerada\u201d e ele vai embora \u201ccom os passos marciais rumo ao port\u00e3o de entrada, fazendo ranger no sil\u00eancio o saibro da alameda\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A entrevista com o comandante da divis\u00e3o \u00e9 uma com\u00e9dia de equ\u00edvocos, marcada pelo esfriamento progressivo da cordialidade posti\u00e7a que o general assumira no in\u00edcio, empertigado atr\u00e1s do seu mon\u00f3culo meio insolente. Drogo passara quatro anos no Forte e isto lhe dava um direito t\u00e1cito \u00e0 remo\u00e7\u00e3o. Mas acontece que tinha havido no regulamento certa mudan\u00e7a de que n\u00e3o soubera e segundo a qual deveria ter feito requerimento pr\u00e9vio, fato que os colegas interessados na pr\u00f3pria remo\u00e7\u00e3o lhe haviam ocultado. Al\u00e9m do mais, a sua folha trazia uma \u201cadvert\u00eancia\u201d por causa da morte acidental do soldado Lazzari sob o seu comando. Embora estivesse prevista uma redu\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel do contingente, o seu pedido n\u00e3o \u00e9 satisfeito. Sentindo-se enganado pelos colegas, injusti\u00e7ado pelo comando, Drogo mergulha na decep\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, a leitura atenta mostra que n\u00e3o \u00e9 apenas esta a causa de sua volta ao Forte. Logo que chegou \u00e0 cidade, sentiu que n\u00e3o pertencia mais \u00e0quele mundo da casa, da fam\u00edlia, dos amigos, onde sua pr\u00f3pria m\u00e3e tinha agora outros interesses. Mas se tudo lhe pareceu estranho, foi porque j\u00e1 estava preso ao Forte e manipulava inconscientemente o destino para ficar nele, sob a a\u00e7\u00e3o convergente de uma for\u00e7a externa, que o mandava de volta, e outra interna: o sentimento de desincorpora\u00e7\u00e3o acaba portanto confirmando o seu v\u00ednculo irremedi\u00e1vel com a Fortaleza. Ele sobe de novo a serra com melancolia e se recolhe \u00e0 espera in\u00fatil. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">At\u00e9 aqui passaram quatro anos da vida de Drogo e cerca de dois ter\u00e7os do livro; daqui at\u00e9 o fim, isto \u00e9, em pouco menos de um ter\u00e7o do n\u00famero de p\u00e1ginas, transcorrer\u00e1 o tempo de uma gera\u00e7\u00e3o. \u00c9 que os dados essenciais est\u00e3o lan\u00e7ados e s\u00f3 falta mostrar as suas combina\u00e7\u00f5es finais. <\/span><\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li>\n<h4><strong><i> O segundo jogo da esperan\u00e7a e da morte<\/i><\/strong><\/h4>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os epis\u00f3dios do terceiro segmento duraram o curto lapso de uma licen\u00e7a. No quarto segmento a vida de Drogo vai sendo narrada em sequ\u00eancias separadas por largos intervalos, num total de quase trinta anos, durante os quais a esperan\u00e7a e a morte se entrela\u00e7am mais do que nunca ao ritmo do tempo, que corre ora r\u00e1pido, ora lento, e afinal para de uma vez. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O relato come\u00e7a com a partida de metade da guarni\u00e7\u00e3o deixando semideserta a Fortaleza onde parecem ter ficado os esquecidos. Mas eis que uma noite o tenente Simeoni, dono de poderoso \u00f3culo de alcance, chama Drogo para mostrar vagos pontos luminosos movimentando-se no limite mais remoto do deserto, onde a vista se perde numa barreira de n\u00e9voa constante. E a\u00ed come\u00e7a para ambos uma fase de expectativa acesa, pois Simeoni percebe tratar-se da constru\u00e7\u00e3o de uma estrada. A ansiedade dos dois rapazes, debru\u00e7ados sempre que podem no parapeito para