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A louca da casa

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O livro da TAG deste mês mora na minha mesa de trabalho há muitos anos, e que alegria é poder falar um pouquinho dele aqui… É meu vizinho de ideias e, quando estou desanimada dos meus personagens, quando a palavra cala em mim, vou ali dar uma furungadinha na prosa lindíssima e delicada de Rosa Montero neste seu A louca da casa.

A louca da casa é uma homenagem à imaginação, e à literatura como uma das suas máximas expressões. Sendo a imaginação a minha deusa, o meu guia, a outra parte dos meus dias – que se dividem, cotidianamente, entre o real e o fabulado, posto que contar histórias é o meu trabalho – este livro tocou-me profundamente. Eu o li, pela primeira vez, há muitos anos, quando Rosa Montero veio lançá-lo na Bienal do Rio, e esta sua pequena joia brilhou no alto da lista dos mais vendidos. Foi uma febre, naquele tempo; mas, para mim, A louca da casa está mais para um calor amigo – se estou triste, costumo dar um passeio pelas suas páginas, pelas histórias, ditos e raciocínios que Rosa nos apresenta com tanta elegância, amor e beleza. Pois, ela também é discípula da imaginação – esta senhora que espalha benesses, mas, às vezes, também semeia angústia nos seus criados mortais. Como diz Rosa, a imaginação sem freios é como um raio no meio da noite: abrasa mas ilumina o mundo.

A imaginação, a louca da casa, como chamou-a Santa Teresa de Jesus, é uma luz que nasce dentro de todos nós. Na infância, a imaginação guia-nos e ilumina nossos dias, o cotidiano é povoado pelo fantástico e todo o impossível é plausível. Porém, à medida em que vamos crescendo, a sensatez vai apagando a nossa imaginação, perdemos o olhar múltiplo, mágico, que nos eleva acima da realidade óbvia, da vida monumental, diz Rosa Montero. Todos aqueles que criam, precisam manter a sua ingenuidade infantil, guardar a sua criança viva dentro de si. Como escreveu Martin Amis, o escritor é um ser que nunca chega a ficar adulto.

De Sherazade à Segunda Guerra Mundial, passado pela paixão amorosa e pela peste negra, contando um pouco das suas memórias pessoais, Rosa Montero traça um panorama da imaginação e das possibilidades do uso da palavra escrita, analisando as reviravoltas que a criatividade pode dar nesta nossa vida comezinha. Dessa aventura, nasce um livro inesquecível, uma viagem fabuladora adorável para todos aqueles que, como nós, amam as boas histórias, e têm na literatura a sua janela para a grandiosidade inominável da vida para além deste fio cotidiano que tecemos quase desatentamente.

Uma ode aos romances, às boas histórias e aos escritores, estas criaturas abrasadas pela imaginação, que se arriscam na furiosa labuta de recriar a vida, matéria mágica e estilhaçada, com suas palavras e personagens. A louca da casa precisa ser lido com uma caneta por perto – é cheio de ditos, de frases belíssimas, de pequenos contos emocionantes e emocionados. Um daqueles livros que a gente mantém sobre a mesa, por meses e anos, porque, em sua delicadeza, são grandes demais para qualquer prateleira.

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