Colunistas / Carol Bensimon / Livros / A praça do diamante, de Mercè Rodoreda

Voa, Colometa

colunas dezembro-01 Share this post

Abrir um romance, ler suas primeiras linhas e já sentir-se levado pela história e pela maneira como ela está sendo contada: esse é um dos itens incontestáveis da minha lista particular de Coisas Mais Prazerosas da Existência. Quando acontece por acaso, com uma obra sobre a qual sei previamente nada ou quase nada, tanto melhor. Foi assim com A praça do diamante. Abri na primeira página, de pé na livraria. Tinha vinte e um anos e uma vontade palpitante de escrever meus próprios livros. Andava bem atenta à forma dos romances – a maneira de narrar, a cadência da prosa –, e não mais somente às histórias contadas. Tinha deixado de ser tão ingênua e começava a enxergar a ligação íntima entre essas duas coisas. Uma dependente da outra, uma se confundindo com a outra.

Fui surpreendida por aquele início. “A Julieta veio até a confeitaria expressamente para me dizer que, antes do sorteio da prenda, iam sortear cafeteiras; que elas as tinha visto; lindas, brancas, com uma laranja pintada, partida ao meio, os caroços à mostra. Eu não tinha vontade de ir dançar nem de sair (…)”. Minha empatia com a personagem-narradora foi quase instantânea. Acredito que as primeiras páginas de um livro são uma espécie de carta de intenções, a antessala do universo onde em seguida nós, leitores, vamos nos locomover. E o que vejo – até hoje –  naquela antessala de Rodoreda é mais ou menos o seguinte: uma protagonista que sente certo desconforto em estar no mundo, mas que, ao mesmo tempo, deslumbra-se com os pequenos detalhes da vida; um panorama enviesado da cidade de Barcelona antes, durante e depois da Guerra Civil Espanhola; uma prosa rápida, dançante, com um verniz de ingenuidade, e que acaba sendo uma maneira muito engenhosa de chegar a camadas mais profundas de significação.

A dança na Praça do Diamante com Quimet, o casamento, a guerra, a vida depois da guerra. As cenas do romance protagonizado por Natália – a Colometa – se desenrolam em um ritmo veloz, mas muito atento aos detalhes. E se a personagem-narradora, poderiam dizer alguns, não é a pessoa mais perspicaz do universo, eu diria que é justamente esse seu olhar infantil sobre as coisas e pessoas o que a torna fascinante. Ou, posto de outra maneira: Colometa pode ser ingênua, mas Rodoreda certamente não o é. A prova disso é a forte carga simbólica que ela coloca em certos objetos do romance: o quadro das lagostas, o funil, a boneca que com frequência Colometa observa na vitrine e, claro, seu pombal e suas pombas.

O encadeamento das ações também constrói essas camadas de sentido. Quando a guerra chega, ela é sutil, plantada aqui e ali no texto. A primeira menção a ela acontece em meio a um cotidiano banal, e já deixa claro que Colometa estará do lado de fora do conflito. Ela não vai lutar, obviamente (é mulher), mas tampouco entenderá muito bem o que está se passando: “E tudo seguia assim, com pequenas preocupações, até que veio a república e o Quimet ficou todo entusiasmado, e andava pelas ruas gritando e agitando uma bandeira que nunca consegui descobrir de onde surgira”.

O início do conflito – sempre à distância – é descrito então com um certo romantismo. Há um velho que diz que gostaria de estar na guerra, se divertindo. Em outro momento, a própria Colometa pensa que os rapazes mudam na guerra, se tornam homens de verdade. A realidade brutal, claro, vai bater à porta, e haverá mortes, fome e sonhos rompidos mais adiante. Mas acredito que é interessante perceber que, enquanto os homens “se divertem” e lutam pelos seus ideais em um conflito sangrento, Colometa, em casa, lida com o problema das pombas. Parece ser essa a guerra que lhe cabe. Não por acaso, o seu “direito de matar” também é outro, bem diferente do masculino. Mas não vou dizer mais sobre isso para não estragar a leitura de ninguém.

Em um prólogo escrito para a edição catalã de 1982, Mercè Rodoreda declara que A praça do diamante conta uma história de amor, por mais que não tenha um grão de sentimentalismo. Parece-me uma boa definição. Colometa jamais entra em fantasias envolvendo príncipes encantados. É esquiva porque a vida está sempre lhe passando a perna. Tenta, mais do que tudo, sobreviver. E por “sobreviver”, entende-se não só a luta diária por um prato de comida, mas também a capacidade ímpar de perceber a beleza nas pequenas coisas da vida.

2 comments

Katya Freitas 30 de janeiro de 2018 Responder

Ao iniciar a leitura deparei me com uma sensação que há muito tempo não defritava: o desejo desesperado em passar para próxima página. A obra é simplesmente … maravilhosa . Colometa nos preenche de desejos e dores.

Flávia 2 de abril de 2018 Responder

Amei esse livro! Em meio a tanta dor e sofrimento, ele nos inebria com uma futura esperança. SENSACIONAL!!!

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