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Entrevista com o estúdio Bloco Gráfico: saiba mais sobre o projeto gráfico de “Uns e outros”

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Em julho de 2017, em comemoração aos 3 anos da TAG, realizamos um sonho antigo ao publicar a coletânea Uns e outros – Contos espelhados, o primeiro livro inédito do clube. A obra traz 10 pares de contos: 10 escritores de língua portuguesa contemporânea se inspiraram em grandes contos da literatura universal para escrever, a partir deles, as suas releituras.

O projeto gráfico do livro chamou a atenção de muitos leitores. Para contar um pouco mais sobre ele, entrevistamos Paulo André Chagas, diretor de arte do Bloco Gráfico. O estúdio já trabalhou com grandes editoras, como Biblioteca Azul, Sesc e Cosac Naify e encabeçou a concepção e a execução do projeto gráfico de Uns e outros.

Por onde começa o processo de idealização do projeto gráfico de um livro?

O processo de criação varia a cada trabalho mas, em geral, um bom ponto de partida é tentar estabelecer uma relação entre o projeto gráfico e o conteúdo da obra. Além da leitura, fazemos uma pesquisa sobre quem é o autor e em que contexto o livro foi escrito. Com isso já começamos a reunir alguns elementos que poderão guiar o projeto. É sempre importante a discussão com os autores (quando possível) e com os editores, que trazem também as expectativas da editora e do público, além de questões relativas ao orçamento e ao preço de capa.

Dada a importância de que a forma esteja ligada ao conteúdo do livro, quais elementos buscam reforçar a ideia de espelho no projeto de Uns e outros?

O espelhamento, dos textos e dos autores, era estrutural e o desafio do projeto foi explorar graficamente esse conceito – algo mais conectado ao universo dos livros e que pudesse ser aplicado tanto na capa como no miolo. Optamos por seguir um caminho tipográfico, que resultasse em uma publicação mais elegante. Lidamos com o espelhamento no Uns e outros mais como um diálogo entre os autores clássicos e os contemporâneos do que propriamente com o objeto espelho.

De onde surgiu a ideia dos nomes dos escritores desconstruídos na capa?

Queríamos trazer todos os autores para a capa e enfatizar o diálogo entre os clássicos e os contemporâneos de alguma forma graficamente interessante e até misteriosa. Desse modo, decidimos que os 18 autores ocupariam o mesmo espaço – uns na quarta capa e os outros na capa, desconstruídos, formando um desenho quase abstrato. Assim, os nomes dos autores e seus espelhamentos só seriam revelados a partir das páginas de rosto, onde ocupariam a mesma área que na capa, agora no miolo, finalmente legíveis (construídos).

O livro se utilizou, além da capa dura, de acabamentos como hot stamping prata e preto. Como esses elementos agregam ao projeto estético?

Achamos importante pensar o livro como um objeto tátil e tridimensional. Os hot stampings, prateado e preto, o papel cinza colorido na massa e sem laminação da capa, a guarda impressa com uma cor especial prateada e o fitilho são elementos que, se usados com o intuito de dialogar com a estrutura do texto, enobrecem o livro impresso, e, nesse caso, fortalecem o projeto. O uso do hot stamping prateado no título traz, literalmente, o espelhamento. Já o do hot stamping preto enfatiza a presença dos nomes dos autores e as marcas por eles deixados.

Cada um dos 10 pares de contos possui tipografia própria. Qual foi o efeito pretendido com essa escolha? As fontes se comunicam?

Entendemos a tipografia como a voz do livro e parte essencial da sua identidade. E a partir dela, de uma forma sutil, criamos uma particularidade para cada dupla de autores e para o livro como um todo – como se fossem dez livros dentro de um. Achamos que é uma forma bonita e delicada de enfatizar os “espelhos”, menos literal do que, por exemplo, colocar um conto ao lado do outro.

A leitura em sequência é importante para o ritmo do livro, por isso evitamos qualquer tipo de interrupção. Ao mesmo tempo achamos importante criar uma voz mais específica para cada espelho (que é estrutural no livro). Como é um procedimento sutil, não seria de imediato que os leitores notariam a correspondência das fontes. Essa descoberta, para os mais atentos, ocorreria gradualmente na leitura. Achamos que os leitores da TAG, já atentos ao projeto gráfico que varia a cada edição, teriam os olhos educados para identificar as sutis variações e identificar as diferenças e afinidades da tipografia ao longo do livro.

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