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Ainda e para sempre

Eunice e Rubens Paiva ainda-estou-aqui-coluna-carol-bensimon Share this post

É sobre seu pai, Rubens Beyrodt Paiva, torturado e morto pela ditadura. É sobre sua mãe, Eunice Paiva, mulher extraordinária cuja memória vai se desintegrando devido ao Alzheimer. É, de certa forma, um relato sobre lembranças de um lado e esquecimentos de outro; enquanto, mais de quarenta anos depois, os detalhes sobre o assassinato do deputado Rubens Paiva vem à tona através de depoimentos dados à Comissão da Verdade, o cérebro de Eunice está abarrotado de placas senis causadas pelo excesso da proteína beta-amiloide, o que no mundo externo se traduz em frases sem sentido e desorientação. Há um momento, nas primeiras páginas de Ainda estou aqui, esse relato sensível do filho Marcelo Rubens Paiva, em que Eunice parece ainda oscilar entre a lucidez e a doença; estão na 5a Vara da Família do Fórum João Mendes, em São Paulo, para interditá-la. O juiz pergunta: “a senhora sabe por que está aqui?”. “Porque sou velha e preciso que cuidem de mim”, responde. Mas não consegue, em seguida, dizer que dia é aquele. Não consegue dizer quem é o presidente do Brasil. Pouca coisa deve ser mais angustiante do que perceber-se perdendo a razão, quando ainda resta, é claro, razão o suficiente para termos consciência de nossa derrocada.

Pouca coisa pode ser mais angustiante do que ter um pai desaparecido, vítima de uma farsa política que durou tantas décadas, um pai levado de um sobrado no Leblon em um dia de sol, um pai debilitado pedindo água, torturado ao som de Jesus Cristo de Roberto Carlos e depois enterrado às escondidas no Alto da Boa Vista ou na praia do Recreio ou nas águas profundas do Atlântico. Mas a história do que aconteceu no quartel do comando da III Zona Aérea naquele janeiro de 1971 acaba como? Com o depoimento do médico do DOI CODI ([…]uma hemorragia abdominal, sendo que naquela situação parecia ter havido uma ruptura hepática)? Com as palavras aterradoras do policial militar reformado Riscala Corbage (Você pega um estudante, você bota ele com o peso dele aqui, numa barra de ferro, e deixa ele quinze minutos pendurado no pau de arara, não precisa dar choque não… […] Veja se tem alguém com alguma cicatriz… Veja se tem alguém sem pernas, sem braços. Que nada… Esses estudantes foram muito bem tratados nas minhas noites de serviço)? Com um atestado de óbito emitido somente em 1996? Com a morte do torturador? Com a punição a todos os envolvidos? Com o descobrimento do corpo?

A história, como fica evidente na derradeira página do livro, não acaba. Enquanto a vida de Eunice terá mais um ato – de certa forma previsível, uma vez que segue a lógica da progressão do Alzheimer, o chamado “Estágio IV” –, a morte do pai de Marcelo “não tem fim”. E, ainda que o título do relato se refira a uma frase repetida por Eunice em momentos de emoção extrema, como se ela tomasse momentaneamente conhecimento de sua própria existência, ele também pode se referir ao sempre presente (ou sempre ausente?) pai. Ainda não estou aqui. Nunca estarei aqui.

Em uma entrevista para O Globo na ocasião do lançamento do livro, Marcelo Rubens Paiva conta que uma de suas motivações para escrever esse relato foi o temor que lhe despertaram aqueles que pediam pela volta da ditadura: Em 2013, nas manifestações de junho, aquele movimento que começou pela redução do preço da passagem e acabou eclodindo em pedidos de volta da ditadura, comecei a ficar muito assustado. Aí senti essa necessidade de escrever um livro dizendo o que foi a ditadura. O que foi a saga de uma família que sofreu com a ditadura.

O curioso é que, ao percorrermos o relato de Marcelo Rubens Paiva, nos salta aos olhos – guardadas as proporções, é claro – a semelhança entre o período da ditadura militar e o que vivemos agora: os interesses travestidos de boas intenções de quem ocupa posições de poder, a corrupção, o conchavo, o descaso com o povo. Nesse sentido, Ainda estou aqui também pode ser lido como essa sombra anti-democrática que sempre pairou sobre o Brasil.

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