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Metaliteratura: livros que falam sobre livros

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Após meses hospitalizado, Sidney Orr enfrenta dificuldades para retomar a profissão de escritor. Certo dia, passeando pelas ruas de Nova York, compra um intrigante caderno azul, e nele as palavras voltam magicamente a fluir. A partir deste ponto, Paul Auster, autor de Noite do oráculo (enviado aos associados em setembro de 2015), passa a narrar não somente a história do seu protagonista, Sidney Orr, mas a que o próprio personagem escreve no caderno azul – um romance dentro do romance.

A literatura é uma paixão comum entre os escritores, que frequentemente a inserem em seus projetos literários, criando assim a chamada “metaliteratura”, ou seja, uma obra que tematiza a própria literatura. É o que fez Paul Auster, em Noite do oráculo, e também Rosa Montero, em A louca da casa. Em suas páginas, a espanhola relata a vida pessoal de outros escritores, discorre sobre o que faz alguém escrever (ou deixar de escrever), conta sua própria história e mistura ficção com não ficção para construir suas reflexões. Como disse a própria autora, “escrever sobre o ofício de escrever é uma espécie de mania obsessiva dos romancistas profissionais”.

Italo Calvino também foi um deles. Em Se um viajante numa noite de inverno (1979), Calvino designou como protagonista seu próprio leitor, que entra em uma livraria e compra um livro chamado Se um viajante numa noite de inverno. Em casa, senta-se em uma poltrona, abre o livro e, neste momento, encontra-se na mesma posição que o leitor. Portanto, você lê, em Se um viajante numa noite de inverno, sobre um leitor que lê o Se um viajante numa noite de inverno. Curioso…

A releitura é outra técnica metaliterária. Em 2014, Jo Baker lançou As sombras de Longbourn, que tem como personagens principais as cozinheiras e serviçais da casa da família Bennet, que no clássico Orgulho e preconceito, de Jane Austen, eram apenas secundárias. Por trás de cada descrição da toalete das irmãs Bennet, havia certamente o trabalho de uma criada, e cada refeição servida implicava uma cozinheira, um mordomo para servi-la. Qual seria a história não contada desses personagens? Inserindo-se em um clássico, mas assumindo outro olhar, Jo Baker criou um trabalho metaliterário.

Encontramos mais um exemplo interessante no romance Café-da-manhã dos campeões (1973), de Kurt Vonnegut. Nele, o narrador frequentemente relembra o leitor que os personagens do livro são ficcionais, frutos de sua própria criação, e que pode fazer com eles o que bem entender! Joseph Conrad também brincou com os limites da ficção, quando, no prefácio de seu romance Nostromo (1904), escreveu: “Minha principal autoridade para construir a história [da República] de Costaguana foi, é claro, meu venerado amigo, o finado Don Jose Avellanos, ministro das cortes da Inglaterra e Espanha, no seu imparcial e eloquente História dos cinquenta anos de desgoverno”. Assim, Conrad, em um ambiente geralmente usado para fatos reais – o prefácio –, atribui como referência de pesquisa uma obra fictícia, escrita por um dos personagens de seu próprio livro! (Como o leitor acabaria descobrindo nas páginas seguintes.)

Calvino, Vonnegut, Auster, Baker, Montero: os exemplos são inúmeros, e a lista poderia continuar longamente. Como denominador comum entre eles, encontramos o prazer máximo dos escritores: o de brincar com as palavras e com a própria literatura, apagando e refazendo a tênue (ou ilusória?) linha que separa a ficção da realidade.

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