Enviado aos associados da TAG Inéditos em agosto, Maya & Natasha é o romance de estreia de Elyse Durham. O livro narra a jornada de duas meninas gêmeas, nascidas em meio à guerra, inspiradas e assombradas pela memória da mãe, uma jovem e promissora bailarina que tira a própria vida logo após o parto. Na União Soviética da Guerra Fria, Maya e Natasha crescem seguindo os passos maternos no balé, movidas tanto por sua paixão pela dança quanto pelo acesso a privilégios que o acesso à classe artística possibilitava naqueles tempos conturbados.
Mas em seu último ano de estudos na prestigiada academia Vaganova, apenas uma delas será aceita na mundialmente reconhecida companhia de balé Kirov, e essa cruel disputa aos poucos revela os lados mais sombrios do vínculo entre as duas — mostrando como as circunstâncias de uma época podem contaminar para sempre até mesmo as relações mais valiosas de nossas vidas. Leia abaixo a entrevista com a autora Elyse Durham!
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SEIS PERGUNTAS PARA ELYSE DURHAM
1- De que forma a experiência de aprender balé depois de adulta inspirou você a escrever Maya & Natasha?
Eu jamais conseguiria ter escrito este romance se não tivesse experimentado antes o balé no meu próprio corpo. Passamos tanto tempo de nossas vidas em frente a telas que, em parte, procurei o balé para me lembrar de que sou uma criatura em um corpo. As aulas que fiz quando adulta não só foram profundamente prazerosas, mas também me lançaram em uma exploração do balé que durou anos. Levei algum tempo para perceber que estava, de fato, trabalhando em um romance. De início, eu só estava seguindo a minha curiosidade.
Muitos livros sobre balé focam apenas no lado sórdido — distúrbios alimentares, dependência química, professores cruéis. Até começar a fazer aulas, eu achava que esses clichês eram o balé. Mas então comecei a dançar e percebi que esse era apenas o lado sombrio. Eu queria escrever sobre o quanto o balé é belo e transformador, tanto como arte quanto como disciplina. Se você ler memórias de bailarinos, verá que eles realmente falam sobre lesões e dificuldades como as que mencionei. Mas o que eles mais querem compartilhar é o quanto amam o balé. Era isso que eu também queria compartilhar.
2- Seu romance é ambientado no contexto da Guerra Fria. Como foi a pesquisa para o livro? Que cuidados tomou para narrar a complexidade daquele momento histórico sem reforçar estereótipos?
A pesquisa é uma das coisas que eu mais amo no meu trabalho, e, para este livro, mergulhei de cabeça. Li muitos, muitos livros — da história russa à cultura soviética, passando por psicologia da dança. Conversei com estudiosos, entrevistei bailarinos, professores, pianistas, vendedores de sapatilhas de ponta, até um cirurgião ortopédico. Fiz aulas de dança com professores de diferentes lugares dos Estados Unidos ao longo de vários anos. E, claro, assisti a muitas apresentações, e até a alguns ensaios de figurino do New York City Ballet.
Evitar estereótipos foi uma das coisas mais importantes para mim. Eu não queria que o que eu estava escrevendo tivesse o menor cheiro de propaganda da Guerra Fria. Compreendi a importância disso numa tarde na Biblioteca Pública de Nova York, na seção de Artes Performáticas. Passei o dia vasculhando os arquivos do Bolshoi e assisti a uma série de vídeos do acervo pessoal de Mikhail Baryshnikov, filmados em escolas de balé soviéticas nas décadas de 60 e 70. Em um desses vídeos, um casal adolescente ensaiava um pas de deux e, de repente, a menina escorregou e caiu… e caiu na risada. Fiquei muito surpresa.
Existe esse estereótipo americano de que todo mundo na União Soviética era totalmente sem alegria, quase nem humano — e ali estava aquela garota rindo de si mesma por ter errado. Foi um momento que me fez perceber que, não importava onde ela tivesse nascido, nem o quanto fosse ambiciosa, aquela jovem soviética extremamente talentosa ainda era, no fim das contas, apenas uma garota. Guardei esse momento comigo durante todo o processo de escrita.
3- Uma das virtudes do seu livro é propor uma reflexão sobre a complementaridade de duas personalidades contrastantes, no balé e na vida. Se à primeira vista Natasha parece estar em vantagem com seu jeito solto e sua fluidez ao dançar, ao longo do livro as características de Maya também ganham outros contornos. Essas personagens refletem de algum modo aprendizados que você teve ao se relacionar com a arte?
O livro partiu certamente da minha própria experiência com a criação artística — e também da experiência dos meus colegas. Percebi que as pessoas para quem fazer arte vem mais naturalmente, como Natasha, também são, muitas vezes, as que mais tendem a tomar isso como dado. Já aquelas que precisaram batalhar muito, como Maya, estão acostumadas a lutar com unhas e dentes e, por isso, geralmente são menos propensas a desistir.
