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Crianças contando para mim

Capas de Paddy Clarke Ha Ha Ha Capas de Paddy Clarke Ha Ha Ha Share this post

Sento para ler Paddy Clarke Ha Ha Ha. Estou dentro de uma cena. Há um monte de gente, crianças, que nunca vi antes, que não me foram “devidamente” apresentadas. Não entendo as relações entre elas. Passa vagamente pela minha cabeça a abertura de O som e a fúria, de William Faulkner, e aquela sensação de estar pisando em falso. Eu adoro O som e a fúria. As crianças estão fazendo coisas. As coisas são banais. Em algumas páginas, entendo que preciso deixar de lado qualquer traquejo de leitor de narrativa tradicional que espera ansioso pelo “conflito de verdade” ou pela “grande virada”. Ocorre-me que, dentro dessa ampla categoria chamada romance, cabe uma infinidade de histórias, que se combinam a uma infinidade de maneiras de contar essas histórias. E não é como se a gente ficasse no escuro quanto a isso, porque cada livro é uma espécie de jogo cujas regras vão se apresentando ao longo das primeiras trinta ou quarenta páginas. Depois que entro no jogo Paddy Clarke Ha Ha Ha, parece difícil querer sair de lá.

Crianças costumam dar narradores muito carismáticos, mas eu diria que é muito mais do que isso. Quando você escolhe uma criança para contar a história, essa decisão movimenta muito mais peças do que quando você opta pelo cara-recém-abandonado-pela-esposa, a-mulher-que-faz-bolos-de-aniversário ou seja lá que adulto for. Estou falando em coisas como o manejo do tempo do romance. Em Paddy Clarke, a (des)organização do tempo está diretamente relacionada ao fato de que Paddy tem, afinal de contas, dez anos, e por isso a livre associação e a quase falta de marcas temporais (tipo “no dia seguinte” ou “depois que a obra terminou”) casa tão bem. A sensação que temos é: aham, é bem assim que funciona a cabeça de uma criança.

Se a gente olhar bem, vai perceber que os acontecimentos do livro não estão unidos por uma lógica de causa-consequência. No romanção tradicional, a gente espera um monte de coisas: que os personagens sejam apresentados devagarzinho, que tenham complexidade psicológica, que uma ação apresentada leve a outra e a mais outra e a mais outra até o grande desenlace, etc. Paddy Clarke opera em um registro muito diferente desse. Não se vê muito bem a cola entre os blocos de texto porque não há intenção de colá-los mesmo. O que Roddy Doyle constrói é um grande panorama de episódios – tocantes, engraçados – envolvendo o mesmo grupo de pessoas.

Mas como terminar de escrever um livro assim? Como dar uma conclusão “satisfatória” ao leitor? Em outras palavras, como provocar a famosa catarse?

Fiquei me perguntando isso a partir da metade do romance. Estava curiosa para saber como Doyle iria fazer para quebrar o conjunto de regras que ele mesmo tinha criado. Eu sabia que ele teria que fazer isso. Se ele mantivesse até o final a estrutura episódica – esses flashes de vida no subúrbio dublinense dos anos sessenta –, nós provavelmente iríamos chegar na última página pensando: opa, terminou? Terminou assim?

O que ele faz, na verdade, é muito engenhoso, e não à toa Paddy Clarke é considerado o melhor livro do autor. Quase sem que o leitor perceba, as cenas de discussão entre o pai e a mãe de Paddy vão se tornando mais frequentes. É como se Doyle fosse enfiando essas cenas no meio do panorama, até o momento em que finalmente percebemos que, de um jeito muito discreto, há agora uma ligação entre elas, uns pontinhos de cola visíveis. Queremos saber onde vai dar. A mesma coisa acontece na relação entre Paddy e Kevin.

Livros narrados por crianças, quando bem escritos e bem montados assim, são maravilhosos. Curiosamente, um nessa linha do qual nunca me esqueci se chama The Butcher Boy, do também irlandês Patrick McCabe (no Brasil, foi publicado como Nó na garganta). Há muitas similaridades entre os dois livros, e apenas um ano de distância entre as datas originais de publicação (1992 e 1993), o que daqui a pouco vai me fazer criar teorias malucas. Também recomendo o Extremamente alto & incrivelmente perto, do Jonathan Safran Foer. A ação do romance se desenrola dias depois do 11 de setembro. De fato, o ponto de vista infantil pode nos mostrar coisas grandiosas de uma maneira meio atravessada e totalmente encantadora, como naqueles desenhos animados em que só vemos as pernas dos adultos enquanto, ei, há todo um universo acontecendo no chão.

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