Letícia Wierzchowski / Livros

Furiosa beleza

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O mundo de Angela Carter nos dá direito a tudo: lobisomens, florestas encantadas, faunos, fadas, sangue e sexo. Aventurar-se por suas histórias é um prazer e é também uma angústia – de lugares há muito perdidos na nossa memória, saltam medos e desejos recônditos, criaturas escuras e luminosas se alternam num mundo colorido e misterioso, com assinatura toda própria.

É um feito que Angela consegue: evocar, na leitura adulta, um sopro das lembranças infantis, agora refeitas, permeadas de tensão e violência, ardor e sensualidade. Não é leitura para crianças, não é conto de fada para adultos. Nas arenas místicas e vertiginosas de Angela Carter, a vida e a morte duelam na sua luta eterna, infindável, violenta.

Em A câmara sangrenta, o maior conto do livro – e um dos mais bonitos também – encontramos um sádico e sensual marquês que vive numa ilha periodicamente isolada do mundo pela maré, uma ilha anfíbia, onde coisas terríveis (vamos descobrindo isso aos poucos, pela voz da narradora, a jovem pianista e mais recente esposa do conde) acontecem. Não é apenas a ilha onde a impressionante e belíssima história se passa que é anfíbia: todas as narrativas de Angela Carter o são – em seus contos, nada é o que parece, tudo é bom e mau, telúrico e mágico, inocente e sensual ao mesmo tempo. A jovenzinha vampira em seu castelo, o belo e galante caçador que é, na verdade, um lobisomem, o fauno tão gentil, cercado de música, que transforma suas amantes em pássaros. Angela vai despindo seus personagens página por página, e esta transformação mágica e arrepiante evoca no leitor um leque de sentimentos inusitados. Eu confesso a vocês que senti medo. A câmara sangrenta e Na companhia dos lobosarrancaram de mim suspiros de ansiedade e tensão. Mas Angela também sabe fazer rir, o humor fino e delicado de O gato de botas é imperdível.

Então, caros amigos, a TAG traz pra gente mais uma bela obra: um livro anfíbio, que vai da angústia ao riso, da sensualidade ao terror, da floresta misteriosa aos salões parisienses, sem nunca perder a sua furiosa beleza.

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