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Mês da Consciência Negra: depoimentos de 5 leitores

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No mês da Consciência Negra, perguntamos aos nossos associados: Levando em consideração a sua vivência de leitor ou leitora, qual foi e é a importância dos livros e da literatura na afirmação da sua identidade negra?

Leia cinco depoimentos, na íntegra:

“Ler fortaleceu minha identidade e me fez refletir sobre o meu papel na transformação social que precisamos enfrentar: afirmar a identidade do negro e lutar contra o preconceito.” – Andréia Lopes

Foto de Andréia Lopes

Por meio dos livros, “vejo” de perto histórias reais e fictícias sobre negros que enfrentaram a realidade dura do preconceito, da luta, da discriminação e da marginalização. E por mais que estivessem ali nas páginas, que pareciam distantes da realidade, não é difícil visualizar essas situações acontecendo hoje, bem perto de nós! Como negra, ler cada história doeu, me transportou para esses momentos tão difíceis enfrentados pelo negro no cotidiano! Mas fortaleceu minha identidade e me fez refletir sobre o meu papel na transformação social que precisamos enfrentar: afirmar a identidade do negro e lutar contra o preconceito. (Andréia Lopes – Associada TAG Curadoria)

“A construção da nossa identidade requer a resiliência de Mem, de Maya Angelou, de Enitan.” – Denise Cardoso

Foto de Denise Cardoso

Nasci negra de pele clara. Cresci ouvindo que meu cabelo era “ruim” e como a pequena Pecola, não entendia o que tinha de errado com ele. A construção da nossa identidade requer a resiliência de Mem, de Maya Angelou, de Enitan. Com elas e com a TAG entrei em contato com a literatura de escritores negros, elas e eles fizeram a diferença na solidão de meus sentimentos de inadequação, comum a todos os negros num país racista. Pude acolher a dor de Cora e sua resistência, Nnu Ego e seu doloroso compromisso com a maternidade; assim ajudaram a acordar o orgulho de ancestrais que pulsam em mim. A praga do racismo só será superada com luta, com consciência e ações como as da TAG, que destaca publicações com essa temática. (Denise Cardoso – Associada TAG Curadoria)

“Criar através da ausência é uma possibilidade que ser travesti leitora e escritora me fez ocupar.” – Alice Andrade

Foto de Alice Andrade

Enquanto uma Travesti Preta, a Literatura para minha existência sempre foi distante e com poucas representações, e se fez em muitos instantes a partir da ausência, porém foi nesse movimento de me sentir na ausência e através de estudos sociais que consegui me perceber nas possibilidades de moldar meu próprio mundo literário, somando as leituras críticas literárias e a vivência prática com outras das minhas, pude me perceber enquanto para além de cidadã, sujeito de mudança histórica. Criar através da ausência é uma possibilidade que ser travesti leitora e escritora, me fez ocupar. (Alice Andrade – Associada TAG Inéditos)

“Essa foi uma das primeiras lições entre as tantas que a literatura têm me proporcionado: seja você sua protagonista predileta.” – Janaina A.

Foto de Janaina A.

Acredito que a literatura seja uma das primeiras formas com a qual a criança se relaciona com o mundo pra além dela mesma. Comigo não poderia ter sido diferente, eu adorava quando meus pais liam pra mim antes de dormir. Infelizmente não havia tantos livros que contemplassem a diversidade naquela época, e eu tive que resolver essa questão pintando as minhas personagens preferidas com lápis de cor marrom. Essa foi uma das primeiras lições entre as tantas que a literatura têm me proporcionado: seja você sua protagonista predileta. Eu jamais poderei ser grata o suficiente. (Janaina A. – Associada TAG Inéditos e TAG Curadoria)

“No Brasil, não existe apenas o descobrir-se preto, mas também um tornar-se preto. A literatura desempenha esta função na minha trajetória.” – Adilton da Cruz Santana