sondar a imensid\u00e3o, d\u00e1 ao ritmo narrativo uma lentid\u00e3o que corresponde \u00e0 impaci\u00eancia s\u00f4frega. Mas o comando, escaldado com o falso alarme de dois anos antes, pro\u00edbe o uso de tais lunetas e Simeoni se retrai, ficando apenas Drogo como uma esp\u00e9cie de deposit\u00e1rio isolado da velha esperan\u00e7a secular, que virou um estado forte de sua alma. Entrementes, a atividade dos estrangeiros fica vis\u00edvel a olho nu, mostrando que \u00e9 de fato a constru\u00e7\u00e3o de uma estrada. Mas os trabalhos demoram muito, a expectativa \u00e9 sempre a mesma e Drogo sente que agora o tempo \u00e9 corrosivo, arruinando o Forte, envelhecendo os homens, arrastando tudo numa esp\u00e9cie de fuga inexor\u00e1vel. Sacudido entre um ritmo de progresso (a dura\u00e7\u00e3o dos trabalhos em andamento) e um ritmo de regresso (a ru\u00edna incessante do lugar e dos homens), ele continua esperando o grande momento. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim passam quinze anos, registrados nalgumas linhas, antes de acabar a constru\u00e7\u00e3o da via pavimentada. Os morros e os campos s\u00e3o os mesmos, mas o Forte est\u00e1 deca\u00eddo e os homens, mudados. Drogo foi promovido a capit\u00e3o e a fase final come\u00e7a por uma r\u00e9plica do come\u00e7o: n\u00f3s o vemos subir a serra depois de uma licen\u00e7a, quarent\u00e3o, definitivamente estranho na sua cidade, onde a m\u00e3e j\u00e1 morreu e os irm\u00e3os n\u00e3o moram mais. No come\u00e7o do livro o jovem tenente Drogo, subindo a montanha misteriosa, vira o capit\u00e3o Ortiz do outro lado do precip\u00edcio e o chamara com ansiedade juvenil. Agora, o capit\u00e3o Drogo sobre cansado e do outro lado chama-o do mesmo modo o jovem tenente Moro. A recorr\u00eancia do tempo \u00e9 marcada pela igualdade das situa\u00e7\u00f5es, expressa na rima toante dos sobrenomes que parecem igualar-se: Drogo-Moro. As gera\u00e7\u00f5es se substituem, o tempo corre, a Fortaleza continua \u00e0 espera do seu destino. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No cap\u00edtulo seguinte passaram mais dez anos, Drogo \u00e9 major subcomandante, est\u00e1 com 54 anos, doente, acabado, sem for\u00e7as para levantar da cama. E ent\u00e3o acontece o inveross\u00edmil, que era todavia o esperado: do deserto v\u00eam vindo fortes batalh\u00f5es inimigos, com artilharia e tudo, em marcha de guerra. Finalmente, depois de s\u00e9culos, parece chegar o grande momento. O Estado-Maior manda refor\u00e7os, come\u00e7a uma exaltante movimenta\u00e7\u00e3o belicosa de v\u00e9spera de combate, Drogo, quase inv\u00e1lido, se alvoro\u00e7a com a perspectiva do ideal realizado, mas o comandante, tenente-coronel Simeoni, for\u00e7a-o a partir, porque precisa do seu velho quarto espa\u00e7oso para alojar os oficiais da tropa de refor\u00e7o que est\u00e1 chegando. Desesperado, tr\u00f4pego, com o corpo sobrando dentro do uniforme, ele faz de volta a estrada do vale, descendo-a numa carruagem enquanto as tropas sobem para o combate. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No caminho resolve dormir numa hospedaria, amargurado pela ironia incr\u00edvel da sorte, que o fez perder a vida inteira na Fortaleza e ser posto fora dela quando chegou a hora esperada. Este final de livro \u00e9 escrito com firmeza leve, cheia de precis\u00e3o e mist\u00e9rio, manifestando a converg\u00eancia dos grandes temas do romance: a Esperan\u00e7a, a Morte, o Tempo que as modula e combina. