Colunistas / Carol Bensimon / Livros / Coleção 2017 / Limonov, de Emmanuel Carrère

O herói dos escombros

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Talvez ninguém acreditasse em Limonov se não tivéssemos certeza de que ele é real. Há várias versões de sua barbicha no Google Images. Personagem camaleônico supremo, ele vestiu blazer branco e camiseta dos Ramones com o mesmo desprendimento usado para segurar, alguns anos depois, uma kalashnikov em Sarajevo. “Ele existe. Eu o conheço”, escreve Emmanuel Carrère na contracapa de seu romance, como se ele mesmo precisasse se convencer da existência de Eduard Limonov. A vida do russo foi tão mutável quanto a de Carrère foi previsível. Se não houvesse esse contraste – se Carrère não se colocasse no livro –, Limonov seria uma biografia, não um romance. Carrère, me parece, escreve o livro não apenas para investigar o percurso atribulado de um megalomaníaco russo, mas para, por oposição, compreender a própria vida.

Nos anos 2000, os dois homens se encontram diante do teatro de Dubrovka, palco da tragédia envolvendo terroristas tchetchenos e forças especiais russas. Silêncio respeitoso, guarda-chuvas, velas. Não se cumprimentam. Limonov parece algum tipo de liderança. “Eduard veio, está tudo certo”, diz uma mulher próxima a Emmanuel. Assim começa o livro. Logo o escritor francês consegue evocar a velha versão daquela figura: durante os anos 1980, foi a “coqueluche do mundinho literário parisiense”, graças ao sucesso de uma obra ousada chamada O poeta russo prefere os negros. Que espécie de coisa precisou acontecer para que Limonov, o escritor cult, se transformasse em Limonov, líder de um pequeno partido, posando de gola rolê diante de uma bandeira com a foice e o martelo?

Acontece que Limonov é complexo como a Rússia. As mudanças radicais de um indivíduo apenas imitam as mudanças radicais da parte oriental de todo um continente? Eduard Limonov, em quase toda a extensão de sua biografia romanceada, parece que está a um passo de ganhar o mundo, por vias tortas, verdade, mas heróicas. As últimas cinquenta páginas, no entanto, mostram uma amarga derrocada. O ápice desse fracasso está muito bem tecido na cena em que Limonov e Carrère se encontram no modesto apartamento do primeiro (elevador enguiçado, jeans e suéter pretos, pouca mobília). Na verdade, corrijo: o fracasso mistura-se à admiração que Carrère sente por aquela figura intrigante, o que recheia a cena com múltiplas camadas. “Por que deseja escrever um livro sobre mim?”, lhe pergunta o russo, e Carrère fala da vida romanesca, perigosa e fascinante que ele, Limonov, viveu. “Uma vida de merda, isso sim.”

A frase choca o francês. A partir dela, há uma discussão sobre o desfecho do próprio livro. Terminar assim, com esse gosto amargo? Carrère não quer fazer isso, e então coloca Eduard Limonov na Ásia central, seu lugar favorito no mundo, evocando velhas cidades decadentes, lentas e marcadas pela violência. O amargor, no entanto, não sai do texto; apenas ganha uma forma mais poética.

Não custa lembrar também que Carrère traça paralelos entre a vida de Eduard Limonov e Vladimir Putin, fazendo crer que, por leves mudanças de rota ou acasos, o primeiro poderia estar no lugar do segundo. Essa comparação soma-se ao contraste entre Limonov e Carrère. Limonov não foi um vencedor na política; é apenas o líder de adolescentes espinhentos do interior da Rússia. Tampouco foi um vencedor na literatura; jamais conseguiu escrever uma obra à altura de sua vida real. Outra pessoa faz isso por ele, e essa talvez seja a sua grande derrota. Poderia ter sido Putin, poderia ter sido Carrère. Não foi nenhum dos dois.

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