Colunistas / Letícia Wierzchowski / Livros / Coleção 2018 / O alforje, de Bahiyyih Nakhjavani

“Já é de manhã, meu senhor!”

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A delícia da leitura traz consigo a dolorosa consciência de que nunca poderemos ler todos os bons livros – por mais dedicados que sejamos, a maior parte da literatura jamais nos passará pelas mãos. Creio que seria esse o caso de Bahiyyih Nakhjavani – escritora iraniana que cresceu na Uganda, foi educada na Inglaterra e hoje vive na França – se não fosse a TAG e as suas caixinhas geniais.

Eu nada sabia sobre Nakhjavani e, como li O alforje numa impressão caseira (a TAG estava fazendo as últimas revisões deste belíssimo livro que agora você tem nas suas mãos), confesso que achei que ela, Bahiyyih, fosse um homem, pois a combinação de letras do seu nome me soou masculina. Mas, então, comecei a ler O alforje e uma voz misteriosa, uma voz tão antiga quanto o tempo, parecia narrar a história da caravana que seguia de Medina para Meca sob os pontos de vista de variados personagens. E todas essas histórias, tão únicas, tão diversas, cada uma delas sob uma pele, um sexo, uma casta, me fizeram lembrar de As mil e uma noites.

Nakhjavani soou-me uma Sherazade, e a sua narrativa – tantas vezes recontada pelos integrantes dessa caravana que atravessa o terrível deserto assolado por bandidos de toda sorte – transportou-me para aquele palácio persa das tardes da minha infância. A cada capítulo terminado, eu parecia ouvir a voz de Sherazade a dizer ao rei Shariar: “Já é de manhã, meu senhor”.

Erico Verissimo se dizia um contador de histórias. No fundo, nós, escritores, somos todos contadores. Contar uma história com excelência, com magia e vivacidade, talvez seja um dos grandes mistérios desta vida. E Bahiyyih Nakhjavani é uma contadora de histórias por excelência: sob o seu encanto, minhas horas correram no seu eterno deserto (Já é de manhã, meu senhor!), e a sua fábula coloriu os meus olhos.

Traduzido para o português pela TAG, O alforje conta um dia nesta perigosa travessia do planalto de Najd pelos olhos de nove personagens impressionantes – o Ladrão, o Líder, a Noiva, o Cambista, a Escrava, o Peregrino, o Dervixe, o Cadáver e o Sacerdote, “aquele que nunca tinha amado na vida, e que não soube como aquilo lhe aconteceu.” Pois um simples saco de couro, nas areias de Bahiyyih, poderia trazer a morte, a revelação da vida eterna ou o amor.

Por todos estes personagens misteriosos, passará um alforje que transforma as suas existências. Naquele deserto, assim como na vida, cada um vê o que quer. O alforje é um romance cheio de encaixes, frágil como se fosse de areia, a areia imemorial das tempestades no deserto, mas vigoroso e cruel também.

E Bahiyyih Nakhjavani é uma Sherazade naquilo que a rainha persa tinha de mais espantoso: a capacidade de criar mundos absolutos com palavras, mundos tão inteiros e perfeitos que conseguem frear o tempo, gastar as noites, estancar o sono e aplacar até o mais cruel dos espíritos.

Em O alforje, experimentamos essa fantástica aventura que é a empatia, talvez a mágica das mágicas que apenas os grandes narradores conseguem tirar da sua cartola ficcional.

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