Carol Bensimon / Livros

O macabro original

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Depois de ler o livro de Angela Carter, fiquei pensando que não tive grande contato com contos de fada na infância. Tenho apenas memórias vagas e visuais de algumas histórias, já mastigadas pela Disney e vinculadas em algum bloco da TV Colosso ou do programa da Mara Maravilha: um lobo meio malandro, um sapato perdido, uma menina que toma sopa dos ursos que não estão lá, um flautista encantando ratos. Na época, não me chamou atenção que muitas dessas histórias fossem protagonizadas por mulheres, muito menos que tipo de destino essas personagens tinham, muito muito menos o que isso podia significar no grande quadro. É provável que tampouco eu tenha me dado conta que, nos livros infantis, as meninas normalmente não estavam levando uma vida com muita aventura, enquanto os meninos eram sempre uns curiosos entusiasmados. Nada disso estava me oprimindo, particularmente, ou me criando para ser uma criatura passiva, já que por sorte eu navegava entre as caixinhas dos gêneros com alguma perícia, e isso porque meus pais não se importavam de me dar espadas ou bonequinhos dos Thundercats, ainda que eu me lembre muito bem de um episódio em que a caixa das Lojas Americanas, ao ver meu pai passando com uma nave do Star Wars e eu ao lado dele, achou adequado dizer: isso não é para menina. Só faltou: as vassouras e os fogõezinhos estão ali do outro lado. Foi, em todo o caso, sumariamente ignorada (a vitória dela, contudo, é que ainda me lembro do ocorrido uns vinte e cinco anos depois).

Outro dia, me lembrei do flautista de Hamelin com uma rara riqueza de detalhes. Devo ter assistido o desenho da Disney de 1933 algumas vezes, nos já citados programas de tevê de minha infância anos 80. Há uma infestação de ratos em uma cidade, então o prefeito contrata um flautista que tem a capacidade de encantá-los com sua música. A coisa realmente funciona e os ratos são levados para fora da cidade. Vão felizes, saltitantes, e ainda encontram um queijo gigante em seu destino final. Minhas memórias iam até aí, sem o turning point.

Fui daí ler sobre a versão original da história: os ratos são levados até um rio, onde se afogam; o flautista volta a Hamelin e não recebe o pagamento; um belo dia, quando todos estão na igreja, o flautista volta, encanta as crianças e as tranca em uma caverna; parece que só um manco e um surdo sobrevivem; as centos e tantas outras provavelmente morrem dentro da caverna, e algumas interpretações sugerem que o flautista é, no fim das contas, a figura da Morte disfarçada.

Uau. Como a Disney lidou com isso? Assisti ao desenho. Também na versão século 20, o prefeito da cidade recusa-se a pagar o flautista pelos seus serviços; o flautista joga pro ar umas linhas heróicas de diálogo, dizendo que, se as crianças não saírem dali, elas se tornarão adultos horríveis como os que habitam a cidade, e daí vemos as pobres crianças executando tarefas domésticas e etc; o flautista se empenha então em “salvar” as crianças, as quais, como os ratos, saem dançando e pulando, contentes da vida; chegam em uma caverna, mas a caverna está cheia de doces e brinquedos. A moral da história é que o flautista fez um gesto grandioso e devolveu a infância àquelas crianças.

Fábulas são só um manequim no qual vamos inserindo as roupas da estação. Há uma espinha de trama, e daí os elementos dançam conforme os valores da época. O flautista de Hamelin data de 1248. A infância não havia sequer sido inventada nessa época, então é claro que o desfecho não poderia ser aquele que a Disney deu para a história em 1933. É curioso ver como, conforme a versão, os elementos se redistribuem e se ressignificam a ponto de mudarem completamente o sentido das narrativas.

Angela Carter deve ter se sentido fascinada por essas possibilidades. Embora tenha negado o rótulo de “contos de fada para adultos”, o que ela estava fazendo era devolver o conteúdo macabro original (a gente se arrepia até hoje com as versões dos irmãos Grimm), acrescido de uma recente – nos anos 1970 – libertação da mulher. A passividade sai de cena para que entre o desejo sexual. As mulheres de Carter não estão tomando chá e falando sobre adultério, conforme ela resumia, com desdém absoluto, a literatura inglesa da época. Mas a verdade é que elas continuam prisioneiras em um mundo gótico sombrio, onde, se há espaço para heroísmo, não parece haver nenhum para leveza ou felicidade.

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