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Entrevista com Daniel Galera: romances de faroeste influenciaram “Barba ensopada de sangue”?

Daniel Galera Share this post

O escritor e tradutor Daniel Galera, um dos nomes de maior destaque da literatura brasileira contemporânea, foi curador da TAG – Experiências Literárias no mês de abril. Nascido em São Paulo em 1979, Galera viveu a maior parte de sua vida na cidade de Porto Alegre. Seu livro de maior sucesso é Barba ensopada de sangue (2012), vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e do 3º lugar do Jabuti na categoria Romance.

O livro indicado por ele e enviado aos associados da TAG em abril foi Os irmãos Sisters, do canadense Patrick deWitt. A obra, que bebe da fonte dos grandes clássicos do faroeste, traz uma roupagem atual e envolvente ao mesmo tempo em que propõe questionamentos filosóficos nas entrelinhas.

Em entrevista à TAG, Galera explica a razão que o levou a escolher esse título para o clube, ressalta as qualidades do romance e cita uma de suas referências literárias para Barba ensopada de sangue.

O que levou este livro a ser tão importante para você para que o incluísse na lista de indicações à TAG?

Podemos começar pelo meu primeiro encontro com o livro. Eu nunca tinha ouvido falar de Patrick deWitt. Em 2012, visitando Toronto para um evento literário, pedi indicações de obras de novos autores canadenses em uma pequena livraria. O vendedor me mostrou Os irmãos Sisters e o defendeu com tanta ênfase e emoção que comprei o livro na mesma hora. Ele disse que eu não me arrependeria, e tinha razão. Decidi indicá-lo porque é um ótimo romance de qualquer ângulo que se olhe. Toma um gênero conhecido, o faroeste, e faz dele algo novo e surpreendente. É ao mesmo tempo realista e absurdo, farsesco e atual, engraçado e perturbador, envolvente e exigente, belo e terrível. A dupla de protagonistas é inesquecível, mas não só eles. Quase todos os personagens coadjuvantes são muito vivos e marcantes, como por exemplo o cavalo Tub, que desperta uma empatia imensa no leitor e tem um destino de cortar o coração.

Imagine que mais de dez mil associados receberão este livro em suas casas. O que você diria a eles neste momento? Por que este é “um livro que deve ser lido”?

Minha sugestão aos associados é que confiem no livro e se entreguem ao que, de início, parece ser apenas mais uma aventura em estilo faroeste, cheia de clichês do gênero. Dois irmãos matadores são contratados para assassinar um garimpeiro em plena corrida do ouro no oeste americano. Um deles, Eli, o narrador da história, é um homem algo ingênuo e cheio de compaixão. O outro, Charlie, é um executor pragmático e brutal. O leitor acha que pode prever o que vem pela frente, mas deWitt vai quebrando as expectativas uma a uma. Em meio ao humor negro e à brutalidade, brotam emoções intensas e reflexões profundas sobre honra, amizade, amor, misericórdia, família. A boa ficção nos leva para outro mundo para que vejamos com mais clareza a nossa própria experiência e a condição humana. Os irmãos Sisters triunfa nesse sentido. E eu também chamaria a atenção para os diálogos do livro, concisos e contundentes, capazes de provocar no leitor risadas amargas e devaneios melancólicos.

A narrativa é incomum. À primeira vista um western bem humorado, deWitt insere conceitos de moralidade, além de captar a mistura de rivalidade, admiração e amor que existe entre irmãos, tornando tudo mais interessante. Qual sua opinião sobre isso?

De fato, a crise moral de Eli e a relação entre os dois irmãos formam a espinha dorsal da narrativa. De início, esses personagens podem parecer distantes demais do leitor: assassinos de aluguel vivendo suas aventuras no Velho Oeste dos EUA. Aos poucos, porém, se descortina um drama de amor e ódio fraterno que é profundamente humano e atemporal.

Sabemos que é sempre difícil falar sobre o que influencia a criação literária de cada autor. De qualquer forma, você acha que há algum tipo de influência de deWitt em sua própria obra?

Não penso que este livro influenciou diretamente na minha escrita. Mas Os irmãos Sisters dialoga com toda uma tradição de romances de faroeste sombrios e cheios de humor absurdo, entre eles os livros de Cormac McCarthy. Estes exerceram alguma influência sobre o que escrevo, em especial no caso do romance Barba ensopada de sangue.

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