Mas será que insistir a qualquer custo é sempre uma coisa boa? Uma das primeiras inspirações para este romance foi o balé La Valse, de George Balanchine, no qual uma jovem é seduzida pela figura da Morte. A Morte apela à vaidade da garota, afastando ela de seus colegas, fazendo ela se sentir mais importante do que eles com joias e outros presentes. Para mim, esse balé mostra como a ambição pode ser sedutora. Fazer arte exige muitos sacrifícios, e exige também certo grau de isolamento — mas como saber quando você já abriu mão demais? Como saber quando o desejo de vencer passou a te consumir por completo? A garota de La Valse se deixa levar tanto por sua vaidade e ambição que só percebe que foi longe demais quando já é tarde demais. Quando vi esse balé, entendi exatamente que tipo de história eu queria contar.
4- O que motivou você a narrar essa história em terceira pessoa, com um narrador onisciente?
Desde criança eu amo narradores oniscientes — eles aparecem com frequência na literatura infantil, provavelmente porque são ótimos contadores de histórias. Eu adorava quando o narrador onisciente se afastava da trama principal para dar sua opinião sobre algum assunto. Isso fazia os livros parecerem muito pessoais, como se houvesse alguém ali do seu lado, inventando aquela história só para você.
Eu também sabia que contar essa história exigiria revelar ou explicar muito contexto, e eu queria fazer isso sem sobrecarregar o leitor — ou mesmo sem chamar atenção para o fato de que isso estava acontecendo. O tema era tão vasto e profundo que eu precisava de um narrador capaz de costurar tudo isso junto, alguém que soubesse e entendesse muito mais do que os próprios personagens. Mas também era importante que nem mesmo esse narrador soubesse absolutamente tudo. Toda história precisa carregar um certo mistério…
5- Você cita Guerra e Paz, de Tolstói, durante a narrativa de Maya & Natasha. Que insights esse clássico da literatura trouxe a você durante a escrita do seu livro?
Guerra e Paz ficou na minha mesa durante todo o tempo em que escrevi este livro. Me apaixonei por essa história pela primeira vez depois de assistir à adaptação soviética de 1966, em um cinema em Detroit, e peguei o romance alguns meses depois, logo no início da pandemia. A escritora Yiyun Li estava conduzindo uma leitura coletiva online no Twitter: todos os dias, ela nos atribuía algumas páginas para ler e publicava pequenas análises sobre os recursos narrativos daquele trecho. Sou imensamente grata por isso, porque essa leitura me manteve sã em um momento assustador e ainda me deu muitos insights sobre a construção do mundo de Tolstói.
Aprendi muito com o narrador onisciente de Tolstói. Guerra e Paz é épico em todos os sentidos da palavra, mas esse narrador nunca perde de vista a história profundamente humana que está sendo contada. Fiquei maravilhada com a abrangência da experiência humana que o romance explora: Tolstói conseguia escrever com a mesma naturalidade sobre como era estar na pele de Napoleão ou sobre o que sentia uma garota de quinze anos, empolgada demais para conseguir dormir em uma linda noite de verão. A onisciência era uma das formas que ele usava para costurar todos esses elementos.
6- Como tem sido a troca com o público depois do lançamento de Maya & Natasha?
É uma honra e um prazer ser lida. Meus comentários favoritos são aqueles em que as pessoas dizem que o livro as fez querer aprender mais sobre balé, ou sobre a Guerra Fria, ou até ler Guerra e Paz. O que mais eu poderia desejar além disso?
E fico especialmente feliz em ver Maya & Natasha sendo traduzido. Quando eu era criança, morava em uma cidadezinha do interior de Michigan, cercada por plantações. A biblioteca mais próxima ficava bem longe, mas eu amava os livros com todo o meu coração. Se alguém dissesse àquela garotinha que um dia ela escreveria algo que seria publicado ao redor do mundo, ela jamais teria acreditado. Até hoje eu preciso me beliscar para acreditar que é verdade.
A ESTANTE DE ELYSE DURHAM
Primeiro livro que li: Harold and the purple crayon, de Crockett Johnson
Livro que estou lendo: Digital Minimalism, de Cal Newport. Está me lembrando, mais uma vez, que o mundo pode nos oferecer muito mais do que telas.
Livro que mudou minha vida: Hunger, de Lan Samantha Chang. Me fez desejar ser escritora.
Livro que eu gostaria de ter escrito: Qualquer um dos livros de Moomins, de Tove Jannson. Eles são, até a frase final, perfeitos.
O último livro que me fez chorar: História de uma alma, de Santa Teresinha do Menino Jesus. Especificamente o relato de sua morte.
O último livro que me fez rir: Não saberia dizer qual, mas certamente um livro dos Moomins.
Livro que dou de presente: Eu tenho alguns sobrinhos nascendo no momento, então diria que Madeline, de Ludwig Bemelmans.
Livro que não consegui terminar: Conclave, de Robert Harris – mas só porque eu gostei tanto que não conseguia suportar terminá-lo, e quero manter sempre algumas páginas por ler.
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