Livros / Sérgio Rodrigues

É faroeste, caboclo!

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A leitura de um romance que consegue, como Os irmãos Sisters, equilibrar um grande número de malabares sem deixar cair nenhum até a página final já seria gratificante por si: ritmo, humor, lirismo, suspense, crueldade, estranheza, é preciso reconhecer que os ingredientes são de boa qualidade e estão bem dosados nesse western de Patrick deWitt.

Mas havia outro motivo de satisfação naquele meu encontro com o livro, há três anos: ali estava mais uma prova, a melhor que me chegava às mãos em algum tempo, de uma verdade que sempre defendi. A de que é um erro julgar mérito literário com base no gênero da narrativa, dividindo de antemão a literatura em maior e menor, alta e baixa. Infelizmente, é o que insiste em fazer em pleno século 21 uma parte considerável da crítica e dos leitores.

Funciona assim: se o livro for “de gênero”, isto é, se couber nos movimentados corredores das livrarias onde são vendidas obras de ficção científica, literatura policial, fantasia, terror, humor, faroeste etc., então não estamos falando de “literatura séria”. E por que não? Ora, porque se supõe que faltam a esses trabalhos ambição estética e rigor artístico na mesma medida em que lhes sobram concessões ao gosto popular e desleixo formal.

“Literatura séria”, acredita-se, é aquela que se encontra em outro corredor, aonde se aventura um número bem menor de leitores porque, afinal, o biscoito fino não é para qualquer paladar. À primeira vista, essa divisão binária parece fazer sentido: de fato, um grande número de livros “de gênero” e “de literatura séria” se enquadram direitinho no esquema.

O problema é que um número também grande de outros livros bagunçam o binarismo a ponto de desacreditá-lo por completo. Sim, há romances policiais e de ficção científica cheios de ambição estética e rigor artístico. Como existem incontáveis livros supostamente seriíssimos (talvez fosse melhor chamá-los de chatos mesmo) que têm tanto valor artístico quanto um chiclete mascado.

Pode parecer absurdo colocar Os irmãos Sisters, um livro competente, inteligente e divertido, na mesma frase de uma obra-prima genial como Dom Quixote. De certa forma, é mesmo. Mas o absurdo ajuda a chamar a atenção para algo ainda mais absurdo: a persistência crítica do conceito de gênero como baliza de mérito.

É por causa dessa persistência que, mais de quatro séculos depois de Miguel de Cervantes fundar o romance moderno com sua narrativa autoconsciente calcada na homenagem crítica a um gênero popular de imenso sucesso, o romance de cavalaria, Patrick deWitt ainda consegue dar ares de novidade à sua narrativa autoconsciente calcada na homenagem crítica a um gênero popular de imenso sucesso, o faroeste.

É que muita gente ainda não entendeu que literatura, no fundo, é só uma brincadeira séria. Brincadeira, mas séria. Séria, mas brincadeira.

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