Colunistas / Carol Bensimon / Livros / TAG Curadoria

Vitória de quem?

Joseph Conrad Joseph Conrad Share this post

Encontrei um exemplar de Victory em uma pequena biblioteca da cidade de Fort Bragg, na costa norte da Califórnia. Ele tinha o cheiro dos livros policiais do meu avô. É o papel barato, acetinado, a cola da costura. A casa desmontada do meu avô. Retirei o livro – uma das bibliotecárias acha que sou da Guatamala – com o canto queimado entre as páginas 29 e 35, me perguntando se aquilo tinha sido causado pelo cigarro de um insone ou por uma desses contratempos que podem acontecer no meio do mato. Coisas pegam fogo na Califórnia.

Nessa edição de 1988, há dois prefácios escritos por Conrad, publicados nas primeiras edições do romance. Ambos expressam uma preocupação – talvez quase um constrangimento – pelo fato de o livro estar vendo a luz do dia em 1915, depois da eclosão da Primeira Guerra. Para Joseph Conrad, jogar um drama inventado no emaranhado confuso da realidade não parece fazer muito sentido. Ainda assim, ele o publica. “Se de repente a trombeta do Juízo Final soasse em um dia útil, o músico no piano continuaria com sua performance da sonata de Beethoven e o sapateiro em sua oficina manteria sua confiança imperturbável nas virtudes do couro”, escreve no prefácio. Também lhe parece curioso que a última palavra colocada no livro tenha sido propriamente o título, Vitória. A última palavra escrita nos tempos de paz.

Fico pensando no quanto parece impossível isolar a ficção em uma redoma à prova da realidade do tempo presente. Se o próprio autor sofreu as consequências de uma rápida mudança no cenário político mundial do início do século, imaginem como é para o leitor de 2016 ler uma obra escrita 100 anos atrás. Inevitavelmente, todo livro de ficção carrega consigo uma certa visão de mundo, e é importante não confundir a obra com o mundo que ela representa, rejeitando-a de acordo com nossos valores contemporâneos. No caso específico de Vitória, não há como não ficar levemente horrorizado a cada descrição de uma pessoa não-branca, embora isso precise ser entendido como um retrato daquele lugar naquele específico período; ao longo do romance, sobram julgamentos generalizantes sobre tal raça ou tal nacionalidade, o que parece inconcebível em um mundo pós-colonial e politicamente correto. Assim, Wang, o criado de Heyst, não é tanto um indivíduo, mas um receptáculo de características físicas e psíquicas atribuídas aos chineses; o narrador, um sem número de vezes, compara Pedro a animais. De certa maneira, nem os brancos estão imunes a esse tipo de julgamento, visto que o próprio Conrad escreve, no prefácio da primeira edição, a propósito de Schomberg: “não tenho a pretensão de achar que essa é toda a psicologia teutônica; mas é certamente a psicologia de um teutônico” (mas lembrem-se: quando Vitória foi lançado, quase todo o planeta estava em guerra com a Alemanha).

Em um cenário sufocante e claustrofóbico, que atrai os excluídos e aventureiros das sociedades colonizadoras, a selvageria acaba tocando a todos. Ricardo não parece menos selvagem que Pedro, e o mesmo vale para o curioso Sr. Jones. A aversão desse último às mulheres, aliás, já foi interpretada como uma evidência de que Jones seria homossexual (embora, em nosso mundo contemporâneo, não faça mais nenhum sentido pensar que gays odeiam mulheres). O que nosso tempo teria a dizer sobre Jones e Ricardo? Que eles vivem um bromance tropical? Talvez. A adoração de Ricardo pelo chefe é evidente, e o fato de Lena ser a responsável pela “quebra do feitiço” só reforça a teoria de que há, sim, uma ligação homoafetiva entre os dois cafajestes. O mesmo para o fato de Jones decidir gastar suas balas com Ricardo, não com Heyst, em um desfecho que parece saído de um filme de aventura hollywoodiano – mas é o contrário, claro –, com direito a uma arma desaparecida e o surgimento de uma testemunha da tragédia aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo.

Jones também acaba matando Lena. É uma morte carregada de significados, como é também o fato de Heyst e Lena estarem vivendo naquela ilha, apartados da sociedade que os rejeitou. Lena e Heyst, cada um a sua maneira, parecem ser respostas para a natureza violenta e mesquinha que conduz todas as outras personagens. Em alguns trechos do romance, essa camada simbólica salta à superfície:

“Por que se indignar?, ele [Heyst] protestou. “Não aconteceu. Desisti de implorar para Wang. Aqui estamos nós, rejeitados! Não apenas sem poder para resistir ao mal, mas incapazes de chegar a um acordo com os benditos emissários, os extraordinários emissários do mundo com o qual pensávamos ter cortado relações por muitos e muitos anos. E isso é ruim, Lena, muito ruim.”

O mal, ao final, é o grande vencedor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*