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James Joyce e Marcel Proust se conheceram em um jantar. E foi constrangedor.

Marcel Proust e James Joyce Share this post
Luise Spieweck Fialho - Redação
Luise Fialho

James Joyce e Marcel Proust são dois dos mais célebres escritores do século XX e assinam grandes clássicos da literatura mundial. O primeiro, irlandês, escreveu o romance Ulysses (1922), repleto de experimentações estilísticas e por isso considerado um dos livros de mais complexa interpretação de todos os tempos; o segundo, francês, é o autor da obra Em busca do tempo perdido, composta por 7 volumes publicados entre 1913 e 1927. Apesar de diferentes no estilo de vida e da prosa, ambos exploraram de forma vasta as próprias vivências em seus escritos, incluindo as cidades onde viviam, as nações às quais pertenciam e seus meios sociais.

O que alguns talvez não saibam é que esses dois gigantes das Letras se viram pessoalmente, uma única vez: o encontro aconteceu no dia 15 de maio de 1922 no Hotel Majestic, em Paris, em um jantar promovido pelo novelista Sydney Schiff (cujo pseudônimo literário é Stephen Hudson) em comemoração à estreia do balé burlesco Le Renard. O jantar começou após a meia-noite e, entre outros convidados ilustres, se encontrava o famoso pintor espanhol Pablo Picasso.

Na ocasião, Joyce chegou ao jantar mal vestido e já muito bêbado, aparentemente numa tentativa de aplacar o nervosismo. Proust, em compensação, trajava roupas visivelmente elegantes quando surgiu no Majestic atrasado, por volta das duas e meia da madrugada. Na época, ele já estava bastante doente e raramente aparecia em público.

Segundo o próprio James Joyce em relato a um amigo, a conversa dos dois se resumiu à palavra “não”. Proust indagava ao escritor irlandês se ele conhecia diferentes personalidades da nobreza, ao que Joyce respondia: “não”. Alguém perguntou ao francês se ele já havia lido algum trecho de Ulysses, que havia sido lançado três meses antes, ao que ele respondeu: “não”. E assim por diante. Nenhum dos dois havia lido a obra um do outro, ou, pelo menos, não o quiseram admitir.

Por fim, o encontro dos dois gênios terminou de forma bastante constrangedora: Proust convidou o anfitrião Sydney Schiff e a esposa deste para irem ao seu apartamento. Os três entraram em um táxi e James Joyce, que estava por perto, se juntou a eles sem ser convidado. O autor de Ulysses prontamente acendeu um cigarro e abriu as janelas do veículo, para desespero de Proust, que tinha asma e medo do ar fresco. Assim que os quatro chegaram ao destino, o francês implorou ao taxista que levasse Joyce para casa e se apressou em direção ao seu apartamento, deixando por conta do casal de anfitriões a missão de se livrar dele.

James Joyce ainda mencionaria em vida o dia em que conheceu o grande romancista de Em busca do tempo perdido, recordando a ocasião em conversa com o escritor e dramaturgo irlandês Samuel Beckett. Já Marcel Proust morreu de pneumonia apenas 6 meses depois, no dia 18 de novembro, sem deixar nenhuma menção ao encontro.

1 comment

Deus Carmo 13 de dezembro de 2018 Responder

É uma pena que isto tenha acontecido, mas não se poderia esperar coisa diferente dos dois, ambos meios loucos, com adiferença de ser o Proust extremamente preconceituoso.

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