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Como um grupo de leitores se uniu para salvar um amigo da cegueira

O fotógrafo Quenani Leal, de 34 anos O fotógrafo Quenani Leal, de 34 anos Share this post
Luise Spieweck Fialho - Redação
Luise Fialho

Segundo um estudo realizado pela The New School for Social Research, de Nova York, pessoas que leem ficção apresentam maior habilidade em detectar e entender emoções alheias. Tal estudo provou-se verdadeiro em um grupo de leitores da TAG: comovidos com a história de um associado, uniram-se para ajudá-lo a continuar desfrutando do amor pela literatura.

Até os 19 anos, Quenani Leal, hoje com 34, não era um grande leitor: sua mãe, dona de uma livraria em São Leopoldo, na região metropolitana de Porto Alegre, indicava livros que não faziam com que ele gostasse de ler. Tudo mudou quando, ainda no final da adolescência, o jovem descobriu um problema de visão que poderia levá-lo rapidamente à cegueira. A ideia de nunca mais poder ler o assustou tanto que, a partir daquele momento, Quenani começou a devorar todos os livros que podia.

Foi em 2013 que ele fez seu primeiro transplante de córneas para tentar vencer o ceratocone, uma doença que afeta o formato e a espessura do tecido. Ao longo de mais de 3 anos, seu corpo tentou aceitar as córneas doadas. Em janeiro de 2017, porém, seu médico deu uma triste notícia: “Eu havia perdido a guerra. Teria pouco mais de 6 meses para refazer o transplante ou perderia a visão”, conta Quenani.

O período coincidiu com sua entrada na TAG, clube de assinatura de livros, e no grupo Tag@relas, um dos que reúne os associados através do WhatsApp. Em uma discussão sobre como surgiu o gosto pela leitura, por acaso, Quenani acabou dividindo sua história pessoal e o difícil momento pelo qual estava passando.

Comovidos com a ideia de perder um membro do grupo, que poderia ficar impossibilitado de ler, os participantes do Tag@relas logo tomaram a iniciativa de criar uma vaquinha virtual para ajudar o amigo. Em apenas 4 dias, eles ultrapassaram o valor necessário. Com o restante do dinheiro, Quenani conseguiu, além de pagar pela cirurgia, arcar com uma parte das despesas hospitalares.

O procedimento, realizado em março de 2017, foi um sucesso: “Meu corpo reagiu bem melhor dessa vez. Logo após a primeira cirurgia, parecia que eu enxergava através de um copo d’água. Depois da segunda, havia apenas um papel filme. Passei a ter uma vida normal a partir de uma visão que não tinha mais jeito”, diz Quenani, que, graças ao êxito do retransplante, conseguirá concluir dois grandes projetos: graduar-se na faculdade de Publicidade e Propaganda e seguir com sua carreira de fotógrafo.

“Por muitas vezes a gente pensa que as conexões digitais não têm relevância. Mas os avatares são pessoas. Uma córnea não é uma peça de computador que se pode simplesmente comprar e substituir. É preciso uma rede muito grande de pessoas para fazer um transplante acontecer, desde a formação do médico até a família que dispôs o órgão da pessoa amada, e por duas vezes para mim. Talvez eu não conheça 99% daqueles que contribuíram com a vaquinha, mas eles transformaram a minha vida. E agora eu estou enxergando de novo. Como pode alguém ter tanta empatia? Isso não está resumido na vaquinha. É muito mais profundo”, diz Quenani, que completa: “É fascinante ver o que uma comunidade de interessados pela leitura pode fazer e isso é uma lição para mim; uma coisa à qual eu não consigo mais ficar indiferente. É impressionante o poder que isso tem”.

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