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Carta de Jack London a Joseph Conrad

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Publicamos na revista de novembro a carta que o escritor norte-americano Jack London enviou a Joseph Conrad, em 4 de junho de 1915, dias após o lançamento de Vitória. Esse é um dos tipos de conteúdo que buscamos trazer nas revistas, para complementar a experiência de leitura do associado. Textos, curiosidades e informações sobre o universo da obra enviada. Leia a carta na íntegra:

Honolulu, T.H.
4 de junho, 1915.

Caro Joseph Conrad,
Os mainás despertam a quente alvorada a meu redor. As ondas trovejam em meus ouvidos ao quebrar na areia branca da praia, aqui em Waikiki, onde a grama verde nas raízes dos coqueiros persiste na extremidade da espuma do mar. Esta noite foi do senhor – e minha.
Havia recém começado a escrever quando li suas primeiras obras. Tenho simplesmente um insano apreço pelo senhor e comuniquei este meu apreço para meus amigos ao longo destes anos. Nunca escrevi para o senhor. Nunca sonhei em fazê-lo. Mas Vitória me deixou encantado, e envio também uma cópia de uma carta escrita para um amigo ao final desta noite de sono perdida. 
Talvez o senhor apreciará esta noite de sono perdido quando eu lhe disser que ela foi imediatamente precedida por um dia velejando em um sampan japonês ao longo de sessenta milhas, partindo da Colônia de Leprosos de Molokai (onde a Sra. London e eu estivemos revisitando velhos amigos) até Honolulu. 
Faça-o por sua conta e risco.
Aloha (uma doce palavra de saudação, a saudação havaiana, a qual significa “que meu amor esteja com você”).

Jack London

Em 10 de setembro do mesmo ano, Conrad escreveu em resposta:

Tocou-me muitíssimo a sua amável carta, para não falar da intensa satisfação que me deu a aprovação vinda de um emérito oficial do mesmo ofício e um verdadeiro companheiro de letras, de cuja personalidade e arte me tenho apercebido intensamente desde há muitos anos. Justamente já uns dias estive com Percival Gibbon (um contista e muito distinto jornalista e correspondente de guerra) e estive a falar-lhe de si longamente, até alta madrugada. Gibbon, que acaba de regressar de 5 meses na frente russa, tinha estado a ler uma série de livros seus, mergulhando completamente na sua prosa. E admiramos, com a maior simpatia e respeito, a veemência da sua força e a delicadeza. Ainda não li o seu último livro. As recensões que tenho visto são entusiásticas. Tenho o livro em casa mas estou à espera de acabar uma coisa (curta) que ando a escrever agora para depois me sentar a lê-lo. Será a recompensa de me ter portado bem a trabalhar. Porque nos tempos que correm não é fácil escrever aqui. Neste preciso momento Dover está debaixo de fogo. Chegam até mim os estrondos dos disparos dos morteiros e metralhadoras — e não sei o que se passa. Na noite passada, passou um Zep por cima da minha casa (não foi a primeira vez) em direção a ocidente, para aquele bombardeamento a Londres de que já deve ter tido conhecimento pelos jornais. Além disso, neste momento tenho o pulso magoado, o que explica a minha caligrafia irregular. E por aqui me fico — de momento. Guarde-me na sua benévola memória e aceite um aperto de mão grato e cordial.

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