Colunistas / Letícia Wierzchowski / Livros / Coleção 2017 / O leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa

O filho único de Lampedusa

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Há muitos anos, li O leopardo. Na época, estudando italiano, aventurei-me na edição de língua original, viajando no Il gattopardo com alguns tropeços, fascinada pela beleza quase barroca do texto.

Voltei ao livro agora, duas décadas mais tarde, por indicação, nada mais, nada menos que de Mario Vargas Llosa, um dos meus romancistas prediletos – aliás, Lampedusa divide com Llosa uma prosa sensual, fascinante, saborosa como uma fruta madura cujo sumo escorre sem economia por entre páginas e parágrafos.

Fascinante para mim, neste momento no qual aguardo com ansiedade crescente a publicação do meu último romance Travessia – uma história de Anita e Giuseppe Garibaldi – foi reencontrar o meu general italiano, o meu herói amoroso (como a ele se referiram numa crônica da época) sob a lente de Lampedusa, que o observa do outro lado do rio da história, através do seu aristocrático Fabrizio, o tiozão, o príncipe dono e senhor da Vila Salina, figura carismática e humaníssima, cujo ponto de vista nos guia através de boa parte do romance – embora tenhamos ali um narrador de engenhosas intrusões.

Levado a rodo pelo Risorgimento italiano, Fabrizio Salina acompanha o desembarque das tropas de Garibaldi, ajudando a burguesia a assumir o poder nas Duas Sicílias. Seu sobrinho, Tancredi, fadado ao sucesso na vida política graças à sua fabulosa capacidade de adaptação (“Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”, célebra frase dita por ele ao tio príncipe), junta-se às tropas garibaldinas logo no começo do romance. Mas nem só de política e de transformações sociais vive o livro de Lampedusa, o amor permeia cada página no desejo maduro de Fabrizio, um homem de 45 anos prestes a mergulhar no ocaso sensual, que cede seu lugar de delícias ao sobrinho empobrecido que ele ama como um filho: Tancredi vai apaixonar-se perdidamente pela belíssima Angélica, moça inculta, filha de um burguês sem classe, mas riquíssimo. Angélica representa o futuro, não só de Tancredi, mas da Itália – a ascensão de uma gente detentora de bens materiais, mas sem passado, sem nobreza, assombra e diverte o velho príncipe de Salina.

Um romance fabuloso, um retrato da decadência da aristocracia, mas sempre elegante e cheio de exuberância, uma ode a um tempo e a uma gente, uma declaração de amor a um chão. Um livro sobre a herança atávica que os sicilianos dividem. “… este clima nos inflige uma febre de quarenta graus (…) maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro; seis vezes trinta dias de sol a pino nas cabeças; este nosso verão tão longo e terrível quanto o inverno russo, e contra o qual se luta com menos sucesso…”. Palavras de Fabrizio escritas por Tomasi di Lampedusa, que tem neste romance o seu filho único – o que deixa no leitor uma sensação estranha, um saudosismo sem raiz, uma ânsia de voltar no tempo e de instalar Lampedusa na frente de uma boa máquina de escrever – mas teria nascido dali outro fruto de igual beleza?

O leopardo ouviu dois nãos de editoras italianas, e só ganhou o prelo depois da morte do seu autor, tornando-se, depois de publicado, um dos grandes sucessos de vendagem italianos, chegando com glamourao cinema. Não é para menos, assim como a própria Sicília, O leopardo é inesquecível.

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