Colunistas / Carol Bensimon / Livros / Coleção 2017 / Os irmãos Sisters, de Patrick deWitt

Velho Oeste para rir

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Um narrador carismático mergulhado em um cotidiano violento. Isso é o que dá pra concluir já na primeira página de Os irmãos Sisters, além de que estamos diante de um texto como uma cadência deliciosa, muito próximo da linguagem oral. Olhem:

Como queria algo para fazer, comecei a estudar Nimble, o cavalo novo de Charlie. Meu novo cavalo se chamava Tub. Não acreditávamos muito em dar nomes a esses animais, mas tínhamos recebido como parte do pagamento pelo último trabalho os dois já com seus nomes, então tudo bem.

A terceira, quarta e quinta frase do livro do esquisitão Patrick deWitt (a TAG colocou uma foto bem grande no fim) não são só boas de ler, mas revelam também que estamos diante de um universo ficcional conhecido – o Velho Oeste – que será desdobrado em um relato não muito sério. Eli, o irmão bom, é um cara engraçado. Ele é engraçado não só pela sua ingenuidade e pela bondade flagrante, mas também porque questiona o que diabos ele e o irmão estão fazendo com suas vidas e com a daqueles que cruzam seu caminho. E o fato de Eli questionar suas atitudes é o primeiro indício de que esse livro tem características de paródia; na versão “séria” de uma aventura que ocorre durante a Corrida do Ouro, ninguém estaria ocupado com questionamentos existenciais ou comentários sobre moda (“Claramente havia um entre eles que fora o primeiro a se vestir assim. Será que ele havia ficado feliz quando os outros o imitaram ou chateado com seu sentido de individualidade comprometido pela cópia?”). Além disso, os pensamentos de Eli carregam muitas marcas de contemporaneidade, como é o caso desse sobre as roupas dos capangas de Mayfield, mas também os que dizem respeito à carésima São Francisco do século XIX – com uma clara piscadela para a São Francisco de hoje –, às mulheres, às análises psicológicas antes das análises psicológicas existirem de fato e à própria violência.

A violência que permeia toda a trajetória dos irmãos Eli e Charlie, aliás, não pode ser vista sem o verniz do humor espertinho de deWitt. Isso significa que até as cenas mais gore não tem o peso brutal que teriam se o tratamento dado a elas fosse outro. Lemos sobre   combates sanguinários e duelos injustos dando risadas. As figuras dos castores mortos em um terrível desastre ambiental não nos comove tanto quanto nos diverte. Não se trata, aqui, do universo sombrio de Cormac McCarthy ou da decadência opressiva de William Faulkner, mas do mundo criado por alguém que bebeu nessa fontes e que depois saiu aspirando uns balões de hélio. Admito, no entanto, que eu ficava agoniada toda a vez que o pobre do cavalo recebia álcool no buraco que um dia abrigara seu olho.

Há, também, aquele belo detalhe da escova de dentes. A dedicação de Eli em relação ao instrumento, no meio daquele oeste bruto e masculino, chega a ser comovente. Parece-nos, talvez, um excesso de zelo, uma delicadeza deslocada – por isso a força de trechos simples como esse: “(…) os caçadores não tinham ouvido o tiro. Não estavam no quarto ou eu havia atirado num quarto que não era o deles. Desisti da minha aventura mortal. Escovei os dentes e fui dormir”. Além disso, nós, leitores contemporâneos, enxergamos como algo banal o que para Eli é uma inovação embasbacante. Essa diferença de visões gera um efeito interessante. Toda a narrativa de Os irmãos Sisters depende muito desse efeito.

Ao final da leitura, não pude deixar de imaginar Os irmãos Sisters adaptado* pelos irmãos Cohen.

*Uma versão cinematográfica do romance está prevista para ser lançada em 2018, sob a direção do francês Jacques Audiard.

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