Livros / Sérgio Rodrigues

Uns e outros

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Os exercícios literários de variação sobre temas alheios e outras modalidades de diálogo com obras consagradas que dão forma ao primeiro produto editorial original da TAG ressaltam, antes de mais nada, o que existe de jogo nessa brincadeira séria de fazer arte com palavras.

É curioso observar o lugar ambivalente, entre passadismo e futurismo, que ocupa hoje a ideia de “empréstimo” literário. Por um lado, acena para uma ancestralidade oral e coletiva das letras – antes que elas tivessem esse nome e antes ainda de nascer o conceito de autoria, quando recontar um conto e aumentar um ponto era a lei. Por outro lado, aponta para um futuro em que a malha tridimensional da comunicação em rede promete, no mínimo, reformar o aparato legal de propriedade intelectual que trouxe a literatura até aqui. Mas essa é outra história.

No caso, o que interessa são as “outras histórias” que um time de escritores brasileiros, reforçado por um português, extrai sob a curadoria de Luiz Ruffato das histórias consagradas de um punhado de contistas referenciais. Todas as narrativas curtas escolhidas para servirem de baliza, provocação ou inspiração às novas criações podem ser consideradas obras-primas – e não é exagero dizer que já valeriam o livro. Mas é na variedade de abordagens que elas ganham nas mãos dos escritores contemporâneos que reside o atrativo maior da brincadeira – aquilo que faz o livro parecer um caleidoscópio.

Cristovão Tezza traz Tolstói não apenas para a Curitiba de hoje, mas para seu próprio universo ficcional. Seu conto segue as linhas gerais do original, mas dá um jeito de ter como protagonista a tradutora Beatriz, seu personagem de outras ficções.

De simplicidade enganadora, a pungente história da neozelandesa Katherine Mansfield, uma das renovadoras do conto no século 20, não muda de ambiente ou de personagens nas mãos de Ivana Arruda Leite, que prefere acrescentar novas peças ao tabuleiro, reordenando o jogo aos olhos do leitor.

O português José Luís Peixoto constrói um engenhoso jogo de espelhos em que o famoso Pestana de Machado de Assis, compositor que sofre com o sucesso popular de suas polcas enquanto tenta em vão compor obras eruditas, se reflete invertido no personagem de um escritor que é e não é o próprio autor.

O mesmo Machado aparece outras duas vezes (repetição talvez justificada pelo tamanho monstruoso que o maior escritor brasileiro tem como contista), estabelecendo com Milton Hatoum um diálogo dolorosamente contemporâneo sobre política e batendo com Paulo Lins um papo meio cifrado acerca de nossa herança escravocrata.

Maria Valéria Rezende segue à risca a trama do cruel conto humorístico de Guy de Maupassant, mestre da narrativa curta tradicional e célebre por seus finais surpreendentes, atualizando a história para o Brasil urbano contemporâneo, com sua atmosfera de violência.

Ana Maria Gonçalves, que já acusou Monteiro Lobato de racista no registro da não ficção, volta ficcionalmente ao tema, que assim se mostra mais rico e nuançado. Beatriz Bracher faz uma colagem de trechos de James Joyce para responder ao conto do escritor irlandês.

Eliane Brum transforma simplesmente em sujeito o personagem que, na perturbadora história de Clarice Lispector, é objeto. Luiz Antonio de Assis Brasil fecha a tampa do livro tentando içar e expor aos olhos do leitor um pedacinho submerso do proverbial iceberg de Hemingway.

Na soma das partes, temos uma vigorosa demonstração da ideia que o argentino Jorge Luis Borges transformou em pedra de toque da criação: a literatura se alimenta de literatura; a psicologia ou a alma do autor são no máximo o aparelho digestivo. Levando-a ao limite, podemos concluir que é sempre com outros livros que os livros conversam, não com pessoas. As pessoas apenas apuram os ouvidos para tentar captar o burburinho.

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