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Delicadeza e fúria

Roddy Doyle Roddy Doyle Share this post

Era uma vez um menino na Dublin dos anos 60…

Seu nome é Patrick Clarke, mas todos o chamam de Paddy. Na sua escola, existem dezenas de Patricks – é o nome do seu pai, e ele gosta deste nome. Ele gosta do pai, mas gosta um pouquinho mais da mãe. Ela passa os dias em casa, cuidando de Paddy, Simbad e das duas menininhas, que, de tão desimportantes aos olhos de Paddy, são meras sombras neste romance tão bonito, tão bruto e tão avassalador; pois, a vida de Paddy é uma vida dura, uma luta cotidiana por poder e por amor.

Em meio à cidade que não para de crescer, ruas nascendo do dia para a noite, bairros inteiros brotando como flores, Paddy e seus amigos vivem suas infâncias. É um tempo no qual ainda existem terrenos baldios, mas os garotos perdem espaço violentamente para a expansão imobiliária. Eles brincam em canteiros de obras, lutam sob as vistas dos operários, desvendam bairros novos e andam soltos como pardais – mas são conhecidos por todos. É preciso muito cuidado, portanto, para que suas estripulias e pequenos roubos não cheguem aos ouvidos dos pais.

Tudo é mistificado e tudo é simples nesta infância repleta de partidas de futebol, brigas e rituais mágicos. Aliás, tudo é ritual, até mesmo roubar as lojas do bairro, azucrinando a vida das velhinhas chatas, das vendedoras distraídas e boazinhas e da vizinha que implica com Paddy e Simbad. Roubar é um jogo – rouba-se pelo frio na barriga, pela aventura. Se o pai de Paddy descobre, é surra na certa. Ele já apanhou várias vezes, mas, quase sempre, jurou que era inocente. Jurar pode ser pior! A cinta canta, e a mãe de Paddy chora, porque mãe é mãe – e esta mãe é pura bondade, jantares quentinhos e a mesa do café da manhã sempre posta do mesmo jeito. A mãe de Paddy é a estrada entre ele e seu pai num tempo em que os chefes de família, mesmo distraídos, e às vezes até legais como Patrick Clarke, sempre dão a última palavra, sempre estão cansados do serviço e sempre têm o monopólio da televisão e da sala de visitas – nome estranho para uma parte da casa tão pouco usada, já que os Clarke quase nunca recebem visitantes. Aos domingos, o pai de Paddy perde-se nesta sala, e todos são obrigados a fazer silêncio, o que é muito chato mesmo.

Paddy ama sua mãe. Ama-a tanto que se preocupa com ela. Não gostaria que ela soubesse que não come seus sanduíches no almoço do colégio, mas esconde-os no fundo da carteira até que criem um mofo verde e nojento, e depois joga tudo no lixo quando o professor Henno não está vendo. Paddy ama tanto a sua mãe que ela é responsável pelos seus momentos de ternura (às vezes, o pequeno Simbad também o emociona, apesar de sofrer várias agruras nas mãos de Paddy e seus amigos). Por causa da mãe, nasce em Paddy Clarke uma responsabilidade que é enorme para um menininho de dez anos: preocupado com as brigas paternas, que aumentam em número e intensidade sempre que as crianças vão para a cama ou estão vendo televisão, Paddy já não dorme mais à noite, perscrutando na madrugada cada suspiro ou discussão. É assim que, exausto, Paddy pega no sono no meio da aula certa manhã. Aliás, uma das únicas passagens do livro na qual o odioso professor Henno deixa de lado o sadismo e trata nosso menino com gentileza.

Quanta solidão e quanta dor escondem-se na infância! Quantas aventuras e perguntas sem resposta, a difícil busca por amor e por respeito num mundo onde as crianças levam a culpa de muita coisa, e são tratadas como adultos. Havia o mistério da morte, havia o sexo e as regras infernais de uma escola onde a palmatória cantava dia sim, dia não. A casa era um refúgio, mas também um sofrimento: pois Paddy se vê diante da certeza inexorável de que seu pai vai sair de casa e abandonar a mãe. Ele presencia uma briga, certa tarde. Vê o tapa. Vê a vergonha do pai, que sai e volta só horas depois. As saídas paternas, intempestivas, bruscas, sem explicação, sucedem-se. Até aquela última. Quando Paddy sabe que vai virar o homem da casa.

Um livro bonito e triste, delicado e furioso, sobre um menino e a selva da sua infância. Um livro que faz rir e chorar. Cheio de dureza, mas também cheio de magia, porque, no meio daquela infância de canteiros de obra, palmatórias e potes de leite com cereal, sempre haverá espaço para a fantasia e para a inocência. Fiquei com vontade de pegar Paddy no colo inúmeras vezes e de enchê-lo de beijos, mas, provavelmente, ele detestaria isso. Afinal, beijo é coisa de meninas e de covardes.

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