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Simplesmente inesquecível

Marcador e posfácio da edição especial de Vitória, feita pela TAG Marcador e posfácio da edição especial de Vitória, feita pela TAG Share this post

Um romance que nos vai enredando lentamente, assim é Vitória, de Joseph Conrad. Gosto muito do Conrad, amigos, e confesso que a sua nacionalidade polonesa sempre me orgulhou. A própria vida dele é um belíssimo romance, cujos respingos estão por toda a sua obra. Curioso como Conrad, sendo educado em polonês e francês, escolheu escrever suas obras, assim como Nabokov, em inglês. E suas obras são saborosas, delicadas, histórias sobre os desejos humanos e sobre as nossas infinitas desilusões.

Eu não conhecia este, que dizem ser o último grande romance de Conrad – e Vitória foi, para mim, uma leitura enfeitiçadora, angustiante e de uma beleza cruel. Pois, durante todo o livro, sabemos que as coisas terminarão mal de um modo ou outro para o personagem principal – o barão Heyst, um homem desiludido do mundo, que foge para o Extremo Oriente, enfiando-se numa ilha desabitada, onde experiencia a sua pacata solidão.

Até que… Bem, é aí que o livro começa a nos prender, pois Conrad vai construindo a estrada da tragédia de Heyst com tal maestria que chega a ser impossível parar a leitura. Não há único personagem que não seja maravilhoso no romance – Axel Heyst, o barão pessimista, Lena, a bela e jovem garota inglesa que o enfeitiça, a senhora Schomberg, quase uma sombra, mas que acabamos conhecendo mais pelo que não diz, do que pelo pouco que atua abertamente, o chinês Wang, os incríveis bandidos que vão dar na ilha, o senhor Jones e o magnífico Martin Ricardo, um dos meus personagens preferidos. Em alguns momentos, o livro parece uma peça de teatro, tal a beleza e pureza dos diálogos – desaparecem diante dos nossos olhos a ilha, com sua beleza e seu calor enlouquecedores, o quieto vulcão e a própria casa onde Heyst fez seu refúgio, e ficam as vozes belíssimas, os duelos e duetos verbais refinados de Conrad.

Um livro para ler com calma, saboreando cada imagem, cada pequeno e sutil desdobramento de uma narrativa tão bem-intrincada que mais parece um mecanismo de armar. Como diz o próprio Heyst em um dado momento: “Um homem vagueia. Os homens mais bem-sucedidos vaguearam rumo ao seu sucesso.” Vitória é assim: Joseph Conrad parece vaguear suavemente, contando fatos e detalhes aqui e ali, mas todo o tempo, absolutamente todo o tempo, com cada parágrafo e com cada palavra, ele vai conduzindo sua história rumo ao seu desfecho impressionante e trágico – e, ainda assim, mesmo a tragédia anunciada não tira do leitor nem uma única pétala da sua esplendorosa, vulcânica violência.

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