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 uma tarde encantadora de primavera, com perfume de flores, c\u00e9u macio e os morros cor de violeta perdendo-se na altura. Sentado no quarto pobre, Drogo est\u00e1 a ponto de romper no pranto por causa de sua vida nula, coroada por essa deser\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, quando percebe que vai morrer. Ent\u00e3o, compreende que a Morte era a grande aventura esperada, n\u00e3o havendo por que lamentar que tenha vindo assim, obscura, solit\u00e1ria, aparentemente a mais insignificante e frustradora. O Tempo parece estacar, como se a fuga para a decep\u00e7\u00e3o constante tivesse esbarrado afinal numa plenitude \u2013, que \u00e9 a consci\u00eancia de enfrentar com firmeza e tranquilidade o momento supremo da vida de todo homem. A batalha de agora lhe parece ent\u00e3o mais dura do que as outras com que sonhava, e mais nobre do que a travada por Angustina sob as vistas do capit\u00e3o Monti e dos soldados. Ele n\u00e3o tem testemunhas, est\u00e1 absolutamente s\u00f3, n\u00e3o pode mostrar a ningu\u00e9m a fibra do seu car\u00e1ter e a disposi\u00e7\u00e3o com que morre. Por isso mesmo esta morte se revela mais nobre que as das batalhas. E o Tempo, que pareceu perdido durante a vida, surge ao cabo como ganho completo. O Tempo \u00e9 redimido e a Morte encerra o seu longo jogo com a Esperan\u00e7a. Eis as linhas finais: <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O quarto est\u00e1 cheio de escurid\u00e3o, s\u00f3 com muito esfor\u00e7o \u00e9 poss\u00edvel distinguir a brancura da cama e o resto \u00e9 inteiramente preto. Dali a pouco a lua devia aparecer. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ser\u00e1 que Drogo vai ter tempo de v\u00ea-la, ou precisar\u00e1 ir embora antes? A porta do quadro freme com um rangido t\u00eanue. Talvez seja um sopro de vento, um simples remoinho de ar dessas noites de primavera. Talvez seja ela que entrou com andar silencioso, aproximando-se agora da poltrona de Drogo. Fazendo esfor\u00e7o, Giovanni endireita um pouco o busto, ajeita com uma das m\u00e3os a gola do uniforme, d\u00e1 uma olhada fora da janela, uma olhada muito breve, para o seu quinh\u00e3o de estrelas. Depois, embora ningu\u00e9m possa v\u00ea-lo no escuro, sorri. <\/span><\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li>\n<h4><strong><i>Defini\u00e7\u00f5es<\/i><\/strong><\/h4>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O deserto dos t\u00e1rtaros<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> pertence \u00e0 lista dos romances do desencanto, que contam como a vida s\u00f3 traz coisas frustradoras e acaba no bala\u00e7o negativo dos grandes d\u00e9ficits. No entanto (ao contr\u00e1rio de certos finais, terr\u00edveis, como o das <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Mem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">), seu desfecho \u00e9 um caso paradoxal de triunfo na derrota, de plenitude extra\u00edda da priva\u00e7\u00e3o. Isto confirma que \u00e9 um livro de ambiguidades em v\u00e1rios planos, a come\u00e7ar pelo car\u00e1ter indefin\u00edvel do espa\u00e7o e da \u00e9poca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Onde decorre a a\u00e7\u00e3o? Num pa\u00eds sem nome, imposs\u00edvel de localizar, como nos contos populares, a despeito do corte europeu dos usos e costumes, assim como do substrato italiano \u2013 sendo que a \u00fanica refer\u00eancia geogr\u00e1fica precisa \u00e9, ocasionalmente, \u00e0 Holanda (e suas tulipas), aonde a namorada de Drogo anuncia que vai passear. Ali\u00e1s, de certo modo nem h\u00e1 lugar propriamente dito, mas apenas uma vaga cidade sem corpo e o s\u00edtio fantasmal da Fortaleza Bastiani, que fica a uma dist\u00e2ncia el\u00e1stica, ningu\u00e9m sabe direito onde.