Colunistas / Letícia Wierzchowski / Livros / Quase memória, de Carlos Heitor Cony

Amanhã farei grandes coisas

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Ernesto Cony poderia ser o meu pai… Ah, não se espantem! Mas Quase memóriatem uma qualidade especial para mim. O que me liga ao escritor-narrador desta história e ao seu personagem não é genético – é mágico. Por uma destas maravilhas da vida, o personagem principal deste quase-romance é parecido demais com o meu próprio progenitor em todas as suas histórias, coragens, aventuras, ficções e encantamentos.

A primeira vez que li essa pequena joia que é Quase memória, terminei a aventura aos prantos. Agora, não foi diferente. Com os olhos magoados de beleza e o coração emocionado foi que cheguei ao final da narrativa, depois de viajar com Cony pelo incrível de um pai que era mais do que um pai, era um personagem – e dos mais lindos que se poderia inventar.

Vamos à premissa do livro: um belo dia, sem avisos, Carlos Heitor Cony recebe um embrulho de um dos porteiros do Hotel Novo Mundo, no Flamengo. Era uma tarde qualquer de um dia qualquer de trabalho, e Cony, sendo um já muito reconhecido escritor, estava acostumado a receber volumes de desconhecidos, geralmente contendo as páginas de algum original cujo autor anseia que seja lido.

Sei como é… Mas não sei como seria se, ao examinar o pacote, reconhecesse a letra do meu próprio pai morto há mais de dez anos. Pois, amigos, é isso que sucede ao Carlos Heitor. E, depois desse espantoso começo, Cony nos pega pela mão e nos leva aos primórdios da sua vida, aos seus anos de seminário, às aventuras de São João, aos natais, passeios e périplos que ele viveu ao lado do pai.

E, assim, seguimos por um mundo de maravilhamento, onde uma única pessoa, pasmem, transforma toda uma existência mundana e factual em encantamento, ficção e aventura. A narrativa de Cony, delicada e leve, vai dando menção sutil da mágica cotidiana que é viver ao lado de uma dessas pessoas: um pai como um balão de São João feito com quase trezentas folhas de papel suíço, um pai que Cony reconstrói – e colore e faz voar lindamente – com quase trezentas páginas de uma das mais belas declarações de amor que a literatura já produziu.

Ernesto Cony poderia ser meu pai, não porque eu tenha amado balões ou tenha molhado os meus pés num riozinho represado de Correas, ou porque aprecie mangas de cemitério – mas porque, como Carlos Heitor Cony, aprendi na prática que todos somos uma narrativa de nós mesmos, e que viveremos enquanto formos lembrados.

Ernesto Cony poderia ser meu pai, porque fui criada por criatura semelhante: um pai que fez da minha infância terreno fértil para os sonhos, um pai cujos truques sempre me encantaram. Um pai que está sempre por fazer grandes coisas no dia seguinte! E as faz diariamente, coisas loucas e engraçadas, viagens de ficção e de delírio – como a ida de Ernesto Cony para a Itália, a viagem que aconteceu e não aconteceu.

E talvez por isso, como Carlos Heitor, eu tenha enveredado para as histórias, para lembrar, para tentar roçar com palavras este maravilhamento que Quase memórianos traz: assim como os balões coloridos que subiam ao céu carioca nas antigas noites de junho, esse livro fica luzindo dentro de nós para sempre, nos sonhos e nas insônias desta vida.

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