Colunistas / Carol Bensimon / Livros / Coleção 2017 / Vida e proezas de Aléxis Zorbás, de Níkos Kazantzákis

Como falar mal de um clássico?

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Estou me perguntando isso há algumas horas. Clássicos são confiantes e pouco humildes. Eles se sentem garotões. Deixaram pelo caminho um monte de outros livros, que desapareceram para sempre na esteira seletiva da História. O que eu, leitora, devo fazer diante dessa espécie de seleção natural darwiniana? Clássicos foram comidos por traças, foram esquecidos em estantes no Egito, na Grécia, no Curdistão, mas foram também sublinhados com maravilhamento, foram dados como lições de vida a pessoas mais jovens, foram discutidos em clubes de leitura em subúrbios norte-americanos, foram reimpressos em gráficas brasileiras no meio da madrugada, foram transformados em filmes e amados duas vezes. Nas páginas das obras ditas “clássicas”, parece haver um entendimento muito apurado de algum dilema humano, aliado, na maioria das vezes, a uma nova forma de contar. Claro que nem sempre os clássicos foram entendidos no seu tempo, e um monte de listas estão aí para nos lembrar o quanto certos críticos cometeram o equívoco histórico de falar mal de uma grande obra na ocasião de seu lançamento (essa lista, por exemplo).

O que quero dizer é que clássicos são sempre intimidadores. E é compreensível que a gente se sinta estranha, ingênua ou feita de aço caso a leitura de um desses termômetros da humanidade não esteja exatamente nos tocando. O famoso “o problema sou eu, não você.” Foi isso que eu quis dizer muitas vezes para Vida e proezas de Aléxis Zorbás, seguido de algo do tipo “não me leve a mal, mas minha sensibilidade contemporânea não combina muito com seus valores antiquados”. Antes de chafurdar em culpa e castigos auto-inflingidos, no entanto, me pareceu importante lembrar que a leitura é uma experiência estritamente individual. Ninguém lê o mesmo livro da mesmíssima maneira. Para começar, as possibilidades de leitura e interpretação de uma obra são infinitas (as famosas lacunas que devem ser preenchidas pelo leitor). E há ainda o fato de que mergulhamos na leitura carregados com nossa história e nossa experiência, o que por sua vez molda essa coisa complicada chamada gosto.

Descrever por que um livro me agrada e outro não é como tentar descrever o que minhas papilas gustativas sentem com um doce específico de uma confeitaria específica do Rio de Janeiro, mas dá para tentar racionalizar isso (a textura da massa, o contraste entre o sabor do chocolate e o da geleia de damasco, etc), embora a argumentação sempre acabe ficando muito aquém da experiência. Para mim, Vida e proezas de Aléxis Zorbás é uma obra publicada em 1946, mas que soa como algo anterior à literatura moderna. Deve ser por causa de uma certa tendência alegórica, que definitivamente não me agrada. Em 1946, iam-se trinta e três anos desde a publicação da primeira parte de Em busca do tempo perdido (Marcel Proust), vinte e quatro anos desde Ulisses (James Joyce) e quatorze anos anos desde Viagem ao fim da noite (Louis-Ferdinand Céline). Sei que estou pegando os pesos mais pesados dentre os clássicos universais, mas me parece válido dizer que Vida e proezas de Aléxis Zorbás – diferentemente dos outros romances citados – serve-se de caricaturas e de uma certa oposição sem nuances para apresentar seus grandes temas. Estou entendendo “oposição sem nuances” pela que se dá, por exemplo, entre o trabalho manual (Zorbás) e o trabalho intelectual (Patrão) e, numa variação dessa, a vida real (Zorbás) e a vida entre os livros (Patrão). Não há problema nenhum em embates. A literatura é feita de embates. Mas, para mim, há algo de ingênuo e esquemático na forma como Kazantzákis trabalha essas oposições no romance. Tudo bem. Eu sou, afinal, uma pessoa que não gosta de Dom Quixote.

Não menos incômodo que isso, para minha sensibilidade de leitora contemporânea, repito, é a forma como as mulheres são descritas ao longo da obra e como, de forma geral, a ideia de “feminino” é tratada. Aqui gostaria de fazer um parênteses: rechaço completamente a noção de que devemos fazer uma espécie de censura tardia a obras que, quando escritas, estavam lidando com um mundo cujos valores eram bem diferentes dos valores de hoje. Lolita é um dos meus livros preferidos, inclusive. E William Faulkner, cujo universo é o de um sul dos Estados Unidos racista e decrépito, está em minha lista pessoal de maiores escritores de todos os tempos. Sou judia e adoro Céline, que era um grande anti-semita. Não preciso ler obras que propaguem meus valores feministas porque entendo que isso pode se tornar extremamente perigoso: romances, sob hipótese alguma, devem ser escritos como cartilhas que pregam essa ou aquela ideologia. Feito esse parênteses, devo admitir que os aforismos a cada duas páginas à respeito da inferioridade da mulher e da sua falta de cerébro não foram agradáveis de ler. E o destino da viúva tampouco me fez criar a mínima empatia com os personagens – incluindo aí nosso narrador não nomeado.

Creio que, pela primeira vez, haverá discordâncias significativas entre as experiências de leitura dos colunistas, o que me parece saudável e divertido. Gosto é gosto e, sim, se discute.

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