Colunistas / Letícia Wierzchowski / Livros / A praça do diamante, de Mercè Rodoreda

Quando a gente cai pra dentro de um livro…

colunas dezembro-02 Share this post

A praça do diamante é um livro que nos suga. Quase como se a gente caísse pra dentro dele. Como um tombo mesmo. Mercè Rodoreda nos conta a história de Natália em primeira pessoa, e com ela seguimos – meio sonhando, meio brincando, meio em choque – por uma Barcelona que, aos poucos, vai sendo engolida pela guerra civil.

E com Mercè é tudo assim feito tapa na cara,  sem respiros: Natália sai do balcão de doces da confeitaria onde trabalha e vai para uma festa popular na Praça do Diamante, e ali, inesperadamente, sua vida muda: ela conhece Quimet, um jovem ardente e cheio de sonhos delirantes, às vezes meio maluco, às vezes sábio como um velho, que a arrebata com seu amor, colocando-a no centro dos seus sonhos românticos – romantismo que, aliás, dura pouco: logo, Natália – a Colometa, a pombinha de Quimet – vira mãe de um menino, e depois de uma menina, e depois chegam os pombos, muitos deles – pois Quimet transforma a casa da família num verdadeiro pombal -, e depois a Espanha vai mergulhando na sua violenta guerra civil.

Então Quimet não tem mais trabalho, Natália vira empregada doméstica. E daí por diante é um poço sem fundo de azares, de tristezas e de fome. Mas persiste em Natália um não sei quê, uma pureza infantil que a faz atravessar os dias mais duros com alguma esperança, olhando bonecas em vitrines e pássaros nos parques enregelados. Mas até isto terá o seu final: depois de muito sofrimento, da fome apagar a luz dos olhos dos seus filhinhos, finalmente Natália parece virar adulta – assim, de uma hora para outra, exatamente quando surge aquele que vai salvá-la, a ela e aos seus filhos, da grande tragédia que se avizinha. É na salvação que Natália se apaga, como um náufrago que gasta todas as suas forças no afã de nadar até a terra firme e, chegando lá, descobre que morrer teria sido uma boa saída.

Rodoreda é uma narradora impressionante, visceral. Ela nos leva em constante torvelinho, feito as pombas que se inquietam no quartinho escuro da casa de Quimet e Natália, e nós vamos presos da sua inconstância narrativa, do olhar quase infantil da narradora, mas tão autêntico, tão sanguíneo, que muitas vezes tive de parar de ler para secar as lágrimas. E mais ainda na guerra, quando a moça toma a sua decisão desesperada – só então é que o destino a salva, o destino pacato e assexuado, tão estável quanto uma cadeira de quatro pés, tão certo como dois e dois são quatro. A partir daí, Natália sobrevive, e Colometa morre para sempre. Apaga-se naqueles corredores sombreados da casa onde as colchas são bordadas e as camas, de latão. Há de um tudo, de um tudo mesmo, mas falta a vida em Natália, falta-lhe o rebuliço do amor e o fogo do sonho. Que vão, enfim, para a pequena Rita – é nela que a vida resiste na sua melhor forma, como as bolhas no champanhe ou as estrelas no céu. Pois, Natália e seu menino, Antoni, aguentaram os terrores da guerra civil, mas alguma coisa dentro deles morreu para sempre – como o desejo foi ceifado da vida do merceeiro que salvará a família de Natália da tragédia total.

Eu nunca tinha lido nada de Mercè Rodoreda, e de novo me veio essa sensação que é quase uma constante na vida de um leitor: um medo de tudo aquilo que perderei, das boas histórias que jamais chegarão às minhas mãos, dos autores que desconheço e que escrevem maravilhas por aí, como Rodoreda, e que a TAG encontra e traz numa caixinha linda até a porta da minha casa.

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