Colunistas / Sérgio Rodrigues / Livros / Coleção 2017 / Ragtime, de E. L. Doctorow

Máquina de narrar

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Reflito sobre o prazer intenso que a leitura de Ragtime me proporciona e, por trás de algumas camadas de argumentos temáticos, técnicos, racionais e afetivos, desconfio que alguma coisa permaneça sem nome. Alguma coisa que me sinto tentado a chamar de mágica.

Lançado em 1975 por E.L. Doctorow – um daqueles escritores grandes que, por alguma razão, parecem destinados a ocupar na história oficial da literatura uma vaga menor do que merecem –, Ragtime é o maior sucesso de crítica e público do autor.

Marcou época como o romance histórico pós-moderno por excelência. Ou seja, um romance histórico que, além de se ocupar da história, tematiza e critica num segundo nível de leitura o próprio fato de ser um romance histórico, fato do qual tem uma consciência tão dolorosa quanto brincalhona, inscrita em cada uma de suas frases.

Deve-se levar a sério essa versão condensada da história dos primórdios de um império? A julgar pelas graves questões do nascimento da modernidade americana ali abordadas, sim. Em miniatura e cristalinamente encenados, acompanhamos a violência da repressão a negros, mulheres e imigrantes, os primeiros passos do fordismo, a crença nos poderes da ciência e da técnica, entre outros temas sociais de corte épico.

No entanto, como encaixar numa moldura realista as incríveis coincidências da história? Ou a mania que têm alguns famosos personagens do início do século 20 – como o mágico Houdini, o explorador Robert Peary, a modelo Evelyn Nesbit, a líder anarquista Emma Goldman – de cruzar seus destinos com o da prosaica família de classe média alta de New Rochelle que conhecemos como Papai, Mamãe, o Irmão Mais Novo de Mamãe etc.?

O leitor que se apegar a velhas noções de realismo pode ter problemas para acompanhar o ritmo saltitante, malicioso e lúdico da narrativa – característica que ela compartilha explicitamente com o ragtime, estilo musical dos negros americanos que vivia seu auge na época, antes de desaguar no oceano do jazz.

Mais proveitoso é se 05deixar levar pela prosa certeira e fluida de Doctorow. Ragtime é, para falar pós-modernês, um artefato literário perfeito em seus próprios termos, uma máquina de narrar. E funciona que é uma beleza.

O melhor modo de ler o romance é ensinado pelo menino da casa de New Rochelle, filho de Papai e Mamãe, que na página 170 ouve ragtime pela primeira vez e sente a música “como se fosse luz tocando vários pontos no espaço, acumulando-se em complicados desenhos, até que toda a sala cintilava por si mesma”.

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