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O nome dela \u00e9 italiano, e quanto ao sobrenome das pessoas, alguns poucos s\u00e3o usuais nesta l\u00edngua, como Martini, Pietri, Lazzari, Santi, Moro. Mas h\u00e1 prefer\u00eancia pelos menos frequentes, como Lag\u00f2rio, Andronico, Consalvi; ou raros, como Batta, Prosdoscimo, Stizione, e pelos que parecem inventados a partir de outros, como Drogo, de Drago; Fonzaso, de Fonso ou Fonsato; Angustina, de Agostino; Stazzi, de Stasi. Significativo \u00e9 o caso da deriva\u00e7\u00e3o que leva o nome para outras l\u00ednguas, como Morei (franc\u00eas), que pode ter Morelli como ponto de partida; ou Espina (espanhol), parecido com Spina; ou Magnus (forma latina ao gosto da onom\u00e1stica alem\u00e3), com Magni ou Magno. No limite, os puramente estrangeiros: Fernandez, Ortiz, Zimmermann, Tronk, enquanto o do comandante, Filimore, parece n\u00e3o pertencer a l\u00edngua nenhuma. Esse jogo antropon\u00edmico contribui para dissolver a identidade poss\u00edvel do vago universo onde se situa a Fortaleza.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mais ainda para al\u00e9m dela h\u00e1 um deserto onde andam n\u00f4mades, o que poderia sugerir a \u00c1frica ou a \u00c1sia. Os supostos t\u00e1rtaros, que talvez nunca tenham existido, estariam ao Norte, mas as tropas que v\u00eam de l\u00e1 para colocar os marcos divis\u00f3rios parecem da mesma natureza e grau e civiliza\u00e7\u00e3o que as da Fortaleza. Quem s\u00e3o na verdade os inimigos esperados? T\u00e1rtaros, s\u00f3 a R\u00fassia os teve como vizinhas na Europa. Note-se a prop\u00f3sito que o m\u00e9dico militar usa gorro de pele, \u00e0 maneira russa, e os reis do pa\u00eds se chamam Pedro, como (exclu\u00eddo o caso de um da S\u00e9rvia no come\u00e7o deste s\u00e9culo) s\u00f3 os houve na R\u00fassia e em Portugal. O nome do pr\u00edncipe heroico representado moribundo num quadro \u00e9 Sebasti\u00e3o, igual ao do rei portugu\u00eas morto heroicamente em Alcacer-Quebir<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E a \u00e9poca? As pessoas andam a cavalo e de carro, havendo mais para o fim refer\u00eancia a estrada de ferro. No entanto, ainda existem carruagens douradas, o que puxa para o s\u00e9culo XVIII. O \u00f3culo de alcance \u00e9 a luneta de um s\u00f3 canh\u00e3o, indicando que ainda n\u00e3o havia bin\u00f3culos. Os fuzis n\u00e3o t\u00eam repeti\u00e7\u00e3o e s\u00e3o carregados de modo arcaico, puxando pelo menos para o meado do s\u00e9culo XIX. Quer dizer que s\u00e3o tomadas cautelas para desmanchar tamb\u00e9m a cronologia, inclusive porque n\u00e3o \u00a0h\u00e1 sinal de mudan\u00e7a nas armas, uniformes, objetos ao longo de uma a\u00e7\u00e3o que dura mais de trinta anos. E h\u00e1 outros ind\u00edcios de baralhamento, como o fato de a guarni\u00e7\u00e3o do forte ser (\u00e9 o que se infere) de infantaria, em que, segundo a norma, s\u00f3 os oficiais tinham cavalos; no entanto, um epis\u00f3dio importante \u00e9 regido pelo fato de o soldado Lazzari reconhecer o dele, como se se tratasse de cavalaria. Estamos num mundo sem materialidade nem data.