Foto de Adilton da Cruz Santana

A literatura/leitura/livros, nesta sequência, enquanto categorias únicas, e complementares, possui um papel fundante no meu processo de construção identitário. Crescido num universo permeado pelas palavras orais fui imerso numa compreensão literária não tão convencional, formalista, pois, antes da paixão pelos livros e seus universos imaginados, houve o encantamento pelo ouvir, o ouvir as narrativas populares, grande parte delas herdadas pelos pretos antigos vindos da África, contadas pela minha avó, preta, analfabeta, e eximia contadora de estórias. Os livros físicos vieram posteriormente não como uma realidade presente – não havia uma cultura literária no meu seio familiar -, porém sim, como um compromisso educacional fruto de uma prática intimamente ligada ao universo escolar. Ser acessado pelas palavras e estórias contadas pela minha matriarca materna, Dona Felismina ou Dona Filú, como ela é carinhosamente chamada, é a cartografia territorial identitária mais conhecida por mim.

Por esta razão, nunca nos foi necessário, para mim e meus familiares, o reconhecimento de uma pertença ao campo da negritude, enquanto demarcador político/identitário, bem como, uma compreensão (consciência) objetiva do ser negro nesta sociedade brasileira. Os meus referenciais ideológicos identitários e principalmente políticos foram todos construídos a partir da minha relação com a literatura e os estudos. Ou seja, no Brasil, não existe apenas o descobrir-se preto, mas também um tornar-se preto. A literatura desempenha esta função na minha trajetória. Daí vem a minha inquietação, muito similar àquela presente nos autores, personagens e pesquisadores do campo das ciências sociais: tentar compreender a trama complexa da nossa existência preta.

Quando a poeta afro-peruana, Victória Santa Cruz, diz ‘gritaram-me negra’, em sua poesia de compreensão e descoberta, somos nós, pretos do momento presente que também respondemos afirmativamente “[…] negro(a) sim, negro(a), sou. […] afinal avanço seguro (a) […]. E avançar seguramente, hoje, é seguir desconstruindo o  negativo representacional do racismo nas experiências objetificadas de existências, nas vidas das populações pretas.  Esta poesia performatiza o caráter processual da dolorosa (des) construção de si negra, preta, não negativa, forjada no imaginário coletivo dos brasis.

E aqui uso novamente a poesia preta do poeta brasileiro Cuti para dizer sobre: “[…] às vezes faço questão de não me ver/e entupido com a visão deles/sinto-me a miséria concebida como um eterno começo […]”. A metáfora do eterno começo é muito similar a sensação nauseante vivenciada pela viagem no tempo da personagem, Dana, em “Kindred: laços de sangue”, da Octávia E. Butler. Somos convidados o tempo todo a rememorar o pretérito escravizado das nossas dores nos corpos do presente, sistematicamente apagados pelas politicas genocidas. Mas as nossas experiências não são apenas de dores e sofrimento, elas são necessárias como demarcador histórico-temporal das vidas que importam, e reconhecê-las nos torna conscientes do que não podemos continuar sendo, escravizados.

A literatura se tornou a escola, espaço de trabalho e pesquisa para todas as questões que me afetam enquanto homem preto, baiano, nordestino, brasileiro. Os livros as matérias-primas que viabilizam as diferentes percepções do mundo que me cerca, sou a todo instante atravessado pelas leituras confortáveis e desconfortáveis que faço ao longo de minha vida. A luta não violenta da Maria da Fé, as entranhas expostas violadas da Bertoleza, o estranhamento existencial do Isaías Caminha, a vidas das mulheres pretas: Ana Davenga, Duzu-Querença, Maria, e etc, os olhos azuis doentios objeto de desejo da Pecola, as alegrias da maternidade da Nnu-Ego, na minha pele, o homem invisível, as vidas do Grange Copeland são todos fragmentos de literatura escrevividos, parafraseando as “Escrevivências” da Conceição Evaristo. A identidade preta que me constitui, é vista através das lentes sensíveis daqueles cujo oficio é traduzir em letras a existência das inúmeras vidas que importam. (Adilton da Cruz Santana – Associado TAG Curadoria)

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