Colunistas / Carol Bensimon / Livros / Coleção 2017 / O leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa

Pela janelinha empoeirada

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“Os italianos gostam mesmo dos romances históricos”, foi a primeira coisa que pensei ao receber em minha casa O leopardo e ser informada de que o livro era um sucesso de vendas em seu país de origem, vindo somente a perder, vinte anos depois, para o bestseller de Umberto Eco, Em nome da rosa. As cenas iniciais – detalhadas, como se sob o controle de um diretor de arte obsessivo – me diziam que eu estava diante de um desses retratos de época muito amplos, que logo me tirariam dos domínios do leopardo para me levar a passear pela Itália em processo de unificação. Fui surpreendida. Foi uma boa surpresa. Embora Lampedusa tenha sido acusado de pertencer a uma estirpe ultrapassada, tendo o romance rejeitado pelas duas maiores casas editoriais italianas, sua obra filha única tem características bem modernas. Não é um romance histórico saído da forma do romance histórico (e nada contra se fosse). Há uma escolha ousada de ponto de vista. Ficamos com Dom Fabrizio. Não saímos na aventura com Tancredi. Estamos sempre um pouco distantes da ação mais violenta, mais barulhenta, mais exagerada, vendo, em vez disso, uma luta política muito discreta, concentrada em um simples casamento. Acho interessantíssimo.

Essa distância não é só a distância de Dom Fabrizio, mas de toda a Sicília. Vocês lembram quando um sujeito chamado Chevalley é enviado ao palácio para oferecer ao siciliano uma vaga no novo Senado? Impossível não pensarmos em nossa republiqueta sul-americana quando Chevalley sentencia “se os homens honestos se retirarem, o caminho ficará livre a pessoas sem escrúpulos e sem perspectivas”. Não soa familiar? Mas o “algo deve mudar para que continue tudo como está”, espécie de lema do livro salpicado pelas páginas, nos lembra que nada, nadinha, de fato, muda. O romance é bastante pessimista nesse sentido.

Mas eu estava falando do mensageiro Chevalley, que, pelo contrário, exala otimismo e crença nas mudanças políticas e sociais. E o autor é bastante engenhoso quando, na página 186, cria um embate silencioso entre os pensamentos desse e os pensamentos de Dom Fabrizio:

Chevalley pensava: “Este estado de coisas não vai durar; nossa administração, nova, ágil, moderna, mudará tudo”. O Príncipe estava deprimido: “Tudo isso”, pensava, “não deveria durar; mas vai durar, sempre; o sempre dos homens, é claro, um século, dois séculos… e depois será diferente, mas pior. Nós fomos os Leopardos, os Leões; os que vão nos substituir serão os chacais, as hienas; e todos eles, Leopardos, chacais, hienas, continuarão se acreditante o sal da terra.”

Gosto particularmente do fechamento dessa cena. Talvez não consiga explicar o motivo pelo qual gosto dela, e qual a simbologia exata que a cena carrega, mas isso é próprio da arte, certo? Nunca saberemos com precisão o que nos toca e por quê. De toda a maneira, a quarta parte do livro se encerra assim – com Chevalley na carroça, indo embora –, e creio que a imagem tem uma grande força, uma espécie de concentração simbólica dos temas do livro:

Acabara de amanhecer; aquele pouco de luz que conseguia atravessar o cobertor de nuvens era vedado mais uma vez pela sujeira imemorial da janelinha. Chevalley estava só; entre solavancos e trepidações, umedeceu a ponta do indicador com saliva e limpou o vidro o bastante para a circunferência de um olho. Observou: diante dele, sob a luz de cinzas, a paisagem estremecia, irredimível.

Essa Sicília, marcada pelo atraso, pelo orgulho, pela má vontade com as mudanças, tem na sua paisagem um espelhamento (ou uma causa?) das características do seu povo. Se houvesse redes sociais na época do lançamento de O leopardo, Lampedusa provavelmente ia sofrer ataques diários de sicilianos indignados. Lembro quando, em uma crônica, escrevi que tinha comido um pastel engordurado em uma lanchonente de Santa Maria, Rio Grande do Sul, e isso foi suficiente para deixar algumas pessoas bem furiosas. Era só um pastel! E estava bom!

Algumas coisas mudam para que nada mude. A Operação Mãos Limpas, na Itália, teve como consequência a ascensão de Berlusconi ao poder. Espero, do fundo do coração, que nunca soe familiar.

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