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quanto \u00e0 composi\u00e7\u00e3o, vimos que a narrativa parece ordenar-se em quatro segmentos [incorpora\u00e7\u00e3o \u00e0 Fortaleza, primeiro jogo da esperan\u00e7a e da morte, tentativa de desincorpora\u00e7\u00e3o e segundo jogo da esperan\u00e7a e da morte], que se op\u00f5em entre si, opondo-se tamb\u00e9m internamente: incorpora\u00e7\u00e3o e desincorpora\u00e7\u00e3o, ilus\u00e3o e desilus\u00e3o, esperan\u00e7a e frustra\u00e7\u00e3o, vida e morte, tempo r\u00e1pido e tempo vagaroso. Ao logo deles v\u00e3o brotando os significados parciais, alguns dos quais j\u00e1 vimos, que nos conduzem aos significados gerais. Para capt\u00e1-los, \u00e9 preciso comparar as primeiras p\u00e1ginas com as \u00faltimas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O come\u00e7o diz abertamente que Giovanni Drogo n\u00e3o tinha estima por si mesmo. Ora, o fim consiste na aquisi\u00e7\u00e3o dessa autoestima que lhe faltava. Durante a vida inteira ele esperou o momento que permitiria uma esp\u00e9cie de revela\u00e7\u00e3o do seu ser, de maneira que os outros pudessem reconhecer o seu valor, o que o levaria reconhec\u00ea-lo ele pr\u00f3prio. Mas aqui surge a contradi\u00e7\u00e3o suprema, pois esse momento acaba sendo o da morte. Portanto, \u00e9 ela que define o seu ser e lhe d\u00e1 a oportunidade de encontrar justificativa para a pr\u00f3pria vida. De algum modo, uma afirma\u00e7\u00e3o por meio da suprema nega\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim, o romance do desencanto des\u00e1gua na morte, que aparece como sentido real da vida e alegoria da exist\u00eancia poss\u00edvel de cada um. Como na de todos n\u00f3s, ela esteve sempre na filigrana da narrativa. Primeiro, sob a forma de alvo ideal, sonhada na escala grandiosa. Depois, como realidade banal, nos casos de Lazzari e Angustina. Quando o tempo para, ela surge e o redime, justificando Drogo, que adquire ent\u00e3o a ci\u00eancia que n\u00e3o aprendera nos longos anos de esperan\u00e7a frustrada e que, se n\u00e3o tivermos medo do tom sentencioso, poderia ser formulada assim: o sentido da vida de cada um est\u00e1 na capacidade de resistir, de enfrentar o destino sem pensar no testemunho dos outros nem no cen\u00e1rio dos atos, mas no modo de ser; a morte desvenda a natureza do ser e justifica a vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por isso <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O deserto dos t\u00e1rtaros<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 um romance desligado da hist\u00f3ria e da sociedade, sem lugar definido nem \u00e9poca certa. Nele n\u00e3o h\u00e1 dimens\u00e3o pol\u00edtica, n\u00e3o h\u00e1 organiza\u00e7\u00e3o social ou cr\u00f4nica de fatos. \u00c9 um romance do ser fora do tempo e do espa\u00e7o, sem qualquer intuito realista. Do ponto de vista \u00e9tico \u00e9 um livro aristocr\u00e1tico, onde a medida das coisas e o crit\u00e9rio de valor \u00e9 o indiv\u00edduo, capaz de se destacar como ente isolado, tirando o significado sobretudo de si mesmo, e por isso podendo realizar na solid\u00e3o a sua mensagem mais alta. A morte coletiva e teatral dos sonhos militares, desejada como coroamento da vida, cede lugar \u00e0 gl\u00f3ria intransfer\u00edvel da morte solit\u00e1ria, sem testemunhas e sem a\u00e7\u00e3o em torno, significando apenas pela sua pr\u00f3pria for\u00e7a. E n\u00f3s lembramos Montaigne, quando diz que \u201ca firmeza na morte \u00e9 sem d\u00favida a a\u00e7\u00e3o mais not\u00e1vel da vida.\u201d<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto retirado de O discurso e a cidade,\u00a0de Antonio Candido, publicado\u00a0pela primeira vez em 1993 pela editora\u00a0Duas Cidades. 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