Entrevistas / Livros / Coleção 2018 / O alforje, de Bahiyyih Nakhjavani

Rubens Figueiredo fala sobre a primeira tradução de Bahiyyih Nakhjavani

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Em fevereiro, a escritora iraniana Bahiyyih Nakhjavani chegou ao Brasil: o livro O alforje foi a primeira obra da autora publicada no país. Para trazê-la aos leitores brasileiros, a TAG preparou uma edição de luxo em capa dura e encarregou Rubens Figueiredo da tradução. O tradutor é reconhecido principalmente por verter do russo para o português obras como Anna Kariênina e Guerra e paz, ambas de Liev Tolstói. Entrevistamos o tradutor, que contou um pouco mais sobre esse desafio.

TAG – O alforje retrata uma cultura muito diferente da brasileira, fazendo alusão a outras referências, como aos textos atribuídos a Buda, Confúcio, à religião hindu e à Fé Bahá’í. Você poderia nos contar como ocorreu o processo de tradução do livro e quais elementos chamaram mais sua atenção?

Rubens Figueiredo – O romance se passa em meados do século 19, entre as cidades de Medina e Meca. Trata-se da rota de peregrinação obrigatória para muçulmanos, pelo menos uma vez na vida. Os personagens têm origens diversas: árabes, persas, indianos, etíopes, ingleses etc. Se o pano de fundo comum é a religião muçulmana, em primeiro plano se destacam, como você diz, elementos de diversas culturas, por vezes alheias ao Islã. Talvez o que me chamou a atenção tenha sido a linguagem. A autora parece querer retomar uma espécie de estilo poético e metafórico que remete antes à recriação da literatura oriental processada pelos colonizadores (britânicos e franceses) do que à literatura real daqueles povos (Pérsia, Índia, Império Árabe). Refiro-me a livros como o famoso Rubayat, do intelectual persa Omar Kayan (1048-1131), mas na tradução do poeta romântico britânico do século 19 Edward Fitzgerald, bastante modificada, em relação ao original.

TAG – Anton Tchekhov ficou surpreso quando foi traduzido para o francês, pois seus livros teriam sido pensados especialmente para os leitores russos, não fazendo sentido à realidade francesa. Você acha que O alforje é um livro de uma iraniana para iranianos?

Rubens Figueiredo – São situações muito distintas. Tchekhov quase não saiu de seu país. Já Bahiyyih Nakhjavani quase não viveu no Irã. Ela foi criada em Uganda, nos primeiros anos da infância, depois foi estudar na Inglaterra e nos Estados Unidos e fixou residência na França, onde mora. Acho que ela escreveu esse livro para um público europeu e americano. O romance não contém uma visão realista ou histórica. A tônica é o exotismo romântico, com toques de misticismo moderno.

TAG – Desde o início da sua carreira como tradutor, você já verteu autores muito distintos uns dos outros, como é o caso de Liev Tolstói e Philip Roth. Quais seriam os principais desafios que as línguas russa e inglesa trariam para o ofício da tradução?

Rubens Figueiredo – Minha resposta deve parecer estranha para quem não se mete a fazer traduções com frequência. Mas o principal desafio não está nas outras línguas, e sim no português, na exploração de suas possibilidades, sempre renovadas. Quero dizer: é o nosso idioma que prevalece, no final, e ele é tudo o que o leitor vê, tudo o que ele tem.

TAG – Ser tradutor implica uma relação muito específica do sujeito com sua língua materna. Quais foram as imbricações dessa relação, ao longo dos seus mais de vinte anos enquanto professor de português da rede pública de ensino?

Rubens Figueiredo – Meus alunos empregavam um linguajar peculiar. Sabiam traduzir com extrema perícia sua experiência social e histórica, sua complexa relação com o ambiente em que viviam. Sua linguagem não era a minha, tinha de ser traduzida. Os alunos sabiam muito bem disso e nem pensavam em trocar de linguagem. Demorei para entender que a eficiência, a maleabilidade e a capacidade de se renovar que descobri na linguagem dos meus alunos garantiam a expressão de uma autêntica cultura, de uma tradição recalcada, mas poderosa e de raízes profundas, que não está presente na escola nem nas bibliotecas. Mas que os ajuda a se defender e sobreviver.

1 comment

Amélia Karolina 7 de abril de 2018 Responder

Adorei a entrevista.

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